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Domingo, 9 Maio 2021
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A globalização e o convívio geracional na era digital

As tecnologias sempre nos ajudaram a ter um futuro melhor, há que saber tirar partido delas.

6 min de leitura
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Pedro Araújo Napoleão
Pedro Araújo Napoleão
Arquiteto com doutoramento em Arquitetura pela Universidade da Corunha. Autor do livro "As Sensações e as Emoções na Arquitetura”.

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A humanidade testemunha uma das maiores transformações do nosso tempo – a era digital. Se dúvidas houvesse, a crise sanitária que nos assola assim o confirma. Não só fez com que se eliminassem resistências e fosse encarada amigavelmente pelas gerações mais velhas, como acelerou o processo de adaptação em todos os domínios da sociedade.

As novas multinacionais da era digital viram aumentar os seus lucros exponencialmente e substituíram definitivamente os grandes grupos industriais que dominaram o velho capitalismo pelo hiper-capitalismo globalizado, o da sociedade universal do consumo hiper-conetado à distância de um confortável e simples click proporcionado pelas apps.

As tecnologias aceleraram o desenvolvimento contaminante do capitalismo industrial que se propagaram e desmultiplicaram pelas mais diversas redes multinacionais até aos nossos dias. O mundo hipermoderno forçou de certa forma, à igualização da sociedade, sem se atender previamente às diferenças normais de ordem sócio‑cultural, levando-o ao fim da heterogeineidade tradicional.

Com a propagação das redes sociais, as pessoas passaram a receber muito mais informação, mas nem por isso passaram a ser mais esclarecidas. Passaram sim, a ter um acesso mais facilitado entre elas, embora de uma forma remota, mergulhando numa espécie de superficialidade mais próxima do neosedentarismo acomodado e apático.

Os novos fluxos da globalização resultantes de um emergente sistema económico global, estão a originar, fatalmente, uma população cada vez mais flutuante, onde a terra parece ficar cada vez mais distante. A preferência ou esta nova inevitabilidade por um maior contacto com a tecnologia, em detrimento da natureza e das manifestações emocionais, leva a um sobreinvestimento cada vez maior no desenvolvimento e manutenção do «lado» racional do homem, relegando para segundo plano o seu «lado» mais emocional, constituindo um conflito intrapsíquico com consequências preocupantes para a humanidade a larga escala.

Assistimos nos últimos anos a uma espécie de formatação de uma sociedade que se deixou holografar pelo mundo das imagens e seduzir pelo consumo, que a conduziu a sérios problemas económicos, éticos e sociais, associados a uma crise de identidade, que questiona todo o lado positivo que a globalização poderia oferecer relativamente a uma sociedade mais unida, participativa e civilizada. A globalização não foi inclusiva. Acentuou desigualdades. Os ricos ficaram cada vez mais ricos e a classe média empobreceu. Conduzindo-nos às fragilidades e incertezas que vivemos atualmente.

Mas, poder‑se‑á retirar daqui um indício positivo que nos leve a acreditar e a ter esperança que a verdadeira globalização ainda poderá ser possível? Como explicaremos a sua evolução no futuro, estando nós, hoje, a meio de uma pandemia, neste ambiente de tensão, certos que as sociedades em geral estão mais voltadas para si? Como será o convívio geracional na era digital?

Um exercício complexo sem respostas imediatas face aos tempos incertos em que vivemos e aos que se avizinham, mas absolutamente essencial. Desenvolvermos em nós próprios uma nova capacidade de apreensão da realidade, de nos abstrairmos e não nos deixarmos seduzir por todo o tipo de informação que nos fazem chegar, muitas vezes próprias de interesses ocultos nas tecnologias que visam maioritariamente a manipulação da sociedade, será um passo de extrema importância. Uma atitude seletiva na abordagem às tecnologias de informação ajudará a eliminar vários conteúdos duvidosos e fará com que holografemos consciente e inconscientemente um mundo melhor, muito mais isento e imparcial.

Numa perspetiva mais otimista, do que aquela que os meios de comunicação normalmente fazem passar, apesar dos tempos de exceção em que vivemos, quero acreditar que o processo de globalização não acabou. Tem ainda um longo caminho a percorrer ao encontro da sua verdadeira mundialização.

Saibamos ver e aproveitar as oportunidades que normalmente emergem das dificuldades, como acontece agora com o caso do Plano de Recuperação e Resiliência, enquadrado pela comissão europeia através do mecanismo de recuperação para fazer face aos grandes constrangimentos provocados por esta pandemia que nos arremessou para uma crise sem precedentes. O PRR foi organizado em três dimensões estruturantes, passará pela resiliência, pela transição climática e pela transição digital.

As tecnologias sempre nos ajudaram a ter um futuro melhor, há que saber tirar partido delas. As tecnologias não acabaram com os empregos, elas geram outros empregos e outras profissões. Fomentemos um maior envolvimento e participação de todos, por uma sociedade mais positiva e muito mais proativa face as novas realidades.

Sabemos que o desenvolvimento económico é necessário e indispensável. A forma manipuladora como muitas vezes parece ser gerido é que se afasta dos valores fundamentais entre as diferentes comunidades e culturas que são absolutamente determinantes para a relação do homem com o meio.

Num momento em que o fosso geracional se acentua, no qual as novas gerações parecem estar mais voltadas para elas próprias, com necessidade de criarem impacto imediato, não percebendo que a vida é uma longa jornada e que a assertividade vinda da experiência, é um posto. Importa às gerações mais antigas terem a capacidade híbrida de perceberem, refletirem e rapidamente se adaptarem, transmitindo às mais novas, valores úteis que assegurem a construção de um mundo melhor.

Deixamos de ter os computadores a trabalhar para nós, e passamos a trabalhar para eles. Delegamos assim, a experiência e todo o conhecimento da história da humanidade, para agora, disfrutarmos do conforto da inteligência artificial. Mas, não nos deixemos iludir! Não deixemos que eles tomem de conta de nós.

Defendo um crescimento sustentado e planeado, como que de uma causa ambiental se tratasse. Um novo movimento cívico que tire partido deste novo paradigma que o mundo digital nos delegou. Uma causa muito para além do sistema convencional político, económico e financeiro. Uma causa que inverta os individualismos resultantes da competitividade excessiva e desleal, patentes na origem dos últimos acontecimentos, no que concerne ao agravamento do fosso entre as classes sociais, aos extremismos e fundamentalismos religiosos. Um novo movimento geracional que tire proveito e desperte um novo ciclo, ambientalmente e socialmente mais saudável. Passemos esta ideia às novas gerações. O futuro também passa por nós.

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