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Vila Nova de Famalicão
Sábado, 4 Fevereiro 2023
Dina Coelho
Residente na freguesia de Bairro, é filha de pais surdos e intérprete de língua gestual portuguesa (LGP). Exerce a profissão de intérprete de LGP desde 2015, em vários contextos, mas essencialmente no âmbito educativo. É coautora do livro Por Amor e mestre em gerontologia. Atualmente pertence aos órgãos sociais da Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa (ATILGP) e da Associação de Surdos de Apoio a Surdos de Matosinhos (ASASM).

“Espero que olhem para as pessoas surdas como capazes de ter um negócio próprio”

Entrevista com Ana Lopes, 29 anos, natural da Ponta do Sol, na ilha da Madeira. Ana Lopes é surda profunda, vive no Porto desde janeiro de 2016, e abriu recentemente um bar chamado “A Ponchita”, em Vila Nova de Gaia. "Não é pela deficiência que temos de estar abaixo ou ser diferentes", salienta a jovem empreendedora, acrescentando que "somos todos iguais" e que "o que está em falta é a comunicação acessível, que tornaria tudo perfeito".

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Dina Coelho
Residente na freguesia de Bairro, é filha de pais surdos e intérprete de língua gestual portuguesa (LGP). Exerce a profissão de intérprete de LGP desde 2015, em vários contextos, mas essencialmente no âmbito educativo. É coautora do livro Por Amor e mestre em gerontologia. Atualmente pertence aos órgãos sociais da Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa (ATILGP) e da Associação de Surdos de Apoio a Surdos de Matosinhos (ASASM).

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NOTÍCIAS DE FAMALICÃO (NF) – Como surgiu a ideia de criar “A Ponchita”?

ANA LOPES (AL) – “A Ponchita” é um projeto para todos, em que o objetivo é a partilha, o convívio e a sensibilização para a Língua Gestual Portuguesa (LGP). É um local onde pessoas surdas e ouvintes podem estar juntas e assim existir mais sensibilização. Esta ideia surgiu há muito tempo. Quanto tinha entre 13 e 15 anos conversava com o meu pai sobre termos um negócio, ambos tínhamos este sonho de ter um restaurante, um bar ou uma loja de roupa, entre outras ideias. Queríamos muito, tivemos muitas barreiras, ora por ser uma pessoa surda, ora por dificuldades económicas, etc. Passado um tempo e sempre com esta ideia em mente, senti que não estava informada em relação aos aspetos necessários para abrir um negócio, formas de investimento, falar com uma agência bancária, com uma câmara municipal, conhecer a legislação, não estava esclarecida acerca destes aspetos. No ano passado fui à Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas (ANPME). Eu fiz uma proposta, apresentei a minha ideia e sendo madeirense, uma pessoa que ama a cultura e a tradição da ilha da Madeira, que cresceu na ilha e conhece a gastronomia, e também por ser surda, olharam para este projeto como sendo algo com muito potencial e que poderia ter futuro. Este contacto com a Associação continuou até que consegui o espaço, fui conseguindo algumas coisas necessárias para a abertura do negócio, contactos, etc. Foi um grande desafio pela comunicação, pela procura de informação, tentava a acessibilidade através da escrita, através de um intérprete de LGP. Foi uma grande luta. Consegui. Inauguramos o espaço a 13 de agosto e de forma gradual vamos conquistando outras coisas e o negócio vai evoluindo.

NF – Que bebidas e comidas madeirenses podemos encontrar n’A Ponchita?

AL – “A Ponchita” tem diversas bebidas tradicionais da ilha da Madeira, como a Brisa de Maracujá, a Brisa de Maçã, a Poncha regional da Madeira feita com aguardente, Nikita de Ananás, Nikita de Maracujá. Ou seja, trouxe vários produtos madeirenses para cá pois sinto que não existem assim muitos espaços no continente. Assim é uma forma de integrar a cultura madeirense na cidade do Porto, e divulgar estes produtos, comidas e bebidas aos clientes que não conhecem. Temos também bolo do caco, simples com manteiga de alho, ou misto, ou com presunto, ou salame. Temos também hambúrguer em bolo do caco, com alface, tomate, queijo, temos variadíssimas coisas. No futuro queremos alargar mais, “A Ponchita” não é um restaurante, mas no futuro quem sabe se não poderá surgir um restaurante.

NF – Foi difícil alcançar este sonho? Sente que foi mais difícil por ser uma pessoa surda?

AL – Sim. Por exemplo, a maioria das empresas de fornecedores de comida e bebida o contacto é feito por telefone. Eu informo que sou surda e peço para que o contacto seja feito através de mensagens ou e-mail, através da escrita, pois por chamada telefónica eu não consigo. E isso é logo uma barreira. As empresas ficam surpreendidas porque a maioria das empresas nunca teve contacto com uma pessoa surda. É um processo complicado. Tenho que sensibilizar, explicar que sou uma pessoa surda, que a comunicação também pode ser através de mímica. A sorte é que a minha família e amigos me apoiam a 100%. E também relativamente à legislação, por exemplo, as licenças, a contabilista sabe que sou surda e apoia-me com toda a informação necessária, para evitar coimas. A nível fiscal, da Segurança Cocial, Centro de Emprego, é muita informação, muita burocracia que a maioria das pessoas surdas não tem conhecimento. Mas sim é possível, nós conseguimos também. Temos é de antecipadamente estar esclarecidos acerca destas questões para que o negócio corra bem. A maioria não tem este conhecimento, eu também não tinha, fui aprendendo com o tempo. É um processo em simultâneo com a prática, aprendo e faço, aprendo e faço. Foi difícil, por exemplo, com o banco, pedir informações, imensa coisa que é importante para um negócio. Não é fácil! Existem barreiras de comunicação, mal entendidos, por exemplo, documentos específicos que eu pensava que eram aqueles mas afinal eram outros, tudo pela barreira da comunicação. Barreira que continua a existir, é complicado. Se vocês surdos pretendem abrir um negócio próprio é complicado sim, mas com esforço, vontade, conseguem!

NF – Quais são os seus objetivos com este bar? 

AL – Os meus objetivos… O facto de ser uma pessoa surda, com uma identidade surda forte, que comunica em língua gestual portuguesa, com este bar pretendo sensibilizar mais os ouvintes para estas temáticas. Quero que um ouvinte entre neste espaço e sinta também esta “barreira” e pense “é uma pessoa surda a atender”, “como vou fazer o pedido?”. Ou seja, irá aprender como resolver esta situação, irá aprender gestos básicos, por exemplo “café”, “água”, “bebida”, “cerveja”, “tosta mista”. Pouco e pouco irão aprender gestos. Este projeto traz igualdade- Nós, surdos, entramos em qualquer estabelecimento e somos atendidos por pessoas ouvintes, sentimos esta dificuldade na comunicação, recorremos à escrita, apontamos no papel, arranjamos uma estratégia de comunicação. N’a Ponchita, é a situação inversa, um ouvinte entra e apercebe-se que será atendido por uma pessoa surda. Já noto em algumas pessoas, a vontade de cá virem, o respeito, o cuidado na comunicação, a compreensão, e que já vêm com alguma assiduidade. Já estão sensibilizados, já têm formas de comunicação. Outros, ficam surpreendidos, recorrem às mensagens do telemóvel para comunicar ou mímica. O meu objetivo é mesmo esse: mais sensibilização. Divulgar, mostrar que os surdos têm barreiras sim, mas que conseguem e têm capacidade. Mostrar que se tivermos acesso à informação, aprendemos e vamos conseguir. Não podemos ser rotulados apenas como pessoa com deficiência como se fossemos pessoas sem capacidade. Não! Nós surdos conseguimos se a sociedade ouvinte nos der acessibilidade à informação em diversas áreas como, por exemplo, do empreendedorismo. Quantos mais surdos tiverem conhecimento nesta área, mais negócios irão ser criados por pessoas surdas.

Bar “A Ponchita”, com atendimento exclusivamente em Língua Gestual Portuguesa.

NF –  Pretende despertar consciências e sensibilizar…

AL – Sim. Quero que a sociedade ouvinte olhe para nós e que nos veja como exemplo. Que entre neste espaço e se sinta bem, coma bem, beba bem, se sinta respeitada e pense “uau, isto é tal como outro espaço qualquer gerido por um ouvinte”. E também, claro, fazer com que os surdos se juntem aqui e convivam mais, que sintam que é um espaço seguro para a comunidade surda, onde faz os pedidos diretamente na sua língua. E a diferença que faz por exemplo fazer um pedido específico sem este ou aquele ingrediente, coisa que num outro espaço qualquer acaba por ser complicado muitas vezes! Aqui não, é acessibilidade a 100%. Os funcionários são surdos, a comunicação será natural e a 100%. Espero que no futuro este tipo de projetos cresça e que olhem para as pessoas surdas como capazes de ter um negócio próprio.

Bar “A Ponchita”, com atendimento exclusivamente em Língua Gestual Portuguesa.

NF – É um projeto pioneiro em Portugal. O primeiro em que a dona é surda e os funcionários também, todos comunicam em LGP. Como se sente com esta conquista?

AL – Primeiro, quase que ainda não acredito. Antes de abrir o bar estava com medo, porque, sei lá, podia ter escapado alguma coisa, ou podia correr alguma coisa mal, ou pelas falhas de comunicação, ou o banco não aceitasse, entre outras coisas… O facto de não ouvir causou-me muito receio, fazia com que eu sentisse que poderia haver algum erro. Depois de abrir, senti um alívio, consegui! Estou muito contente também porque isto surgiu pelo meu sacrifício, esforço, pela minha luta. Uma lua de um ano e consegui. Sinto muito orgulho em mim e espero que as outras pessoas se orgulhem também e que vejam este negócio como um modelo a divulgar. Por outro lado, também tenho receio do futuro, acho que é normal. Penso se o negócio vai continuar estável, se vai haver adesão e interesse por parte das pessoas. E se os ouvintes não gostarem? É preciso continuar com o meu trabalho pró-ativo, continuar a lutar, divulgar, mostrar que somos iguais a qualquer ouvinte, não é pela deficiência que temos de estar abaixo ou ser diferentes. Somos todos iguais, o que está em falta é a comunicação acessível que tornaria tudo perfeito. Estou contente!

 NF – Como tem sido comunicar com clientes ouvintes que não sabem LGP?

 AL – O espaço está aberto há quase 2 meses, e sinto que temos tido cada vez mais clientes ouvintes. Ao início poucos, mas de forma gradual temos tido cada vez mais, uns que já conhecem e vão divulgando. Já aconteceu entrarem, falarem rápido e eu dizer “não oiço, precisa falar mais devagar” e a pessoa ficar atrapalhada e de imediato olhar à volta à procura de alguém ouvinte. E eu digo “aqui não há ninguém ouvinte”, fazendo com que a pessoa arranje então uma forma diferente para comunicar. Isso é um grande desafio para alguns ouvintes, outros não. Existem jovens, por exemplo, mais sensibilizados e que vêm cá e reagem normalmente “ah és surda, ok”, falam devagar, escrevem, apontam no menu, recorrem às mensagens no telemóvel e que acabam por cá vir com mais frequência pois já sabem como comunicar. Sinto que ainda falta divulgação do espaço. Precisamos dar a conhecer “A Ponchita” e convidar as pessoas a virem conhecer e experimentar sabores madeirenses. Já aconteceu também pessoas vizinhas, por curiosidade, entrarem no espaço para saber do que se tratava. Aproveitei para mostrar a página de Instagram, mostrar o que temos disponível e acharam interessante! A comunicação com ouvintes é realmente diferente, mas espero que sejam totalmente compreensivos.

 NF – Onde se localiza o bar?

AL – Localiza-se em Vila Nova de Gaia, perto do Jardim do Morro. O local é um pouco escondido, ainda temos que trabalhar mais na divulgação. É na Rua do Cabo Borges nº188, perto da ponte D. Luís I. É acessível, o que é uma vantagem. Segunda é o nosso dia de folga. Às terças, quartas e quintas abre às 15h e encerra às 23h. Sextas, sábados e domingos abre às 15h e encerra às 02h. No espaço, têm bilhar, música, comida, bebida, tal como outro bar. Fazemos também divulgação através da nossa página no Instagram @aponchita.

 

 

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