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Vila Nova de Famalicão
Segunda-feira, 21 Junho 2021
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Laurisa Farias
Jornalista brasileira a viver em Coimbra, Laurisa gosta de ouvir e contar estórias. Escreve no dia 6 de cada mês.

Mercado Dom Pedro V é um lugar, não um local

Quando um espaço ganha significados humanos, a partir das experiências das pessoas, torna-se lugar, e “e é aí que mora o coração da geografia humanista”.

8 min de leitura
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Laurisa Farias
Jornalista brasileira a viver em Coimbra, Laurisa gosta de ouvir e contar estórias. Escreve no dia 6 de cada mês.

Famalicão

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Quando chego em uma cidade, ao contrário de um bom número de pessoas, não quero saber qual o centro comercial mais próximo. Centros comerciais são os mesmos em qualquer ponto do mundo: Coimbra, Manchester, Recife, Buenos Aires…. Como aeroportos, lojas de fast food e alojamentos das grandes e populares de cadeias de hotéis, são o que o antropólogo francês Marc Augé classifica de não-lugares, acrescentando que a solidão permeia todos os aspectos dos não-lugares.

Isso porque os não-lugares carecem de significados culturais e são homogeneizados em todos os seus aspectos. É o oposto do que estabelece a Geografia Humana, que, a partir dos anos 70, passou a conceitualizar lugar como uma localização que adquiriu um conjunto de significados e valores agregados.  Lugares são localizações com significado, segundo o geógrafo inglês Tim Cresswell. Quando um espaço ganha significados humanos, a partir das experiências das pessoas, ele torna-se lugar.

Localização é o ‘onde’ de um lugar, um ponto físico com um conjunto de coordenadas geográficas. Local é um cenário material onde relações sociais acontecem – como prédios, ruas, parques. Mas acima de tudo emanam um “senso de lugar”, com os aspectos visíveis e tangíveis de um lugar: sentimentos e emoções que um lugar evoca, quer baseados nas histórias de cada de um de nós ou em um conjunto de significados produzidos pelo cinema, literatura, publicidade.

Todo este raciocínio acadêmico sustenta minha atração e fascínio por mercados. Sim, faço parte de um universo que tem uma imagem romântica – ingênua até – daqueles espaços em que pessoas os recheiam com cores, sons e cheiros os mais diversos. Do peixe ao pão assado no forno ao queijo de cabra. Dos tons de vermelho do tomate e do sangue nas luvas de metal que cortam porcos e cabras ao verde do brócolis e do talo das flores passando pelo preto das vestimentas das senhoras grisalhas que lá estão a (re)vender seus produtos. O que é o caso dos mercados municipais.

O Mercado Dom Pedro V, que conheci no verão de 2017, logo que cheguei à Coimbra, foi reinaugurado em novembro de 2001, depois de passar por reformas. Antes desta reforma do início do século 21, o mercado passou por muitas outras remodelações ao longo de seus 150 anos.

Carlos Santarém Andrade escreveu uma série, intitulada Mercado D. Pedro V – Uma História com História, composta de três artigos, que foi publicada em suplemento especial no Jornal de Coimbra em novembro de 2001 e estão disponíveis no website A Cerca de Coimbra.

Andrade conta-nos que na primeira metade do século 19, Coimbra tinha três mercados: o mais antigo era na Praça de S. Bartolomeu (hoje Praça do Comércio); o segundo era o Sansão, em frente ao Mosteiro e da Igreja de Santa Cruz, e ainda um mercado semanal (às terças-feiras) no antigo Largo da Feira, em frente à Sé Nova, “reminiscência da chamada Feira dos Estudantes, instituída no século XVI por D. João III, para a comunidade da Universidade, depois da transferência definitiva para a cidade”.

Em 17 de novembro de 1867 foi inaugurado o então novo mercado da cidade e as primeiras restaurações aconteceram em 1872 e reparações continuariam a ser feitas até o final do século 19. Em 1907, foi construído um novo espaço para a venda de peixe.  Uma grande reforma estrutural teve início em agosto de 1928:

“As obras (…) são mais importantes do que se supõe (…) Desaparecerão todas as tendas, barracas e alpendres que ali há. Será feita uma marquise sobre o mercado e outra sobre o recinto reservado à fruta e hortaliça na encosta da barreira, fazendo uma entrada para o mercado pelo lado do Colégio Novo”.

Já em dezembro começam a funcionar “as barracas para venda de carneiro, miudezas, etc.” e no ano seguinte, 1929, é instalado um portão de ferro, uma nova cobertura do pavilhão do peixe e a abertura de mais um pavilhão. “O certo é que o velho mercado a tudo ia resistindo, com a merecida fama de ser uma praça farta, com produtos cuja excelência era comummente reconhecida, desde as frutas e legumes dos férteis campos do Mondego, ao peixe que diariamente aí chegava vindo da Figueira da Foz”.

Mais de 50 anos depois, em 1982, começaram a surgir pedidos para que a Câmara Municipal atentasse “muito seriamente na transformação, remodelação ou melhor localização do Mercado D. Pedro V, cuja degradação se vem a verificar desde há anos”. Mas foi somente no primeiro ano do novo milênio que iniciaram as obras de reforma do prédio:

“Em outubro de 2000, fecharam-se pela última vez as portas do mais que centenário mercado. (…) o novo mercado transformou o espaço num funcional e moderno local de comércio, num enquadramento que valoriza a área e os edifícios circundantes, atrativo e de acordo com as atuais exigências, pronto a receber de novo os vendedores e o ruidoso e colorido formigueiro humano tão característico, ontem como hoje, do Mercado D. Pedro V”.

Andrade ressalta que houve um episódio que não pode poder ser dissociado da história do Mercado Dom Pedro V: a Revolta do Grelo.

Em março de 1903, as vendedeiras do mercado revoltaram-se contra o Imposto do Selo. Não era uma nova taxa, mas uma nova forma de cobrança. O descontentamento das mulheres terminou por se estender a outros segmentos da população de Coimbra, como operários e empregados de comércio, passando por caixeiros, camponeses e até mesmo envolvendo uma parte da Academia. Choques com as forças da ordem resultaram em dois mortos e numerosos feridos. Neste clima