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Terça-feira, 27 Fevereiro 2024
Natália Pinto
Licenciada pela Escola de Medicina Tradicional Chinesa (Lisboa) e mestre em acupuntura e medicina oriental pela Arizona School of Acupuncture and Oriental Medicine (EUA), a famalicense Natália Pinto, que na última década viveu nos Estados Unidos e na China, fez estágio hospitalar na Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjing (China) e contabiliza diversos certificados na área.

Plantas medicinais: os sabores e os efeitos no nosso corpo

Natália Pinto escreve sobre como a fitoterapia se encaixa na medicina tradicional chinesa.

3 min de leitura
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Natália Pinto
Licenciada pela Escola de Medicina Tradicional Chinesa (Lisboa) e mestre em acupuntura e medicina oriental pela Arizona School of Acupuncture and Oriental Medicine (EUA), a famalicense Natália Pinto, que na última década viveu nos Estados Unidos e na China, fez estágio hospitalar na Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjing (China) e contabiliza diversos certificados na área.

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A fitoterapia é uma das áreas da medicina chinesa de que mais gosto. A minha inspiração para escrever sobre a fitoterapia no artigo deste mês veio de alguns pacientes que me perguntam onde adquirir conhecimentos no âmbito das plantas medicinais e dos seus efeitos terapêuticos.

Nos quatro cantos do mundo existem receitas, infusões e decocções utilizadas há centenas de anos, passadas de geração em geração. Hoje, a China tem a maior base de dados das funções de cada planta e suas combinações. Atualmente mais que 11.000 plantas estão descritas.

E como é que a fitoterapia se encaixa na medicina tradicional chinesa? Vou esforçar-me ao máximo para passar a informação de forma clara e simples.

As plantas (ou “Matéria Médica”), antes de serem catalogadas e divididas entre funções, são classificadas de acordo com dois fatores fundamentais: o seu sabor e a sua temperatura.

O sabor refere-se simplesmente ao que sentimos na nossa boca. No entanto, como o leitor ou a leitora deve imaginar, existem algumas controvérsias relativamente ao sabor de algumas plantas.

A medicina tradicional chinesa considera cinco sabores principais: Doce (Alcaçuz), Amargo (Genciana), Ácido (Espinheiro Branco), Picante (Gengibre) e Salgado (Algas). Há autores que consideram mais sabores como o aromático (Tomilho), por exemplo. Portanto, toda a Matéria Médica é encaixada num ou mais destes cinco sabores. Uma planta pode ter mais do que um sabor, como a Canela, por exemplo: ligeiramente picante e doce. Ou apenas um sabor como o Gengibre, que é considerado apenas picante.

A temperatura, por sua vez, é mais complexa. Porque não nos estamos a referir à temperatura em que a planta se encontra, mas ao efeito que a planta tem no nosso corpo. Atualmente, ouvimos falar imenso de substâncias termogénicas, que fazem subir a temperatura corporal, geralmente utilizadas no mundo fitness para aumentar o metabolismo e facilitar a perda de peso.

Os chineses utilizam esse conhecimento mais no sentido de contrabalançar desequilíbrios e evitar doenças. Em termos de temperatura também temos cinco opções: Quente (Pimenta), Morno (Alecrim), Neutro (Passiflora), Fresca (Cavalinha) e Fria (Anémona). Mais uma vez existem autores que subdividem essas categorias, mas, pessoalmente, acho desnecessário.

Mas qual é o objetivo de descrevermos as plantas de acordo com o sabor ou a temperatura? Não chega sabermos a sua ação no corpo? Bem, para a medicina chinesa, a resposta é não. Os chineses defendem que mais vale saber as características do que a sua função. Pois é através das características das plantas que conseguimos uma prescrição equilibrada e precisa.

Cada sabor está associado a um órgão do corpo. Cada temperatura a um leque de ações. Por exemplo: o sabor Doce está associado ao conjunto de órgãos do baço, pâncreas e estômago. A temperatura morna tem um efeito tónico. Se quisermos tonificar o estômago vamos escolher uma planta que seja Doce e Morna. Mais um exemplo: o sabor picante está ligado ao pulmão e ao intestino grosso, a temperatura quente é extremamente diaforética (faz transpirar), se tivermos uma constipação que afete os pulmões e queremos expulsar do corpo, escolhemos uma planta picante e quente. E já agora, quantas vezes vemos casos de alterações intestinais após a ingestão de uma comida muito picante?

Termino este artigo, bastante mais teórico, com algo que eu costumo dizer sempre aos meus pacientes: não existe uma planta que faça melhorar todas as pessoas. Principalmente se nos basearmos apenas na sua ação. Eu posso ter 10 pacientes a queixar-se de tosse num dia e prescrever 10 combinações diferentes a cada um deles… Tudo depende da causa da tosse (o desequilíbrio) e qual a melhor maneira de contrabalançar a doença. A melhor opção é sempre consultar um especialista.

Por fim, uma curiosidade: o motivo pelo qual chamamos Matéria Medica e não plantas é porque na realidade temos também ingredientes minerais e de origem animal. Mas a Matéria Médica de origem animal não é permitida em Portugal. Pelo contrário, na China, desde conchas, ossos e escorpiões, tudo pode ser utilizado.

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