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Vila Nova de Famalicão
Domingo, 7 Março 2021
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Podemos mudar o mundo aos 50 anos. E aos 78 também…

Os especialistas defendem que a idade não pode ser factor de exclusão dos candidatos a um emprego. E condenam o desperdício do talento de trabalhadores com mais de 50 anos. O envelhecimento e o aumento do desemprego entre as pessoas mais velhas são temas cada vez mais na ordem do dia em Portugal e na Europa.

5 min de leitura
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Marta Duque Vaz
Marta Duque Vaz
Natural de Famalicão e radicada no Porto, licenciada em antropologia e pós-graduada em economia social, é jornalista e autora de “A Senhora Clap”, livro do Plano Nacional de Leitura, que foi adaptado a uma peça de teatro no Brasil. Escreve ao dia 22 de cada mês.

Famalicão

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Joe Biden é o presidente norte-americano mais velho de sempre, com 78 anos. Kamala Harris, 57, é a primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos da América.

Ambos irradiam vitalidade, transbordam energia. A idade de um e de outro, em muitos países, e para muitas outras funções, constituiria um obstáculo para o trabalho, para agarrar novos projectos, nomeadamente na Europa.

Vivemos num país que, como tantos, ainda faz dos 50 e até dos quarenta e muitos anos um impedimento para concorrer e aceitar novos desafios laborais.

Ficar sem emprego nestas idades – ou até mesmo ponderar mudar de trabalho – é visto como uma fatalidade e um devaneio.

Neste cenário, perder o emprego pode ser o princípio de um fim muito pouco digno. E não me refiro apenas à dignidade individual, mas, ainda, a uma dignidade colectiva que devemos almejar.

Infelizmente há, ainda, uma visão muito negativa da dita meia-idade, não porque não se tenha competências, conhecimentos, entusiasmo. Mas porque há um tremendo preconceito com a idade em que muitos homens e mulheres, por norma, já têm os filhos criados, a vida mais organizada, maior independência. E isto deveria ser encarado como uma mais-valia para qualquer equipa. Mas não. Os 50 anos, em matéria de trabalho, são uma espécie de terra de ninguém quando, ao contrário, deveriam ser um solo firme, valorizado.

Devíamos ter uma maior consciência de que o idadismo – discriminação em razão da idade – constitui um entrave ao proclamado envelhecimento activo e saudável. Faltam medidas, políticas públicas e acções de formação e de sensibilização que ajudem a combater representações negativas e estereotipadas; construções sociais que coligam o envelhecimento à desmotivação, à incapacidade, à dependência.

Há dias, consultei um relatório do Center for Ageing Better, no Reino Unido, que analisa o cenário de recrutamento actual e futuro para trabalhadores mais velhos. É a primeira publicação de um projecto intitulado “Good Recruitment for Older Workers” e aborda questões muito pertinentes até porque, em conjuntura pandémica, o desemprego está a subir e, naturalmente, o facto pede atenção e acção redobrados.

O documento debruça-se sobre diversos aspectos, nomeadamente sobre a forma como os empregadores recrutam, e diz que quaisquer novas tendências e comportamentos, nesta matéria, devem ser inclusivos independentemente da idade. E alerta para a situação de os empregadores e recrutadores estarem a negligenciar o talento de trabalhadores com mais de 50 anos, incitando-os a demonstrarem o seu compromisso através de uma postura inclusiva, criando uma experiência positiva para o candidato e garantindo que as tendências de longo prazo, como o uso crescente de tecnologias sejam avaliadas para efeitos de diversidade e inclusão.

Mas, claro, para isso, do lado dos candidatos mais velhos, também tem de haver uma disposição para a formação contínua, nomeadamente digital. Não é ao acaso que o lema da presidência portuguesa da União Europeia, que agora começou, é cirúrgica na escolha das palavras: “Tempo de Agir: por uma recuperação justa, verde e digital”.

O relatório que menciono parte de evidências e percepções de entrevistas com empregadores e recrutadores, destacando abordagens que podem prejudicar os trabalhadores mais velhos, bem como a forma como esses riscos podem ser mitigados.

O documento refere, ainda, que um recrutamento inclusivo visando pessoas mais velhas significaria dar a esses trabalhadores uma chance justa de progredir e, por outro lado, dar aos empregadores a oportunidade de beneficiarem de uma força de trabalho diversificada e experiente – incluindo pessoas de meia-idade e de idade mais avançada.

As transformações demográficas que Portugal e a Europa têm sofrido ditam o aumento da longevidade e bradam por soluções multidimensionais. “Em 2015, as pessoas com 65 ou mais anos representavam 20,5% de toda a população residente em Portugal. Neste mesmo ano, a esperança de vida atingiu os 77,4 anos para homens e 83,2 anos para as mulheres”, revela a base de dados Pordata (2016).

Vivemos a “Década do Envelhecimento Saudável 2020-2030” que promete uma “ação combinada, catalítica e sustentada”, que, por sua vez, é delineada com base na Estratégia Global da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre Envelhecimento e Saúde, no Plano de Ação Internacional das Nações Unidas para o Envelhecimento e, ainda, tendo em conta os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda das Nações Unidas 2030.

Temos, desde 2017, o Pilar Europeu dos Direitos Sociais que visa proporcionar direitos novos e mais eficazes aos cidadãos: igualdade de oportunidades e acesso ao mercado de trabalho; condições de trabalho justas e protecção social e inclusão.

Enfim, temos muitos documentos, estratégias diversas, grupos de trabalho multidisciplinares, especialistas de várias áreas, a cruzarem estudos e informação em prol de um melhor futuro. Claro que ter saúde é um factor determinante para o envelhecimento activo. Mas não ficamos só por aqui, pois é fulcral promover uma participação contínua na vida social, económica, cultural, espiritual e cívica.

Tudo isto contribui para o bem-estar e para uma qualidade de vida que não se confina à mera contagem dos anos e, muito menos, a velhas fórmulas, velhos cânones, processos de gestão bolorentos e condicionados. É imperativo um novo e profundo olhar sobre as pessoas – todas as pessoas – e as sociedades onde se enquadram. Um olhar mesmo verdadeiro, lúcido e justo.

A produção e disseminação de conhecimento é veloz. Mais do que nunca, o acesso à informação é facilitado por diversos meios. Só temos de saber escolher a fonte credível e persistir no foco, para não nos perdermos na avalancha de informações que surgem à mínima pesquisa.

Infelizmente, a mudança de mentalidades não acompanha esta velocidade. A mudança de mentalidade é lentíssima e, sub-repticiamente ou não, um forte entrave à mudança. Haja determinação, coragem, conhecimento e… oportunidade.

Não duvidem que aos 50 anos ainda é possível mudar o mundo. E aos 78, também. É sempre possível, em qualquer idade, contribuir para boas mudanças. É o que deixamos às gerações vindouras: o exemplo.

Fiquemos atentos e, principalmente, não nos esqueçamos de agir. Com humanidade – regra de ouro – não-violência, justiça, verdade, igualdade de direitos e responsabilidade ecológica. Ou seja, com ética global que urge reconhecer e aplicar.

Obs. – A autora escreve segundo a antiga ortografia da Língua Portuguesa.

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