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Quarta-feira, 26 Janeiro 2022
Vera Carvalho
Estudou Línguas e Literaturas Europeias. Atualmente está no mestrado de Espanhol na Universidade do Minho. Tem dois livros publicados: Eterno Inferno (2019) e Nostalgia Inquietante (2021). Também participou em antologias poéticas: Sentidos Despertos (2020) e A poesia dos dois lados do Atlântico (2021).

Última leitura de 2021

É inútil (e ridículo) obrigar alguém a seguir uma religião, uma ideia ou até uma vida, baseada em coisas que talvez nem os mais sábios entendem a sua essência na totalidade.

6 min de leitura
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Vera Carvalho
Estudou Línguas e Literaturas Europeias. Atualmente está no mestrado de Espanhol na Universidade do Minho. Tem dois livros publicados: Eterno Inferno (2019) e Nostalgia Inquietante (2021). Também participou em antologias poéticas: Sentidos Despertos (2020) e A poesia dos dois lados do Atlântico (2021).

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Terminei as minhas leituras de 2021 com um livro um tanto diferente do que estou habituada a ler, porém com uma temática que pode resultar interessante e ao mesmo tempo controversa.

Refiro-me ao livro “A bondade do coração. Uma perspetiva Budista sobre os ensinamentos de Jesus”.

Como vocês sabem, este revela-se um assunto que pode causar controvérsia para pessoas bastante conservadoras ou tradicionalistas, uma vez que se trata de religião e por isso costumamos dizer “não se deve discutir política, futebol e religião”.

Concordo em parte com o “não discutir”, se falarmos em termos de atacar, odiar, insultar, chatear ou até julgar alguém por seguir um determinado clube, partido político ou neste caso, uma religião em específico. Mas, devemos sim, “discutir”, aclarar as ideias e esclarecer da melhor forma para as pessoas terem a noção do que se trata. Isto claro sem disseminar qualquer tipo de ódio ou julgamento. Creio que não é necessário tal. E este foi um dos aspetos que eu mais me apercebi com a leitura deste livro, uma vez que trata de encontrar pontos em comum e de dar a conhecer a perspetiva budista em relação àquilo que se segue na religião católica.

Certamente que atualmente, as religiões desviam-se um pouco (se não bastante) da raiz dos seus princípios, aproveitando-se e até se movendo por uma fé cega das pessoas para obter determinados lucros (não só económicos) para seu próprio benefício.

Após viver, pesquisar e ler sobre o assunto, cada vez mais acredito que cada um deve seguir as suas convicções sem necessariamente ter que atribuir um rótulo a tudo o que defende, acredita ou pensa.

Se formos a falar das ideias das religiões (atualmente), creio que todas coincidem em algum ponto.

Por exemplo, alguns valores como, o amor, a igualdade, a solidariedade… Mas onde está a aceitação do amor, de facto? Porque só se vê cada vez mais desigualdades, desentendimentos, julgamentos e retrocessos no que toca a amar quem nós quisermos ou então a ajudar quem mais precisa.

Não creio que para sermos “melhores pessoas”, ou até pessoas reconhecidas socialmente/politicamente/economicamente, precisamos de seguir uma religião. Isso não nos define, e não vai garantir o nosso “lugar no céu” certamente.

Com a recente leitura do livro que referi inicialmente, cheguei a uma conclusão bastante esclarecedora e que, de certa forma, aqueceu o meu coração.

Entendi que, não é a nossa fé numa religião ou num Deus (que escolhemos seguir cegamente só porque sim), mas mais do que isso, são os nossos ideias ou as nossas convicções em algo juntamente com as nossas atitudes e a forma como demonstramos lidar com determinados contextos (ou até opiniões), que irá definir como pessoas.

Podemos sim, guiar-nos pelos ensinamentos de um “Deus”, tirar algumas lições próprias para aplicar na nossa vida ou com os outros, mas acredito que cada um de nós é único, e por isso, acredito que podemos criar a nossa própria “religião”.

Não me interpretem mal! Mas cada vez mais acredito que é impossível seguir somente uma ideia, uma religião, um Deus… Ou seja, não há necessidade de rotular tudo na nossa vida…

Além de que, a leitura deste livro fez-me ver que há tradições tão fortemente enraizadas e ainda tão regidas por um ódio incompreensível, que faz com que este tema seja considerado como não discutível, por causa de causar imensa controvérsia.

E eu pergunto a vocês, caros leitores, para quê tanto ódio, julgamento e recusa de ideias (neste caso, religiões) diferentes? Não deve apenas cada um seguir as suas crenças e a sua própria fé?

Inclusive, o próprio livro cultiva a ideia de que não tem que haver grandes diferenças entre religiões. É certo que cada uma tem a sua perspetiva, assim como neste livro, alguém da religião budista, vai comentando passagens bíblicas da religião católica, até coincidindo em vários pontos e acrescentando a sua perspetiva de ver as coisas no mundo (até com novas designações).

Acho que se, realmente, existir genuína bondade no nosso coração, então seremos capazes de aceitar aquilo que aparentemente designamos como “diferente”, apenas porque é algo que está fora da nossa realidade ou então nunca tínhamos visto ou tido conhecimento daquilo.

Antes de julgar, creio que devemos entender primeiro e só depois tecer críticas construtivas sobre qualquer que seja o assunto. E por esta mesma razão, creio que é inútil (e ridículo) obrigar alguém a seguir uma religião, uma ideia ou até uma vida, baseada em coisas que talvez nem os mais sábios entendem a sua essência na totalidade.

Portanto, para terminar a minha crónica, deixo aqui uma citação do livro que li sobre este assunto:

“A fé leva-nos a um estado superior na existência, enquanto a razão e a análise levam-nos à plena libertação. O ponto importante é que, no contexto da nossa prática espiritual, a fé que temos deve ser fundada sobre a razão e sobre a compreensão”.

Ou seja, por outras palavras, não devemos obrigar ninguém a ter fé em algo que nós próprios desconhecemos a sua natureza, a sua ideologia ou inclusive, a sua própria fé. Não é só porque sim, só porque se acredita que é bom, que vamos ter algo melhor à nossa espera quando partirmos desta vida. Não é assim que funciona na vida real.

Acredito que a religião para alguns funcione como um veículo para uma razão maior que se queira seguir ou encontrar um motivo maior para viver esta vida, mas também gostaria que aceitassem o facto de que a própria vida contém, em cada um dos seus lugares, dos seus objetos e dos seus fenómenos, religiões que ninguém se atreveu a admirar, a seguir ou simplesmente a viver.

Há uma citação feita neste livro, frase pertencente a Thomas Merton que diz o seguinte: “No centro do nosso ser há um lugar de luz pura, um lugar que o pecado ou a ilusão não podem tocar”.

Acredito piamente que, são os “pecados” que nos descobrem como realmente somos e que nos dão a luz que precisamos para viver esta vida de forma genuína e real, enquanto que estar a seguir uma religião, pode ser estar a viver numa eterna ilusão que acreditamos que nos alimenta a alma e o espírito. E tudo bem, todos precisamos de ter as nossas razões pessoais para viver esta vida.

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Vera Carvalho
Estudou Línguas e Literaturas Europeias. Atualmente está no mestrado de Espanhol na Universidade do Minho. Tem dois livros publicados: Eterno Inferno (2019) e Nostalgia Inquietante (2021). Também participou em antologias poéticas: Sentidos Despertos (2020) e A poesia dos dois lados do Atlântico (2021).