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Terça-feira, 28 Maio 2024
Susana Dias
Socióloga, mestre pela Universidade do Minho, pós-graduada em Gestão e Administração em Saúde e apaixonada pela geriatria. É diretora clínica da Oldcare Famalicão.

A vida antes do tempo: ser um bebé prematuro

Sair da maternidade sem trazer o nosso maior amor connosco é uma dor imensurável.

4 min de leitura
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Susana Dias
Socióloga, mestre pela Universidade do Minho, pós-graduada em Gestão e Administração em Saúde e apaixonada pela geriatria. É diretora clínica da Oldcare Famalicão.

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Nascem cada vez mais bebés prematuros em Portugal. Os avanços tecnológicos têm permitido a sobrevivência de recém-nascidos de idades gestacionais cada vez mais baixas.

Ter um filho prematuro é algo que não se deseja a ninguém. Essa experiência é devastadora, afetando a mãe, o pai e toda a família. O impacto que um bebé prematuro pode causar na vida de um casal é diferente quer se trate de uma primeira ou segunda gravidez.  Sair da maternidade sem trazer o nosso maior amor connosco é uma dor imensurável.

Quando engravidei do Salvador tudo indicava que seria uma gravidez tranquila havia todo um planeamento sem pressas. Mas às 30 semanas uma perda de sangue súbita levou-me para urgência do hospital da Senhora da Oliveira em Guimarães.

Internamento, início de medicação para maturação dos pulmões do bebé, e medicação para atrasar o parto. Tive de fazer repouso forçado pois a minha gravidez era de alto risco. Às 35 semanas o Salvador quis nascer. Fui, então, submetida a uma cesariana de urgência e lembro-me da azáfama à minha volta.

Estive sempre acompanhada por uma excelente equipa médica e de enfermagem na qual serei eternamente grata. Encontramo-nos sempre com eles nos momentos de maior aflição das nossas vidas e só posso recordar toda a equipa de obstetrícia e de neonatologia com gratidão e ternura. Foram a voz e as mãos do conforto no momento em que mais precisei, carregados de humanidade mostrando o caminho da esperança.

E foi então que o enfermeiro Pedro deu-me a mão e disse-me “o bebé vai ter de nascer temos de ser rápidos, mas vai correr tudo bem”. As dificuldades começaram a sentir-se e foi levado para a neonatologia. Seguiu-se um processo duro, angustiante e desafiador nos 18 dias de internamento. Tive ao meu lado o meu marido, a pessoa mais positiva desde o início e que me deu mais força e o meu pensamento na minha filha mais velha.

No quadro afixado na sala de neonatologia do hospital contam-se as histórias de verdadeiros heróis. São fotografias deixadas pelos pais de alguns bebés prematuros que por ali passaram, são testemunhos, uma réstia de esperança para os pais que percorrem aquele corredor todos os dias. Minúsculos no tamanho, gigantes na coragem.

No primeiro dia que o vi chorava só de olhar para a incubadora. Encontrei-o mais pequeno do que o imaginara, protegido numa incubadora e coberto de tubos que lhe forneciam alimento, oxigénio e todos os medicamentos que necessitava. No segundo dia de vida do pequeno Salvador é que consegui ver a cara sem máscara de oxigénio. Com ajuda das enfermeiras senti-o no meu colo e desde então, só abandonei a cabeceira para ir a casa dormir, foi viver um dia de cada vez, uma eternidade que não parecia ter fim.

A minha alta sem o bebé, as viagens para o hospital, os alarmes das máquinas, a dependência dos monitores, a constante preocupação com todos os sinais vitais. É ver picadas e mais picadas para fazer exames, é uma angústia até chegar ao hospital e ter sempre medo das palavras do pediatra.

E, como iríamos em casa perceber se estava tudo bem? O banho, a muda da fralda e ter a destreza necessária para conseguir fazê-lo dentro de uma incubadora. Foi aprender a cada três horas medir a temperatura, tirar leite com a bomba e alimentar pela sonda ou dar o biberão sem haver dessaturação. Apesar de ser profissional de saúde e habitualmente lidar com pessoas mais adultas, nunca estamos preparados para esta realidade. Fomos aprendendo a cuidar dele a celebrar cada dia de superação.

E, foi numa manhã que nos disseram, inesperadamente, que era esse o dia em que podíamos levar o nosso pequenino para casa, tal foi a emoção daquele dia tão aguardado que parecia mentira ter chegado. Tivemos medo, mas foi finalmente o nosso início a quatro tanto desejado.

Ser mãe de um bebé prematuro, é ser mãe de um ser muito especial, guerreiro.

É ter uma história para contar, é contar o tempo de uma forma diferente. É ser uma mãe lutadora, resiliente por ver o sofrimento do seu bebé e não poder fazer nada a não ser confiar. Hoje acredito plenamente que nada acontece por acaso e aquela prova fez-me perceber o caminho que quero seguir.

Aprendi que damos tanta importância a coisas que não merecem, mudei a minha perspetiva e mudou para sempre a minha vida. A quem hoje estiver a passar pelo mesmo, pensamento positivo, fé muita fé, porque na neonatologia vive-se minuto a minuto, mas sobretudo amor. O amor salva tudo e quando há amor, há um final feliz.

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Susana Dias
Socióloga, mestre pela Universidade do Minho, pós-graduada em Gestão e Administração em Saúde e apaixonada pela geriatria. É diretora clínica da Oldcare Famalicão.