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Domingo, 9 Maio 2021
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Sobre o estilo serguilhiano

Ao entrarmos nos textos de Luís Serguilha – poeta famalicense radicado no Brasil – a vida acontece porque sentimos que a leitura é um tempo puro que se libertou da escravatura das significações.

5 min de leitura
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Sheila Mihailenko Magri
Sheila Mihailenko Magri
Sheila Mihailenko Magri é jornalista, escritora, comunicadora e filósofa brasileira. É doutoranda e mestre em Comunicação e Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo. É autora do livro "Porta-vozes do Capital", (2020).

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A trajetória do poeta, ensaísta e curador de arte, nascido em Vila Nova de Famalicão, é singular e amplamente notória no Brasil. Sobretudo pela sua destacada participação em conferências e palestras, ministradas para renomadas universidades de vários estados do país.

Luís Serguilha atravessou 18 estados brasileiros e criou impacto ético-estético por meio de curadorias de arte, de literatura e de psicanálise, realizadas em diversos institutos.

No ano passado, pude acompanhar alguns de seus discursos nos canais universitários e nos encontros das Raias Poéticas e do Pensamento, que mesmo diante do cenário pandêmico, conseguiram reunir mais de 120 convidados ibero-afro-americanos, durante a sua nona edição.

É importante ressaltar que notei o apoio conferido ao evento pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

Serguilha é um poeta impulsionador de pensamentos e um espírito aglutinador de seres do sensível e de signos artísticos.

 

O encontro com o genial livro “A Actriz A Actriz (o palco do esquecimento e do vazio)”, publicado pela Kotter Editorial de Curitiba, aconteceu quando assisti à ciranda de crítica literária do seu lançamento e que reuniu ensaístas, críticos, filósofos, artistas, poetas, professores, cineastas, escritores e jornalistas do Brasil, de Portugal, da Espanha e de Angola.

Vale mencionar aqui que o escritor recebeu recentemente o importantíssimo Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura no Brasil pelo seu livro Hamartia.

O estilo laharsista de Luís Serguilha tem sido pesquisado por grandes estudiosos da literatura como Ernesto Melo e Castro, Ana Maria Haddad, Éris Antonio Oliveira, Ana Lúcia de Oliveira, Luís Adriano Carlos, Fernando Castro Branco, Luísa Monteiro e Chiu Yi Chih entre outros acadêmicos de vários países.

Podemos encontrar ensaios críticos sobre as suas obras em revistas de arte e literatura (Palavra Comum, Ruído Manifesto, Acrobata, Zunai, Germina, entre outras publicações).

Saliento que a revista GuaráLinguagem e Literatura, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, produziu dois números exclusivos com críticas dedicadas às suas construções literárias-ensaísticas.

A partir da leitura destes acadêmicos-críticos compreendi que Serguilha arquiteta versos por uma composição que hibridiza palavras e conceitos da literatura, da fisiologia, da bioquímica, da arqueologia, da geologia, das artes e da filosofia.

Como pesquisadora do campo da comunicação, tenho interesse de analisar intertextualidades e ética em discursos.

Venho estabelecendo algumas aproximações entre estética e comunicação a partir de tensionamentos com conceitos do filósofo russo da linguagem, Mikhail Bakhtin.

Deste modo, levando em consideração os dialogismos em Bakhtin e a comunicação, decidi analisar os atravessamentos discursivos e intertextuais do manguezal-poema “A Actriz A Actriz”, de Luís Serguilha.

Neste sentido, por meio de uma “instrumentação cartográfica”, aliada a algumas categorias bakhtinianas, observei a trama dialógica na construção poética serguilhiana.

A ACTRIZ de Serguilha não é um ente, não é uma mulher específica e não se trata de um sujeito psicológico, ou pessoal, ou biográfico. A personagem foge de uma história linear. Ela evita a representação do “eu” e escapa à nomeação.

Trata-se de uma força-ACTRIZ poética-narrativa que não representa um personagem protagonista da vida, mas que dá expressividade aos pontos de vista da existência dentro de vigores afetivos-artísticos-corporais.

Primeiramente, notei que, mesmo a partir da irrepresentatividade da personagem-rítmica ACTRIZ, as vozes que afloram do e no manguezal-poema gestam direções múltiplas.

Percebi que o “autor-criador” de A Actriz A Actriz não escolheu por acaso o título do seu poema-mangue de 1.040 páginas.

É ACTRIZ porque o feminino é uma força estética do múltiplo e está dentro da semiótica das intensidades. Ao entrarmos em contato com os versos de “A Actriz A Actriz” sentimos que cada enunciado do manguezal-poema abre múltiplos diálogos em um microcosmo de tensões conceituais.

A voz do poeta introduz recomeços sígnicos em uma multiplicidade de variáveis. O notável é que, mesmo na histeria e no delírio, as vozes poéticas na ACTRIZ se arremessam em um labirinto para trazer à tona um discurso ético da diferença e destruindo qualquer tentativa solipsista.

Compreender o manguezal-compositivo “A Actriz A Actriz” de Luís Serguilha, segundo Bakhtin, implicaria em um gesto de leitura responsiva no qual problematizar a vida é um ato-criativo.

Nessa leitura bakhtiniana do manguezal-poema, observei uma ética-estética que, em muitos pontos, dialoga com o conceito do ato responsivo responsável do Bakhtin.

A ética “sem álibi” do filósofo russo advém na existência, no mundo da vida e em responsividade ao outro e, portanto, à potência da alteridade.

Deste modo, ao lermos os acontecimentos no poema- manguezal de Serguilha, a ACTRIZ torna-se uma personagem conceitual ética e jamais moral.

Actriz é uma “palavra-laharsista” em estado de transmutações permanentes. A partir de seu estilo, Serguilha detona nos territórios uma linguagem cataclísmica que, tal como o lahar javanês, agrega uma avalanche vulcânica de sentidos.

O seu poder erosivo-afetivo recorta a superfície das páginas. Serguilha constrói imagens poéticas vigorosas extrapolando limites por meio de dobras do transbarroco.

O poeta ativa cenas em movimentos textuais dotados de uma crueldade-delicada do pensamento sobre o corpo-artista.

A singularíssima “máquina de guerra laharsista” de Serguilha vai mobilizando uma multiplicidade de “palavras-signos”, recombina-as, deformando seus sentidos e desarticulando estruturas rígidas de discursos morais a partir da combinação criativa de imagens afetantes.

O ritmo se torna uma força volitiva do “autor-criador” que compõe a trama da arte por meio do acontecimento que intensifica a vida.

O ato estético cria o ritmo na trama. Este movimento só poderá ser feito pelo “autor-criador” a partir de um “gesto amoroso”, segundo aponta Bakhtin.

Em Serguilha, nos confrontamos com novas palavras, novas linguagens e novos dicionários afetivos. Deste modo, Serguilha é um poeta-onomaturgo. É criador de uma marchetaria intertextual afetivo-volitiva. Os diálogos no manguezal-discursivo dos versos de “A Actriz A Actriz” mergulham no encontro turbilhonar do inédito.

O poeta reconstrói palavras e conceitos por meio de novos sentidos, de uma correnteza intrassígnica complexa, rompendo completamente com a normatividade.

É verificável a musicalidade ritornélica, as polifonias, os coros gregos e a voz misturada dos trovadores nos seus textos. A ACTRIZ grita o verbo “ser-porvir-acontecer” como um refrão improvisata e não como uma definição propositiva.

Como dizem os ensaístas, críticos literários e filósofos, ler um poema serguilhiano é mergulhar no mundo paradoxal, é ser forçada a pensar o impensável. Serguilha leva-nos para outras geografias, outras ciências, outros mundos.

Ele fricciona movimentos conceituais, quebrando com as predominâncias do sujeito psicológico e do sensório-motor. Simultaneamente, cria uma estilização acósmica e polinizadora de singularidades por meio da expressão de um corpo anorgânico.

Serguilha problematiza a vida ininterruptamente. Contudo, seus textos são luzes “turbilhonares da matéria”. A leitura de seus poemas é uma prática delirante que vai ao encontro de forças afetivas. Com o poeta Luís Serguilha, deciframos novos signos e capturamos forças sensíveis ocultadas.

Esta desmesura, como diz Blanchot, é o imenso, é uma força criativa que não tem medida. Logo, o manquezal-poema de Serguilha é inesgotável, é uma potência do pensamento.

Ao entrarmos nos textos de Luís Serguilha, a vida acontece porque sentimos que a leitura é um tempo puro que se libertou da escravatura das significações.