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Vila Nova de Famalicão
Quarta-feira, 5 Outubro 2022
Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

Cidade e as Serras vs Nação Crioula: conceitos e intertextualidades

Essas obras são espelho de uma comparação de Portugal (o mundo lusófono no caso da Nação Crioula) e o resto da Europa, focando no atraso e rusticidade portuguesa em relação ao avanço tecnológico e social nos outros países.

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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

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“Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

Que feliz eu era então e que alegria…
Que loucura a brincar, santo delírio!…
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p’ra o martírio!”

– António Aleixo, in “A Torpe Sociedade Onde Nasci”
(da obra “Este Livro que Vos Deixo…”)

Nesta nova reflexão, irei abordar duas obras da literatura lusófona: A Cidade e as Serras (de Eça de Queirós) e Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa. Em adição, falarei de A Correspondência de Fradique Mendes, também escrito pelo Eça.

Durante a exposição sobre estas obras, falarei do enredo, bem como farei uma abordagem dos conceitos e intertextualidade presentes nestas obras marcantes da literatura de expressão portuguesa/lusófona, com base nos enredos e nas personagens criados e expostos nas obras supracitadas.

Publicada postumamente em 1901, um ano após a morte do autor, A Cidade e as Serras conta-nos a história de Jacinto, jovem luso-francês que nasce em França, depois de o pai ter emigrado para Paris aquando da expulsão de Infante D. Miguel.

A história é-nos narrada pelo seu amigo Zé Fernandes (que conhece na Universidade de Paris) e nos mostra um protagonista fascinado por Paris, enlevado pelo pensamento de que tal cidade é o verdadeiro paradigma de civilização humana. Tal fascínio leva Jacinto a criar a equação “Suma Ciência x Suma Potência = Suma Felicidade”, equação que Zé Fernandes tenta contrariar ao longo da narração.

Zé Fernandes volta a Portugal por motivos familiares e se separa de Jacinto durante 7 anos e, quando o volta a ver, encontra-o apático, curvado e melancólico, quase moribundo. Entretanto, com o desabamento da casa da sua família em Tormes, Jacinto vem pela primeira vez a Portugal.

Ao chegar, impressiona-se com a tranquilidade e a rusticidade da vida rural, em detrimento da vida de stress levada em Paris. Apaixona-se pela Joaninha e decide instalar-se definitivamente em Portugal, provando-se assim que a equação da Suma Felicidade não era mais que uma falácia.

A Cidade e as Serras encaixa-se na terceira fase queirosiana, a fase pós-realista, marcada pela sua reconciliação com a sociedade. Também é marcada pelo antagonismo entre a vida no campo e a vida na cidade (no qual Fernandes tenta provar que a vida rural é superior à vida na cidade), bem com um igual antagonismo latente entre as classes elitistas e as classes trabalhadoras.

Em termos de simbologia, Tormes simboliza uma metonímia de Portugal, através do seu apego às tradições e ao Sebastianismo (o pai do Jacinto via Portugal como sendo uma pocilga), em oposição a Paris, a cidade das luzes, a imagem da civilização moderna e avançada. É em Tormes que Jacinto conhece as suas raízes ancestrais e que com elas rejuvenesce.

Já Joaninha, ponto culminante na descoberta das raízes dos antepassados por Jacinto, simboliza a nação lusitana com toda a vitalidade e força procriadora que é inerente a essa figura feminina que representa ao protagonista.

Publicado em 1997, a ação de Nação Crioula desenrola-se entre 1868, altura em que o protagonista da ficção (Fradique Mendes) chega a Angola e 1900. A obra é constituída por um largo conjunto de cartas, quase todas escritas por Fradique (à exceção da última carta, que é escrita por Ana Olímpia a Eça de Queiroz), que relatam tanto assuntos pessoais e íntimos como assuntos políticos e sociais passados em Portugal, Brasil e Angola.

O protagonista, apesar de escrever na primeira carta (dirigida à sua madrinha) que a cidade lhe era confusão, devido às ruas tortas e à gritaria proferida entre as pessoas, integra-se, passado um mês, nos costumes e tradições angolanas, fascinando-se com a gastronomia e com as danças (que ele considera divertido). Com isto, torna-se, à semelhança do protagonista queirosiano em A Correspondência de Fradique Mendes, uma pessoa aberta a diferentes culturas.

Devido às suas viagens pelo interior, fruto da ânsia de conhecer mais sobre novas culturas, descobre que Portugal nada tem a ver com Angola e que a Lusitânia não tem importância para Angola nem para os colonos portugueses.

Durante o enredo, Ana Olímpia, com a morte do marido, volta a cair na escravatura, mas Fradique a salva, concedendo a alforria a ela e aos seus próprios escravos, chamando também a atenção para o abolicionismo. A obra encerra com a carta escrita por Olímpia a Eça, um ano depois da morte de Fradique, na qual, num tom de felicidade (e simultaneamente de tristeza), anuncia-lhe o fim da escravatura.

Nação Crioula foca-se no tema referente ao esclavagismo, tema esse que possui como pano fundo todas as bases históricas sobre o tráfico de escravos entre Angola, Portugal e Brasil. Através deste pano fundo estabelecido de forma inerente na obra, Agualusa cria personagens reais, embora nunca cortando as pernas à criação ficcional, atribuindo assim um novo sentido à história real e à história ficcional.

Não obstante este método de criação, o autor também usa o enredo como forma de reflexão sobre a realidade angolana e a relação que ela tem com a realidade portuguesa e a realidade brasileira.

Fradique Mendes, tal como descrito n’A Correspondência de Fradique Mendes, deixa-se levar pela busca incessante das emoções e pela vontade insaciável de conhecer novas culturas e, durante a obra, ao descobrir o carácter antagónico entre Portugal e Angola, podemos auferir a descoberta de uma certa “brasilidade” pela qual Angola se deixa enlevar, devido à tradição de escravatura comum entre Brasil e Angola.

A obra A Correspondência de Fradique Mendes , escrita por Eça de Queiroz e publicada em 1900, apresenta-nos, na voz do narrador, o protagonista chamado Fradique Mendes que, segundo nos narra, era um poeta visionário que possuía uma sabedoria enorme.

Seu nome é referido pela primeira vez num cenário em que o próprio narrador está num café, em 1867, e encontra um pequeno conjunto de poemas de Fradique intitulado de “Lapidárias” no jornal “Revolução de Setembro”, achando-os originais e modernos e comparando com Baudelaire.

Num momento a seguir, na voz de um segundo narrador (Marcos Vidigal, amigo de faculdade do narrador e parente de Fradique), é-nos apresentado o perfil de Fradique: cursou Direito em Coimbra e que permanece em Paris até atingir a maioridade e poder herdar de sua madrinha falecida. Mais tarde, fruto da sua riqueza, priva com várias personalidades como Victor Hugo e toma parte em efemérides históricas.

O narrador e Fradique conhecem-se através de Vidigal e trocam impressões sobre Literatura e Arte. Na segunda parte da obra, temos acesso a dezasseis cartas escritas por Fradique, nove delas escritas a mulheres fictícias (Madame Joarre, Clara e Madame S.) e as restantes escritas a personagens reais.

A obra é marcada pelo constante jogo entre a realidade e a irrealidade, sendo que Eça, para que os leitores tenham em mente que Fradique existiu e que a história é verídica, usa personagens reais (como Batalha Reis, Ramalho Ortigão e Antero de Quental). O próprio narrador descreve o protagonista como pedante, contudo, admira-o mesmo assim como uma pessoa brilhante e original.

Quanto às cartas que dirige às mulheres fictícias, Fradique varia de personalidade: com a Madame Joarre percorre vários temas e só com ela é que confessa o seu lado sentimental; já nas cartas escritas a Madame S., advoga o uso exclusivo da língua materna, contando inclusive o episódio em que sua tia, quando viaja, se recusar veemente falar qualquer língua estrangeira.

Com Clara, as cartas assumem um cariz mais romântico, com um discurso exageradamente amoroso, todavia, ele não tem a intenção de enamorar a rapariga, apenas viver a sensação de amar.

intenção de enamorar a rapariga, apenas viver a sensação de amar.

Nas restantes cartas, redigidas para os personagens masculinos e reais, o protagonista encabeça uma figura inteletual distante e aborda a literatura e arte e política, bem como assuntos religiosos, sobretudo no que toca ao budismo e ao cristianismo.

A obra situa-se no contexto dos últimos anos do século XIX, época turbulenta na política portuguesa com a queda da economia, o aumento da dívida pública e a insatisfação geral do povo perante esta situação. A obra representa um contraponto a esta situação com o a tentativa do narrador de cimentar os valores culturais e morais lusitanos e de colocar a nação de Viriato em pé de igualdade com o resto da Europa.

Também nos mostra o atraso da ciência e da tecnologia, sendo que Fradique aparece como a voz que denuncia a decadência do país e, descontente com a situação, sai em viagem pelo mundo para tentar entender tudo e regressa ao Portugal de antigamente, marcado pela glória dos descobrimentos.

Com o discurso deste protagonista, Eça retrata o pensamento inteletual da época sobre essa recessão, mostrando-nos o ceticismo e pessimismo presente.

No caso da obra Nação Crioula, o protagonista não é uma personagem original criada por Agualusa. A personagem é readaptada a partir do protagonista de A Correspondência de Fradique Mendes de forma a dar um novo aspeto à personagem de Eça que, no caso de Agualusa, vira o foco para a os casos da Angola e do Brasil, duas nações que na época mergulhava no espírito esclavagista. Com isso, mantêm a identidade lusófona que o personagem das correspondências do Eça aplicava (nas cartas endereçadas à Madame S.).

Ambas as obras assumem um cariz de intervenção, sendo que Fradique de ambos os enredos é usado como veículo para Agualusa e Eça retratarem os problemas políticos e sociais com que lidam em ambos os seus países de origem, denunciar o pensamento decadente e alertando para a necessidade de uma mudança nos paradigmas de ambas as sociedades.

No geral, as três obras apresentadas são espelho de uma comparação de Portugal (o mundo lusófono no caso da Nação Crioula) e o resto da Europa, focando no atraso e rusticidade portuguesa em relação ao avanço tecnológico e social nos outros países (como o caso de Paris representado n’A Cidade e as Serras), quer na crítica mordaz queirosiana como na observação sociológica de Agualusa, presente também nas observações dos protagonistas no choque que sofrem quando passam do cenário das grandes cidades litorais para o cenários das terras no interior dos países.

A Cidade e as Serras¸ Nação Crioula e A Correspondência de Fradique Mendes são três obras importantes para a literatura lusófona, escritas por autores que se tornaram grandes referências na literatura de expressão portuguesa.

Foram importantes pelo retrato que fizeram de uma sociedade portuguesa mesquinha e retrógrada, mas também uma sociedade rústica e de brandos costumes, e alertaram para uma necessidade de mudança de hábitos e de pensamentos por parte dos inteletuais e das pessoas que nela tinham poder.

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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.