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Vila Nova de Famalicão
Quarta-feira, 26 Janeiro 2022
Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

O espelho de Stephen Crane

Um retrato humanista feito pelo poeta.

9 min de leitura
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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

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“Vi um homem perseguindo o horizonte;
às voltas e voltas eles corriam.
Estava perturbado perante isto;
abordei o homem.
“Isso é fútil”, disse,
“jamais conseguirá” –
“Você mente”, ele chorou,
e correu.”
– Stephen Crane

A civilização humana é um poema constante. Tenho em mim essa ideia. A humanidade em ação é um ato constante de poesia. A algazarra, a chinfrineira, os sentimentos, as emoções, as interações… tudo isto tem um brilho, uma sonoridade, um significado, uma ligação. O que será o poema para além de uma fonte de brilho, de sonoridade, de significado, de ligação?

Assim de repente, recordo-me de uma passagem de um filme chamado “O Clube dos Poetas Mortos”, onde o Professor Keating (interpretado pelo eterno Robin Williams) reúne os alunos em sua volta e diz: “não lemos e escrevemos poesia por ser bonito. Lemos e escrevemos poesia, porque somos membros da raça humana. E a raça humana está repleta de paixão”. O mesmo acrescenta a tira “…poesia, beleza, romance, amor. É por isto que estamos vivos”.

Para reforçar a sua mensagem, Keating cita um poema de Walt Whitman, o grande poeta dos Estados Unidos, do qual destaco esta passagem: “…que a vida existe… que a poderosa peça segue decorrendo e que tu podes contribuir com um verso”. Com isto, o professor instiga os alunos a escreverem poesia, a contribuírem para essa peça que segue decorrendo: a Humanidade. Eis a grande temática desta segunda crónica da novata rubrica “Literatura Circular”: a Poesia e a Humanidade.

Contudo, para que o caro Leitor não leve isto como uma aula de Literatura Portuguesa do 10ºano, devo dizer que a crónica não será sobre a poesia no sentido teórico, muito menos sobre os devaneios de Keating. A crónica se debruçará sobre um poeta que, após passar uma eternidade nas margens do rio Lethes, saltou recentemente à vista do círculo literário: Stephen Crane.

Stephen Crane foi um autor norte-americano nascido em 1871 em Newark e destacou-se como poeta e jornalista. Tendo começado a escrever aos 8 anos, começa também a carreira jornalística em Nova Iorque, atuando como freelancer. Mais tarde, parte para a Europa e trabalha como jornalista na Grécia. Trabalha também como jornalista em Cuba. Morre na Alemanha em 1900, vítima de tuberculose. Tinha 28 anos e, como morreu jovem, acabou por cair no esquecimento e não ter a merecida projeção.

Paul Auster, aclamado romancista e conterrâneo de Crane, publicou no passado mês de Outubro “Um Homem em Chamas: A Vida e a Obra de Stephen Crane”, um longo livro de 864 páginas sobre o autor que sai do estilo literário tão caraterístico do próprio autor de “A Trilogia de Nova Iorque”. O próprio Stephen Crane também surpreende por não ser o tipo de autor que Paul Auster geralmente admira (Samuel Beckett, Franz Kafka, Liev Tolstoi…).

Sendo a minha área de especialização académica a Literatura Norte-Americana e mantendo eu um fascínio pela obra de Paul Auster, fiquei radiante por ele ter lançado uma nova obra e fiquei curioso em relação a Stephen Crane.

Contudo, como se trata de um livro muito extenso, um mês não chegaria para ler o mesmo de fio a pavio. Então, fui pesquisar sobre a poesia de Stephen Crane, poesia essa que achei interessante pelo seu teor de reflexão humanista. De toda a poesia existente, houve um poema que me chamou a atenção: “Vi um Homem perseguindo o Horizonte” (poema esse que o leitor poderá ler em epígrafe no início do artigo). Gostava de partilhar consigo, caro Leitor, as minhas ilações sobre o poema (peço perdão por induzir o caro Leitor nesta parte um bocadinho mais chata da Literatura que é a análise de poemas).

No poema, temos dois homens: um homem observador e um homem “ativo”. A ação do poema é narrada pelo observador que vê o “ativo” fazendo algo que o mesmo considera uma futilidade, uma loucura: correr atrás do horizonte e tentar apanhá-lo. Vemos que o mesmo observador tenta alertar o homem em movimento sobre esse ato impossível (que é apanhar o horizonte) e a levar com uma reposta negacionista a tal facto por parte do “louco” que continua correndo.

O mais interessante nesta história é a forma como a mesma reflete a necessidade e o desejo incontroláveis que o ser humano tem de se colocar acima dos seus limites físicos e existenciais. No fundo, nós, os seres humanos, não nascemos para sermos seres humanos. Pelo menos, pensamos que não nascemos para o sermos. O Homem tenta por todos os meios ser superior, ser perfeito. O Homem procura ser um Deus. Se formos folhear os compêndios de Mitologia Grega, veremos muitos casos de tentativas de seres humanos em se tornarem superiores à sua mortalidade. Na própria conceção grega de criação do mundo, vemos Prometeu a dar o “Fogo dos Deuses” ao Homem, um fogo que lhes dá tanto conhecimento como aquele que os deuses têm.

A meu ver, o negacionista retratado por Stephen Crane no seu poema sofre de uma espécie de “Síndrome de Ícaro-Sísifo”. Assim como Ícaro alimenta uma curiosidade enorme de conhecer o Sol, o negacionista alimenta uma vontade de conhecer o horizonte. Ambos correm atrás desse conhecimento “ilícito“ e não querem saber das consequências. Assim como Ícaro recebe o aviso de Dédalo (seu pai), o negacionista recebe o aviso do observador. Ambos rejeitam o aviso. Ambos “caem”.

Contudo, assim como Sísifo, retrocesso após retrocesso, continua a empurrar a pedra gigante pelo monte acima, o nosso negacionista continua perseguindo o horizonte. Ambos, perante o desespero das suas situações, continuam a acreditar que vão conseguir o seu objetivo. Eles, tal como o Homem no geral, tentam se sobrepor à sua mortalidade.

Ainda para mais, acredito que o observador que aborda o negacionista é o próprio Stephen Crane a julgar a ação do homem “louco”, sendo esse julgamento uma ação moralista.

A “teimosia” do homem em vencer o seu destino é muito bem contemplada pela Literatura e acredito que não é difícil encontrar nela esta representação da obstinação. Lembro-me neste momento de “Esperando Godot”, peça escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Na obra, vemos Estragon e Vladimir, dois homens com aparência de pobres que esperam por Godot, uma pessoa que eles próprios não conhecem (nem sabem o que pretendem dele).

Mesmo com as sucessivas quedas “à la Ícaro”, eles mantêm a perseverança que vemos em Sísifo e continuam a esperar por Godot (quase como se ele fosse um Messias que vem fazer uma revelação sobre o curso das vidas do dois), mesmo sabendo que não vai dar em nada e que eles acabarão por morrer e sucumbir a um destino trágico.

Se voltarmos à Literatura Norte-Americana, vemos também um caso na obra “A Pérola” (clássico de John Steinbeck), embora este caso de teimosia tenha um propósito mais nobre. Nesta obra, vemos Kino e Juana, dois pais que, contra as suas condições financeiras, tentam curar o seu filho Coyotito. Depois que encontram uma pérola rara na praia, tentam vendê-la para poder pagar o tratamento médico do filho que fora mordido por um escorpião. Apesar das várias rejeições dos especialistas em pérolas que dizem que a pérola é falsa, Kino insiste em vender a pérola e vencer esse destino que o quer entalar com a dívida monetária. Esta teimosia leva à morte da criança durante uma emboscada de ladrões que tentam roubar a pérola que Kino guardava de forma casmurra.

Temos também o caso de “Frankenstein”, clássico da Literatura Inglesa escrito por Mary Shelley que conta a história de Victor Frankenstein, um médico que tenta criar uma criatura perfeita contra todos os dogmas da ciência. Acaba por se desiludir e abandonar a criatura que acaba por ser atacada e perseguida na rua. A criatura acaba por se vingar e matar a noiva de Victor e por fazê-lo vaguear durante toda a sua vida.

Existem também retratos desta teimosia humana noutras áreas como o Cinema, a Fotografia… mas isso daria uma outra crónica e eu não quero que o caro Leitor fique a achar que a Poesia e as Artes são coisas chatas.

Em suma, aconselho a leitura da poesia de Stephen Crane. Como já deixei assente no início do artigo, a poesia de Crane tem uma índole de análise humanista. Stephen Crane analisa a mortalidade do Homem e sua mania da superioridade. Quem gostar de textos com um toque espiritual, tem poemas como “No Céu” ou “Eis, o Túmulo do Homem Maldoso”, onde o autor dá um toque moralístico, algo que não é de surpreender, tendo em conta as raízes metodistas da família de Stephen Crane.

Em suma, leiam Stephen Crane e leiam também o livro que o Paul Auster lançou (porque eu também o irei ler).

Bibliografia: poema analisado (em inglês) e mais poemas do autor (em inglês).

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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.