Na verdade, nunca me senti de outra forma. O meu estado habitual é sentir-me a caminho de algum sítio ou alguma coisa. E quando chego lá? Ponho-me a caminho de outro “lugar”, seja ele externo ou interno.
A questão é: desfruto e saboreio este(s) caminho(s)? Tenho-me apercebido que não. Nem sempre porque sou eu que (não) o quero, mas porque me deixo levar…
Foi precisamente a “deixar-me levar” que ontem percebi uma das grandes vulnerabilidades dos caminhos que escolho percorrer… o difícil balanço ou a ténue fronteira entre o entusiasmo e a frustração. Na verdade, eles caminham (em mim) de mãos dadas.
E onde está a fronteira entre o entusiasmo e a frustração? No conhecer e respeitar os nossos limites. Viver intensamente, em entrega e em amor, leva a que o entusiasmo vire verbo.
Como ontem, entre 39.000 passos, numa passada que não é a minha, num ritmo que não é o meu, entusiasmei-me, entreguei-me e fui até ao fim… até ao meu limite pessoal, onde vi e senti o que tantas vezes sinto quase sem me aperceber – um desencantar, uma desilusão comigo mesma, com o contexto e com o que me esperava pela frente.
Enquanto caminhava em dor, chorava por dentro todas as vezes que não me respeitei, que me excedi por entusiasmo, seja comigo seja com e pelos outros. Enquanto caminhava, olhava para todas as partes de mim que não correspondem às expetativas, para tudo o que não é suficiente…
Depois veio a rendição…. O saber pedir ajuda. Veio o rejeitar qualquer outra solução que não fosse a que eu sentia dentro ser “o caminho dentro do caminho”. 30 Km nas pernas e 6 Km depois com uma boleia em resposta ao pedido de ajuda, descansei o corpo, a mente e o coração.
Texto auto-biográfico (08/06/2023) escrito na 1ª Etapa do 1º Caminho de Santiago
Ao realizar um 3º Caminho em 2025, num modo solitário reli alguns textos escritos durante o 1º Caminho e senti que seria oportuno partilhá-lo.
O Caminho de Dentro
No fim do dia, a maior lição que o caminho nos ensina não está nos quilómetros percorridos nem na meta alcançada. Está na rendição, no momento em que a jornada se torna uma conversa sincera connosco. O que parece ser um ponto final é, na verdade, um novo ponto de partida: o de nos ouvirmos, de respeitarmos os nossos limites e de comunicarmos as nossas necessidades sem medo. O verdadeiro caminho de Santiago não é o que nos leva a um destino, mas o que nos traz de volta a nós mesmos.
Foi a estrada que me trouxe até aqui, a este novo lugar de serenidade e autoconsciência. Agora, a cada passo, não me vejo a chegar a um sítio, mas a chegar a mim mesma. O caminho é apenas o reflexo do meu próprio ritmo, uma dança em que a liberdade reside em respeitar quem sou e o que preciso, agora e sempre.
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