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Vila Nova de Famalicão
Quarta-feira, 14 Abril 2021
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Artur Sá da Costa
Artur Sá da Costa
Estudioso da cultura famalicense, Artur Sá da Costa é investigador da história local. Escreve no dia 20 de cada mês.

Júlio Brandão, a livraria de Famalicão que o Estado Novo impediu que fosse editora

A vida da livraria Júlio Brandão foi breve e atribulada, mas intensa. Abalou o mercado livreiro português, pelo arrojo em editar livros políticos de autores marxistas e maoristas, considerados malditos pelo regime do Estado Novo. E abriu portas a jovens investigadores portugueses. Como José Pacheco Pereira.

10 min de leitura
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Artur Sá da Costa
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Estudioso da cultura famalicense, Artur Sá da Costa é investigador da história local. Escreve no dia 20 de cada mês.

Famalicão

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Há 50 anos, por estes dias, nasceu em Vila Nova de Famalicão a Livraria Júlio Brandão. Instalou-se no résdo-chão do prédio que hoje é ocupado por uma sapataria, no primeiro quarteirão, na Rua Adriano Pinto Basto, do lado direito, quando se desce dos jardins da Câmara mMunicipal.

Naquela época, no início da década de 1970, havia, do outro lado da rua, o Café Nara, famoso pelas tertúlias da oposição democrática, e pela frequência de jovens (rapazes e raparigas) irreverentes, contrastando com as poses snobes, pretensamente aristocráticas, dos frequentadores da Confeitaria Moderna.

Por essa altura, ainda soprava a brisa da “Primavera Marcelista”, decorrente do afastamento de Salazar, em 1968, que descomprimia o ambiente social e criava expectativas de desanuviamento político.

Nada de essencial mudou – hoje percebe-se isso melhor – mas a propaganda governamental de “liberalização” do regime impulsionou as forças democráticas a explorar todas as brechas e contradições que corroíam e fraturavam o pesado Estado Corporativo.

É este o lance audaz e oportuno protagonizado por Macedo Varela (advogado) e Manuel Cunha (empregado de escritório na fábrica de Oliveira Ferreira, em Riba de Ave) quando se abalançam na fundação da Livraria Júlio Brandão.

Líderes da oposição democrática e membros do Partido Comunista Português, então clandestino, os dois constituiram uma sociedade por quotas, a Cunha & Varela Lda., e criaram a livraria para difundir “a literatura progressista, nacional e também estrangeira” (Macedo Varela, “Momentos de Resistência”, catálogo da exposição, museu Bernardino Machado, org. Artur Sá da Costa, 2000).

Trata-se, no fundo, de prosseguir, por outros meios, a luta contra a ditadura, agora sobre a batuta de Marcelo Caetano, disponibilizando informação e acesso a textos políticos de esquerda que eram inacessíveis no mercado livreiro português.

As editoras existentes não arriscavam porque a censura (apesar de ter mudado de nome) continuava vigilante e ativa. Varela e Cunha nunca esconderam ao que vinham. No depoimento que recolhi para o referido catálogo da exposição “A Resistência Cultural ao Fascismo na década de 60 e 70 em Vila Nova de Famalicão”, Macedo Varela afirma: “A Livraria foi criada para ser como foi um instrumento de difusão cultural e política”.

Este era o objetivo central do projeto. Colocar no mercado obras de natureza política, nunca antes editadas, ampliando e diversificando a oferta, e sobretudo disponibilizando o acesso a autores marxistas, e desta forma municiando os militantes de esquerda de instrumentos teóricos para a sua formação e intervenção política.

Para o conseguir tornava-se necessário fundar uma editora. Foi o que Macedo Varela e Manuel Cunha fizeram. Meteram os papéis a requerer a fundação da Editora Júlio Brandão. Porém, o despacho da Direção dos Serviços de Censura, de 21 de fevereiro de 1972, pôs fim às ilusões: um e outro sócio “não oferecem garantia de cooperar na realização dos fins superiores do Estado” (Proc. 2180/69/SR-Direção dos Serviços de Censura).

A alternativa era a edição de autor, que a ditadura nunca se atreveu a proibir. Impôs a ameaça da apreensão à posteriori. Foi a via escolhida. O editor era o autor ou o tradutor, ficando a livraria responsável pela distribuição. É o que consta da ficha técnica dos 15 títulos editados. O revés sofrido acelera o plano editorial.

Lançam-se avisos aos amigos e apoiantes do projeto (a grande maioria estudantes universitários) para indicarem e traduzirem textos de literatura marxista, e escreverem estudos sobre temas da atualidade política nacional.

É aqui que emerge a figura do conceituado intelectual José Pacheco Pereira, à época um ativista político da corrente maoista, estudante na Universidade do Porto, com incursões de agitação política nos centros operários de Riba de Ave e Pousada de Saramagos.

A sua figura torna-se influente e mesmo determinante na escolha e tradução dos autores marxistas/maoistas quando aceita assumir o papel de editor de todos os títulos da coleção “Cadernos Vanguarda”.

Mas Pacheco Pereira não fica por aqui. Propõe a publicação das “Memórias de um Operário” (dois volumes) de José Silva, sindicalista e fundador do PCP no Porto, um manuscrito que, segundo diz, foi-lhe entregue por um amigo do autor, entretanto falecido. E publica nesta coleção o seu estudo “Questões Sobre o Movimento Operário Português e a Revolução Russa de 1917”.

Pacheco Pereira com Artur Sá da Costa na exposição “A Resistência Cultural ao Fascismo na Década de 60 e 70 em Vila Nova de Famalicão”, organizada pelo Museu Bernardino Machado em 2000. Fotografia DR

No seu blogue Ephemera, Pacheco Pereira afirma que foi ele quem traduziu a “maioria” dos títulos da coleção “Cadernos Vanguarda”, num total de seis, e permitiu que o seu pseudónimo “Álvaro Machado” fosse utilizado como tradutor em todos eles.

De facto, o seu nome aparece como tradutor, conjuntamente com o de Maria Helena Cunha, nos dois primeiros títulos, e o pseudónimo “Álvaro Machado” como editor nos outros quatro títulos, estendendo-se à coleção de “História e Filosofia”. A única exceção é o título “Princípios do Leninismo”, cuja tradução e edição é atribuída a José Ricardo, pseudónimo adotado por José Elísio.

Em bom rigor, Pacheco Pereira traduziu e editou os dois primeiros títulos dos “Cadernos Vanguarda” (Da Prática, de Onde Vêm as Ideias Justas, de Mao Tse Tung, e Cartas Sobre o Materialismo Histórico, de F. Engles), dando a cara – foi o único a fazê-lo – isto é, assumindo a responsabilidade editorial com o próprio nome, conjuntamente com Maria Helena Cunha.

Para os outros quatro títulos desta coleção permitiu que o seu pseudónimo “Álvaro Machado” (aliás, dois sobrenomes pouco conhecidos) fosse utilizado, como de resto aconteceu.

É esta a conclusão a que Amadeu Gonçalves chega (Blogue Do Presente) ao fazer a catalogação dos títulos editados. Gonçalves fica espantado por verificar que o título “O Revisionismo Contemporâneo, significado e funções”, de Alfred Kosing tem a assinatura de dois editores: Álvaro Machado e Telmo Machado.

Para quem acompanhou esta febril atividade, como é o caso, está em condições de afirmar que a tradução foi feita conjuntamente por Telmo Machado e Eduardo Perez Sanchez, abdicando o último da autoria. E quem traduziu os outros três títulos desta coleção? Macedo Varela, em conversa recente que teve comigo, quando este artigo estava em preparação, esclareceu que todos traduziram, inclusive, ele próprio.

José Elísio, sempre me garantiu que traduziu “O Leninismo e a Libertação dos Povos Oprimidos e outros textos”, de Ho