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Terça-feira, 27 Fevereiro 2024
Carlos Folhadela Simões
Formado em Ciências Farmacêuticas, é professor do Ensino Secundário. Cidadão atento e dirigente associativo.

Oppenheimer e o nuclear

Deveria Portugal equacionar um cenário com energia nuclear?

6 min de leitura
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Carlos Folhadela Simões
Formado em Ciências Farmacêuticas, é professor do Ensino Secundário. Cidadão atento e dirigente associativo.

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Oppenheimer, o “cientista choramingas”, como foi apelidado pelo Presidente Truman, foi uma das figuras eminentes do século XX. Licenciado em Química e doutorado, aos 22 anos, em Física Quântica, foi o “pai” da bomba atómica. Contemporâneo de outros vultos da ciência, como Niels Bohr e Albert Eisntein, ambos nobéis da Física na década de 20, foi determinante na mudança da história do mundo. Esta bomba foi a responsável, de forma imediata ou indireta, pela morte de mais de 200 mil pessoas. A bordo do bombardeiro Enola Gay, a Little Boy, como foi batizada, explodiu a 6 de agosto de 45 em Hiroxima. O “cogumelo atómico” ergueu-se nos céus, sob a forma de nuvem. O sol desapareceu e Hiroxima ficou às escuras.

Como este ato não provocou a rendição imediata dos japoneses, foi lançada, volvidos três dias, a Fat Man, de plutónio, sobre Nagasáqui.

Esta segunda bomba precipitou o inevitável. Hiroito, imperador nipónico, gravou uma mensagem de rendição, difundida no dia seguinte para todo o Japão. A 2 de setembro, a bordo do encouraçado USS Missouri, era assinado o documento de rendição.

Estes são os factos mais conhecidos do final da II Guerra Mundial. A indústria cinematográfica norte-americana, produziu o blockbuster de verão, o extenso (180’) retrato de Christopher Nolan deste enigmático físico teórico. Um thriller épico, dividido em duas partes Fissão e Fusão. A primeira retrata os tempos de estudante e os anos em que foi diretor do laboratório de Los Alamos, durante o Projeto Manhattan; a segunda onde narra a audiência de confirmação de Lewis Strauss para se tornar secretário de comércio de Eisenhower (foi durante dois mandatos, o responsável pela Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos). O argumento tem na sua génese a biografia escrita por Martin Sherwin e Kai Bird, intitulada American Prometheus – The Triumph And Tragedy Of J. Robert Oppenheimer e vencedora do Pulitzer de 2005. Filme com uma intensidade às vezes arrasadora, atinge o clímax com a respiração lenta e ritmada do protagonista, consistente com o de uma pessoa que tenta manter a serenidade num momento de grande tensão, aquando do teste Trinity, a primeira detonação de um engenho nuclear.
Foi a Alemanha nazista que liderou a corrida ao armamento nuclear.
Rutherford, Szilárd, Enrico Fermi, Heisenberg foram outros dos nomes que contribuíram para se alcançar a bomba atómica. Bem cientes do poder destrutivo da mesma, juntamente com outros físicos alemães, que por serem judeus deixaram o seu país que se encontrava sob o regime antissemita nazista e rumaram aos Estados Unidos, onde colaboraram nas pesquisas nucleares.

Ao invés de políticos e militares, foram alguns físicos a alertar, antes ainda de qualquer ensaio, para a possibilidade de se estar perante uma arma arrasadora.

E sabemos bem do poder do nuclear. Hoje, tem sido utilizado com fins pacíficos e como elemento dissuasor de conflitos.

A produção de energia elétrica em centrais termonucleares, a partir da fissão nuclear, controlada em reatores, é largamente utilizada em diversos países, liderados pelos Estados Unidos, França, China, Rússia, Coreia do Sul, Canadá, Ucrânia, Japão, Espanha e Suécia. China, Turquia, Coreia Norte, Egipto são os países que apostam em novas centrais e em novos reatores.

Dados atuais da Power Reactor Information System (PRIS), da Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) revelam que a capacidade instalada é de 368 610 MW a que se juntam mais 59 091 MW com os que se encontram em construção.

Sendo cada vez mais difícil alcançar as metas de redução de CO2, o interesse pela energia nuclear é cada vez mais desafiante. A Comissão Europeia ao reconhecer que as fontes de energia não fósseis contribuem para alcançar a neutralidade carbónica até 2050, reintroduz a energia nuclear como uma das tecnologias verdes. Energia nuclear entra na taxonomia no princípio de que “não causa danos significativos”. Poder-se-á, de facto, constituir-se como uma arma de descarbonização maciça (5 a 6 g de CO2/kWh, contra 7 a 83 g CO2/kWh do solar fotovoltaico).

A Alemanha que ocupava um lugar no top 10, tinha previsto para 31 de dezembro de 2022 o adeus definitivo ao nuclear. Face ao período de instabilidade energética que se viveu na Europa, foram vários os cientistas que se opuseram ao encerramento dos três últimos reatores. Para aquilatar do potencial do nuclear perceba-se que ao abandonar a energia nuclear, a Alemanha está a abdicar de 12% do seu fornecimento de energia, que é baixo em emissões de carbono e que é ligeiramente superior ao que fornecem, anualmente, todos os painéis solares. Isto irá, com certeza, precipitar o incremento de gás e de combustíveis fósseis.

O Governo foi inflexível e não reverteu a decisão e assim a 14 de abril encerraram mesmo as três últimas centrais produtoras de eletricidade, localizadas na Baixa Saxónia, em Baden-Württemberg e na Baviera. Enquanto o Greenpeace e outras organizações exultavam com o acontecimento, outros apelidam a decisão de precipitada e pouco racional.  A decisão germânica é a de apostar muito nos méritos das energias renováveis como alternativa.

Três grandes problemas colocam-se a esta tecnologia: a antiguidade das centrais, com características de segurança não aceitáveis nos dias de hoje; o lixo nuclear, material utilizado no reator que não serve mais para produzir energia, mas continua radioativo e que são enterrados no fundo do mar; problemas associados a acidentes, a maior parte das vezes catastróficos. Relembre-se Three Mile Island, em 1979; Chernobil, na Ucrânia, em 1986 e Fukushima, no Japão, em 2011. E não nos esqueçamos de quão perto parece termos estado muito recentemente de nova desgraça, em Zaporijjia, na Ucrânia, face ao conflito ali vivido.

A França é, há muito, a líder europeia em energia nuclear (3/4 da sua eletricidade tem essa origem). Lançou um grupo intitulado aliança nuclear europeia que inclui Bulgária, Croácia, Finlândia, Chéquia, Hungria, Países Baixos, Polónia, Roménia, Eslováquia e Eslovénia, com o objetivo de promover a investigação, a inovação e de afirmar o papel da energia nuclear para os objetivos climáticos e segurança energética da Europa.

A Áustria, com uma sólida reputação em matéria de energias renováveis, teve a iniciativa de promover o encontro dos “Amigos das Energias Renováveis”, criado para contrabalançar a aliança nuclear, que excluiu a França e no qual Portugal este presente.

A Itália, pese ter assinado a declaração da aliança, decidiu não reverter a sua posição antinuclear de longa data, mas pode sinalizar a eventual mudança de perspetiva de alguns países face às crises climática e energética.

E nós? Deveria Portugal equacionar um cenário com energia nuclear?

A história desta tecnologia em terras lusas é feita da recusa constante, quer da opinião pública, quer dos governos, em considerar sequer tal opção. Em 1976, a Companhia Portuguesa de Energia, ainda iniciou trabalhos, em Ferrel, concelho de Peniche, para a da primeira central nuclear portuguesa. Protestos enérgicos da população. As obras pararam! O movimento antinuclear espalhou-se pelo país. O apoio foi eclético! “Rosalinda”, em 1977, e “Nuclear não, obrigado!”, em 1982, na voz de Fausto e Lena d’Água contribuíram e imortalizaram esta convicção dos portugueses contra o nuclear. Os acidentes de 1979 e 1986 reforçaram esta repulsa. Cavaco Silva, no X Governo Constitucional, abandou definitivamente a ideia. A partir daí, só a espaços se voltou ao assunto.

Relembre-se que a central espanhola de Almaraz a funcionar há mais de 40 anos, localizada numa zona sísmica a meros 110 Km de território nacional, deveria ter encerrado em 2020, mas o prazo foi dilatado para 2028.

Acredito que desejavelmente seria sempre melhor uma aposta exclusiva em renováveis. No entanto, o pensar-se no assunto, o efetuarem-se estudos, mesmo que essa opção não fosse exercida, não traria mal ao mundo. Como afirmava recentemente o presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, do Instituto Superior Técnico,” …com tantos países europeus a discutirem os méritos do nuclear e a sua inclusão no seu mix energético, o que ganha Portugal em estar de fora? Discutir o nuclear não contamina!”.

Nota. A “sun in a box”, replicação na Terra do que se passa nas estrelas, está mais perto. A fusão nuclear é uma forma de energia limpa: não liberta dióxido de carbono nem gera lixo tóxico. Não é para amanhã, mas já estivemos mais longe.

 

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