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Vila Nova de Famalicão
Quarta-feira, 5 Outubro 2022

“Património do Externato Delfim Ferreira é intangível e continuará a ser agregador”

Entrevista com José Carlos Fernandes Pereira, fundador da Associação dos Antigos Alunos do Externato Delfim Ferreira, que considera o encerramento da escola, que este ano completaria 60 anos de existência, "uma enorme e irreparável injustiça".

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Na contagem descrescente para o 10.º Encontro de Antigos Alunos, Professores, Funcionários e amigos do Externato Delfim Ferreira, o NOTÍCIAS DE FAMALICÃO entrevistou José Carlos Fernandes Pereira, fundador da Associação dos Antigos Alunos do Externato Delfim Ferreira. Considera o encerramento da escola, que este ano completaria 60 anos de existência, “uma enorme e irreparável injustiça”.

José Carlos Fernandes Pereira é formado em Direito e administrador hospitalar. Frequentou o ensino secundário no Externato Delfim Ferreira, de Riba de Ave, no início da década de 1990. Escreve a coluna “Causas e Efeitos” no no dia 6 de cada mês, no NOTÍCIAS DE FAMALICÃO.

 

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO (NF) – Quando frequentou o Externato Delfim Ferreira?

JOSÉ CARLOS FERNANDES PEREIRA (JCFP) – Entrei para o Externato Delfim Ferreira em 1990, para frequentar os 10.º, 11.º e 12.º anos de humanísticas. Saí em 1993, mas visitava-o com alguma frequência.

NF – Por que razão frequentou apenas estes três anos?

JCFP – Estava numa fase da minha adolescência em que tinha que encontrar um espaço que me orientasse para um futuro alicerçado num bom ensino e em valores fortes. Razões que me levaram a pedir aos meus pais para me matricular no Colégio de Riba de Ave. Daqui fui para a universidade, para o Porto, onde me licenciei em Direito e conheci novas pessoas. Acabei por me fixar nesta cidade, mas nunca perdi o contacto com o Colégio nem com muitos dos antigos professores, alguns hoje meus amigos.

NF – Que valores foram esses?

JCFP – O Externato Delfim Ferreira possuía um ideário humanista, de inspiração cristã, que se sentia quando atravessávamos os seus portões. Éramos orientados para a família, a solidariedade, a amizade, a igualdade, o respeito pelo próximo, o amor à vida, enfim, valores que, mesmo ensinados nas nossas casas, eram reforçados desde o diretor ao aluno de mais tenra idade.

NF – Eram esses valores que o faziam regressar com frequência?

JCFP – Sem dúvida. Como disse, éramos uma segunda família.

NF – E já não são uma família?

JCFP – Hoje não temos uma “casa” para regressar, o Colégio fechou em 2019. Mas a família permanece e está maior. São quase seis décadas de antigos alunos, professores, funcionários. É um vasto património educativo que permanecerá nos tempos.

NF – Consegue nomear dois ou três dos professores que mais o marcaram?

JCFP – Senti-me sempre muito considerado, porque todos os professores se dedicavam a cada aluno de um modo muito pessoal. Há professores que marcaram várias gerações de antigos alunos. Recordo com muita saudade o meu professor de latim, Castro Mendes, um homem generoso e detentor de uma mente brilhante. Foi uma das maiores autoridades nacionais no ensino do português, latim, grego ou aramaico. Faleceu em 2012. A Rosarinho, minha professora de geografia, que nunca envelheceu, com quem mantenho contactos, ainda hoje incansável na sua dedicação aos antigos alunos e ao que representa o Colégio. Recordo também o Luís Lemos, um verdadeiro orientador, que nos permitiu ter uma visão para fazer as escolhas certas para o nosso futuro. O Rui Falcão, autor do nosso logótipo…

Prof. Castro Mendes.

NF – Fez as escolhas certas?

JCFP – Devo ao professor Luís Lemos a minha escolha do curso de Direito, no Porto. Esta opção marcou toda a minha vida e vejo-a como a mais acertada.

NF – Em 2003 fundou a associação de antigos alunos. O que o motivou?  

JCFP – O Colégio gozava de grande prestígio no panorama educativo nacional – era o melhor do distrito de Braga e um dos melhores do país. Com 40 anos de fundação, o Colégio merecia uma associação que estreitasse o relacionamento entre as várias gerações de antigos alunos, criasse laços de solidariedade e projetasse o nome do Externato Delfim Ferreira.

NF – Obteve recetividade por parte do Colégio?

JCFP – A recetividade foi total. O Doutor Aurélio Fernando, à data presidente da direção do Externato Delfim Ferreira, acolheu com grande entusiamo a nossa ideia, secundado pelos diretores Dr. Josias Barroso e Dr. Artur Pereira.

NF – Que lhe disse o Doutor Aurélio?

JCFP – Para avançarmos com a criação da associação. Ficaram-me na memória as palavras que escreveu no editorial d’ ”O Boca Aberta” de março de 2003: “Claro que fiquei radiante e em súmula disse-lhe: «juntai-vos e formai um só». Pois todos sabemos como as grandes amizades são feitas nos bancos da escola”. Em 10 de março de 2003, já estávamos a apresentar à imprensa a instalação da associação de antigos alunos. Em 22 de agosto de 2003 foi oficialmente constituída a Associação dos Antigos Alunos do Externato Delfim Ferreira, no 2.º Cartório Notarial de Vila de Nova de Famalicão.

NF – Que objetivos prossegue a associação?

JCFP – Além da defesa do nome do Externato Delfim Ferreira, promovemos o relacionamento pessoal e profissional entre os antigos alunos e intensificamos os laços de proximidade e solidariedade entre todos.

NF – Após o fim dos contratos de associação, o Externato Delfim Ferreira fechou em 2019. Há ainda espaço para manter esse espirito agregador da associação?

JCFP – O antigo ministro da Educação, Doutor Nuno Crato, escreveu-nos em 2012 que a verdadeira escola é aquela que extravasa o seu espaço e tempo e que se transmite dia a dia nas atuações, nas atitudes e nos valores de cada um de nós, no conhecimento, no trabalho, no esforço, na dedicação, no respeito ao próximo e na iniciativa. Um “antigo aluno” nunca abandona a sua condição de “aluno”, um elo umbilical à sua escola que nunca fará dele “ex-aluno”. É esta a força que nos move em volta da AAAEDF.