O início de um novo ano convida naturalmente à reflexão. Para quem já viveu o suficiente para relativizar urgências e ambições pessoais, esse momento não é tanto sobre projetos próprios, mas sobre o mundo que se deixa aos outros.
Poucos dias depois do Ano Novo, a 4 de janeiro, celebro mais um aniversário. A idade não pesa, ensina. E uma das lições mais claras é esta: já não faço planos longos. O futuro pertence sobretudo aos meus filhos, aos meus netos e à geração que cresce com eles. É a pensar neles que escrevo estas linhas.
Na mensagem de Natal que partilhei, procurei destacar valores e não valor material. No arranque deste novo ano, deixo uma ideia simples, mas que considero essencial: o saber é uma das maiores forças ao serviço da paz, do progresso e do verdadeiro bem-estar coletivo. Como escreveu Francis Bacon, “o conhecimento é poder” poder para construir, corrigir e melhorar.
Vivemos um tempo de consumismo sem paralelo. Nunca se produziu, comprou e descartou tanto. Este excesso não é neutro: alimenta arrogância, pressa, superficialidade e um progressivo desinteresse por valores humanos e sociais que não cabem numa lógica imediata de lucro ou visibilidade.
Confunde-se frequentemente crescimento com desenvolvimento e sucesso com acumulação. No entanto, uma sociedade pode ter muito e valer pouco. O saber, pelo contrário, não empobrece ninguém. Quando é partilhado, multiplica-se. Quando é aplicado com responsabilidade, gera equilíbrio, justiça e coesão social.
Aprender não é um luxo nem uma fase da vida, é uma necessidade permanente. Há uma satisfação profunda em compreender melhor o mundo, em questionar certezas e em transformar conhecimento em ação útil. Essa satisfação é discreta, mas duradoura. Não depende de modas nem de consumo.
Importa, porém, sublinhar que o conhecimento só cumpre o seu papel quando orientado por valores. Sem ética, pode tornar-se instrumento de divisão; com responsabilidade, é uma das mais sólidas bases da civilização. A educação, o pensamento crítico e o exemplo continuam a ser as respostas mais eficazes à ignorância e à intolerância.
Deixar um mundo melhor não significa deixá-lo perfeito. Significa deixá-lo um pouco mais consciente, mais justo e mais humano. Um mundo onde o bem-estar não seja apenas económico, mas também social e cultural. Onde a tranquilidade venha menos da posse e mais da confiança e da dignidade.
A verdadeira tranquilidade não se compra. Constrói-se. E constrói-se, sobretudo, com saber e valores.
Para este novo ano, o desejo é simples e realista: menos excesso e mais consciência. Menos ruído e mais reflexão. Se assim for, estaremos a cumprir o nosso dever para com os que vêm depois de nós.
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