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Sábado, 23 Outubro 2021
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Back to school

Após todo o transtorno causado por inúmeros fatores, o ensino presencial voltou. Não há tecnologia que substitua o cara a cara, os olhos nos olhos, a azáfama da sala de aula.

6 min de leitura
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Carlos Folhadela Simões
Formado em Ciências Farmacêuticas, é professor do Ensino Secundário. Cidadão atento e dirigente associativo, escreve neste jornal no dia 28 de cada mês.

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Após dois anos letivos atípicos, fruto da pandemia, as aulas retomaram na semana transata, o seu normal funcionamento.

Foram retomadas as aulas presenciais. E após todo o transtorno causado por inúmeros fatores (falta de equipamentos informáticos, internet sofrível ou inexistente, falta de espaço para inúmeros agregados familiares em confinamento conjunto…) o ensino presencial voltou. Não há tecnologia que substitua o cara a cara, os olhos nos olhos, a azáfama da sala de aula.

O ensino remoto deixou ensinamentos para o futuro nomeadamente por ter potenciado a experiência dos vários intervenientes, desde os alunos aos pais, na utilização de recursos e instrumentos digitais. Estes, mesmo em contexto presencial, serão ferramentas utilitárias no contacto entre os diversos agentes do processo de ensino-aprendizagem, encurtando distâncias e abrindo as portas da sala de aula ao mundo. É de facto um filão a explorar agora que finalmente chegaram os quase sebastiânicos computadores!

No entanto, muitas outras condicionantes poderão afetar este ano letivo. Velhas questões que, face aos tempos atuais, terão outra visibilidade e almejam por respostas e soluções.

Recuperação aprendizagens – foi implementado o plano 21/23 Escola+ que preconiza entre outras medidas a aposta na formação e capacitação do pessoal docente e não docente, o incremento dos recursos digitais e apetrechamento das escolas em equipamentos e infraestruturas e o reforço dos recursos humanos nas escolas. Este plano “… permitirá assumir opções futuras com sustentabilidade, e visa dar resposta aos impactos da pandemia da Covid-19 junto das crianças e jovens, ao nível da aprendizagem e do desenvolvimento psicopedagógico e motor…”.

A falta de recursos, bem como outros fatores resultantes do surto pandémico, comprometeram o percurso escolar de muitos alunos, em diferentes níveis e contextos. É opinião generalizada a extrema preocupação que esta situação possa ter tido nomeadamente nos primeiros anos de escolaridade.

Taxa de sucesso inflacionada, considerando apenas as disciplinas de Português e Matemática e considerando os anos letivos de 2010/2011 e 2019/2020, vejamos alguns dados estatísticos:

Classificação final média dos alunos nessas disciplinas (níveis 1 a 5): Português, respetivamente para 7º, 8º e 9º anos, variação de 3,1; 3,2 e 3,1; para 3,4; 3,4 e 3,5; a Matemática variação de 3,0; 2,9 e 3,0 para 3,3; 3,2 e 3,3;

Percentagem de alunos com classificação final negativa na disciplina: Português 22; 18 e 16% para 8, 7 e 3% ; a Matemática 32, 38 e 32 % para 19, 23 e 21 %.

São as percentagens mais baixas dos últimos 9 anos letivos!

Percentagem de alunos com classificação final 4 ou 5 na disciplina: Português, 27, 27 e 24%, para 41, 39 e 38%; a Matemática 27,24 e 25%, para 40, 36 e 38%.

São as percentagens mais altas dos últimos 9 anos letivos!

Ou seja, o primeiro ano em que houve ensino à distância, foram obtidos os níveis mais altos e a menor taxa de insucesso.

Há, no entanto, outros dados oficiais que parecem contradizer estas evidências, nomeadamente os resultados extraídos de um estudo que pretendeu “…aferir o estado atual das aprendizagens, avaliando, de forma transversal e integrada, competências e literacias científica, da leitura e informação, e da matemática…”. O diagnóstico concluiu que metade dos alunos dos 3º, 6º e 9º anos revelavam dificuldades elementares nas competências aferidas.

Acresce o facto de no TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) de 2020 se ter constatado a primeira regressão num percurso que apresentava melhorias desde 1995. Embora Portugal tenha ficado acima do nível de água, o resultado dos alunos mais novos baixou.

Regresso da avaliação externa, vulgo exames: No cômputo geral os resultados deste dois últimos anos foram melhores. Tal facto pode também, ter contribuído para ter permitido a candidatura dos cerca de 62 500 alunos à 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao ensino superior público. O número mais elevado desde 1996.No entanto, aguardemos os resultados dos próximos exames, em princípio, já sem as condições de exceção que vigoraram nestes últimos. E que resultados esperar dos exames do 3º ciclo, suspensos há dois anos?

Outra vertente que tenderá a ser incrementada é a das vulgar e popularmente designadas por explicações.  Há os alunos que efetivamente têm dificuldades de base ou de compreensão de algumas matérias, e que recorrem a esse apoio supletivo e de reforço para colmatar os deficits na aprendizagem, e depois há os alunos que já são bons ou muito bons e que procuram a excepcionalidade. Face aos objetivos individuais uma décima pode fazer a diferença.

No contexto atual, não será der estranhar que inúmeros agregados familiares possam estar para aí inclinados, quer pela tentativa de recuperar aprendizagens ou pelo simples facto do cumprimento das diretivas da DGS, imporem horários desfasados o que é quase um convite à frequência de centro de explicações ou similares.

Este “shadow education” (educação na sombra), termo utilizado pelos especialistas na matéria, pela Comissão Europeia e pela OCDE, prolifera a olhos vistos, mas continua sem regulamentação. Para quando a regulamentação da atividade, a dedução das despesas em sede de IRS, o fim da diferenciação pela taxa de IVA (…) e é um mercado, segundo os últimos dados, avaliado em cerca de 200 milhões de euros ano, tax free.

Uma das questões que continuam a preocupar os encarregados de educação e Diretores de escolas é a falta de professores nalguns grupos disciplinares, com especial incidência nalgumas zonas do país. Informática, Geografia, Física e Química e Inglês são algumas dessas disciplinares e as regiões do Algarve e Lisboa as mais afectadas. Uma panaceia para este mal poderá ser o solicitado apoio à deslocação. Quando quase se tem de pagar para trabalhar será difícil esperar resultados diferentes!

Outras duas situações que merecem ser acompanhadas, prendem-se com as condições materiais das escolas. Se há quem frequente os “palacetes” da  Parque Escolar, há ainda quem trabalhe em estabelecimentos em que o frio, humidade e desconforto são por demais evidentes.

A recente proibição da venda de alguns produtos nos bufetes escolares, contribuirá para o incremento desmesurado do aliciamento nas proximidades. Será a proibição uma medida efectiva? Não se terá passado do oito para o oitenta? O reforço na aposta da educação para a saúde traria, com certeza, efeitos mais benéficos!

Por último, que esperar do programa desporto escolar 21-25, onde a aposta no ciclismo acarretará um investimento de 3 milhões de € na compra de bicicletas. Mais uma vez, a casa parece estar a ser construída pelo telhado. Não mereceria o desporto escolar outro tipo de reflexões? Para quando uma maior articulação com clubes e federações? Para quando dinheiro para transportes? Para quando horários compatíveis para a  prática das diversas modalidades?

O que subjaz à oferta das diversas modalidades? E tantas outras questões…

Esperemos que tudo volte ao normal…

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Carlos Folhadela Simões
Formado em Ciências Farmacêuticas, é professor do Ensino Secundário. Cidadão atento e dirigente associativo, escreve neste jornal no dia 28 de cada mês.