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Sábado, 23 Outubro 2021
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Cientista famalicense cria medicamento contra cancro no cérebro das crianças

A famalicense Amanda Costa, que está nos EUA a fazer o pós-doutoramento, descobriu um medicamento contra um tipo de cancro no cérebro das crianças. O trabalho está em fase de publicação e revisão. A próxima etapa é o teste em humanos.

12 min de leitura
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Amanda de Andrade Costa, de 30 anos, é uma investigadora famalicense que poderá inscrever o seu nome na história da medicina por fazer parte da descoberta de um medicamento contra um tipo de cancro cerebral que se manifesta em crianças dos 2 aos 7 anos de idade.

Ao fim de dois anos de trabalho, os estudos estão avançados, sendo a próxima fase o teste em humanos, “como tratamento coadjuvante à quimioterapia em crianças com gliomas”. “O resultado é muito promissor. Conseguimos reduzir a proliferação dos tumores e também o crescimento. O trabalho foi submetido para publicação há duas semanas e está em processo de revisão”, revelou a investigadora em entrevista exclusiva ao NOTÍCIAS DE FAMALICÃO.

Amanda Costa trabalha no Neurofibromatosis Center, que faz parte do segundo maior departamento de neurologia dos Estados Unidos, que pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, onde faz investigação no âmbito do seu pós-doutoramento.

Natural da freguesia de Cavalões, concelho de Vila Nova de Famalicão, e a viver nos Estados Unidos, depois de ter feito o doutoramento em Berlim, na Alemanha, desde criança que Amanda Costa sabia que o que mais queria na vida era “cuidar da saúde das pessoas”. Na infância, pensou que isso significaria ser médica; na juventude descobriu que havia outras formas.

A identificação com a biotecnologia foi total. Estudou em Portugal até ao mestrado, fez o doutoramento na Alemanha e está a fazer o pós-doutoramento nos Estados Unidos.

Com artigos publicados em revistas científicas internacionais, Amanda Costa é hoje uma investigadora que se dedica ao estudo da microglia. Um dos frutos do seu trabalho é a descoberta de um medicamento para tratar tumores no cérebro das crianças.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – No âmbito do seu pós-doutoramento, é investigadora do Neurofibromatosis Center, que é o segundo maior departamento de neurologia dos Estados Unidos, que pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de Washington. No que consiste o seu trabalho?
AMANDA COSTA – O meu pós-doutoramento é voltado para um tipo de cancro no cérebro infantil com incidência em crianças entre os 2 e 7 anos de idade. Descobri uma proteína cuja expressão está aumentada em gliomas (tumores cerebrais) associados a uma síndrome genética chamada Neurofibroatose tipo 1. Tratamos animais com um anticorpo que neutraliza essa proteína impedindo a interação com células e moléculas doentes no tumor.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Ou seja, é uma cura para este tipo de tumor?
AMANDA COSTA – O resultado é muito promissor. Conseguimos reduzir a proliferação dos tumores e também o crescimento. O trabalho foi submetido para publicação há duas semanas e está em processo de revisão.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – E qual é o próximo passo?
AMANDA COSTA – Para chegar até à etapa de publicação foram quase dois anos. O próximo passo é passar à fase de testes em humanos, sendo usado como tratamento coadjuvante à quimioterapia em crianças com gliomas.

“Tratamos animais com um anticorpo que neutraliza essa proteína impedindo a interação com células e moléculas doentes no tumor. O resultado é muito promissor. Conseguimos reduzir a proliferação dos tumores e também o crescimento.”

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Como foi que então surgiu a Biotecnologia no seu caminho?
AMANDA COSTA – Desde muito pequenina sempre soube que queria trabalhar na área da saúde, por isso, a decisão de estudar medicina aconteceu naturalmente. Estava no secundário e a escola levava-nos a visitar universidades que realizavam “semanas de experiências”. Foi numa dessas visitas que conheci o curso e passou a fazer parte das minhas opções. Não entrei em Medicina por apenas dois centésimos e entrei em Bioengenharia.
Comecei a estudar Bioengenharia, com especialização em Biotecnologia Molecular numa parceria entre a Faculdade de Engenharia (FEUP) e o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto e gostei logo.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Conte-nos um pouco sobre a biotecnologia. Quais as áreas de atuação, saídas profissionais.
AMANDA COSTA – A biotecnologia é um mundo. Há muito o que aprender. Desde logo é importante saber que é possível escolher entre três ramos, todos eles muito interessantes e, consoante a escolha, são várias as saídas profissionais possíveis. Quem opta pela área da indústria pode dedicar-se ao desenvolvimento de próteses, maquinário hospitalar, software, etc. Para quem opta pela indústria biológica o futuro profissional pode passar, por exemplo, por estações de tratamento de águas residuais (ETAR) ou controlo de qualidade. Há também um vasto campo no “background” da indústria farmacêutica através da produção de vacinas, criação de medicamentos ou desenvolvimento de novas aplicações para medicamentos já existentes. Dentro de cada um desses ramos de atuação há outras áreas específicas. Eu, por exemplo, estou a dedicar-me à neurociência.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Como foi o seu percurso académico?
AMANDA COSTA – Iniciei a licenciatura em 2008 e conclui em 2014, com o mestrado integrado. Desse período, destaco duas experiências muito enriquecedoras. A primeira foi um estágio sobre vacinas no Departamento de Imunologia do ICBAS, na Universidade do Porto, em 2012. A outra, o meu primeiro projeto de neurociências, na área da epilepsia, realizado no âmbito do Programa Erasmus, através do qual estive durante seis meses em Varsóvia, na Polónia, em 2013. De regresso a Portugal, desenvolvi a minha tese de mestrado sobre dor crónica na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – As neurociências são importantes para explicar uma dor crónica?
AMANDA COSTA – Muito importantes. Ao fazer o mestrado sobre dor crónica misturei, pela primeira vez, o meu interesse nessas duas áreas: neurociência e imunologia. Para estudar mais profundamente a dor é essencial perceber a sua origem e mecanismos. Foi isso que eu fiz. Mais precisamente trabalhei em estudar um mecanismo no cérebro em que o uso de morfina para tratamento de dor crónica em vez de causar uma atenuação da dor, causava um aumento da dor (designado de hiperalgesia). Extraí e estudei o cérebro de ratos, estudando as reações à dor ao nível celular e molecular. Uma das populações de células mais importantes neste processo é a de microglia, que são células do sistema imunitário do cérebro.

Amanda Costa no laboratório a analisar o conteúdo celular e molecular de diferentes regiões do cérebro de um rato.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Depois da universidade, qual foi o passo seguinte?
AMANDA COSTA – Uma semana antes de defender o mestrado já tinha duas ótimas propostas de trabalho vindas de dois países europeus.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Foi fácil a decisão entre partir para o estrangeiro ou ficar em Portugal?
AMANDA COSTA – Portugal atravessava uma profunda crise económica que afetava as hipóteses de ter trabalho sem mudar de país. Para se ter uma ideia do impacto da crise, em 2013, a Fundação da Ciência e Tecnologia concedeu apenas trinta e cinco por cento de bolsas de estudo em comparação com o ano anterior, atribuindo bolsas a apenas aproximadamente dez por cento dos candidatos. Além disso, a experiência de viver fora é algo que eu desejava. Eu sabia que seria enriquecedora tanto ao nível pessoal como profissional. E continua a ser.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Qual o destino escolhido para fazer o doutoramento e como foi a experiência?
AMANDA COSTA – Entre Berlim e Londres, escolhi Berlim. Estive lá entre 2014 e 2018 a fazer o doutoramento. Resolvi especializar-me em microglia em contexto de AVC (acidente vascular cerebral). Ao longo da minha investigação descobri a existência de uma proteína que aumentava muito durante um AVC e que podia ser usada como protetora das células nervosas.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Como foi a experiência de viver em Berlim?
AMANDA COSTA – Berlim é uma cidade fantástica, muito cosmopolita e com montes de coisas a acontecer ao mesmo tempo. No laboratório havia gente de diversos países e toda a gente falava inglês. Mas aprendi a falar alemão para facilitar aspetos práticos do dia a dia como ler os rótulos dos produtos nos supermercados, etc. No entanto, não sou fluente em alemão, porque toda a gente falava em inglês e assim não pratiquei o suficiente.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – O que se seguiu ao doutoramento?
AMANDA COSTA – Em Berlim, durante o terceiro ano do doutoramento, conheci um cientista norte-americano que é um dos grandes investigadores de microglia no mundo. Fui convidada a participar numa reunião de apresentação de projetos na qual ele estava presente e convidou-me para ir para os Estados Unidos após o doutoramento.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Eram esses os seus planos?
AMANDA COSTA – O convite foi uma surpresa. Até então pensava em permanecer na Europa. Mas foi uma proposta irrecusável. Terminei o doutoramento em Berlim em dezembro de 2018 e em fevereiro comecei imediatamente a trabalhar nos EUA.

“As pessoas não sabem quem descobriu o paracetamol e isso não importa. O importante é que o medicamento ajuda muita gente. Na ciência a motivação não é a fama. É impactar positivamente a vida das pessoas.”

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Está satisfeita?
AMANDA COSTA – Sim, muito. Estou a trabalhar no Neurofibromatosis Center, que faz parte do segundo maior departamento de neurologia dos EUA e pertence à Washington University School of Medicine, que é a sexta melhor escola de medicina do país. A cidade onde moro, apesar de não ser uma as maiores do país, é também bastante cosmopolita. Assistir em primeira mão ao que vemos vindo de Hollywood e perceber o que é realidade ou não em relação ao estilo de vida americano e aos problemas sociais que eles enfrentam tem sido bastante enriquecedor a nível pessoal.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – Como se procura a cura de uma doença?
AMANDA COSTA – Bem, em primeiro lugar é preciso investigar como a doença funciona. Só percebendo como os seus mecanismos funcionam é que podemos investigar formas de tratamento. Decidi dedicar-me ao estudo da microglia, que são as células do sistema nervoso central que “conversam” entre si e com outras células do sistema nervoso. Elas fazem o que chamo de “fofocas celulares”. Analisando essas células descobri como conversam quando não há doença e como conversam quando estão doentes. Também estudei para descobrir como reverter as “fofocas” destas células durante o desenvolvimento dos tumores. Estudos mostram genes transcritos de forma diferente em contexto de doença (alzheimer, esclerose múltipla, gliomas). Investigando esse comportamento descobri uma proteína cuja expressão está aumentada especificamente em gliomas e não nas outras doenças do sistema nervoso.

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO – O que é que a motiva no trabalho como investigadora?
AMANDA COSTA – Não preciso ser uma ajuda para o mundo inteiro. Ajudar algumas pessoas é o que mais me motiva. Louis Pasteur é um nome famoso na ciência e fez um grande feito para toda a Humanidade com a sua contribuição para a produção de vacinas. As pessoas não sabem quem descobriu o paracetamol e isso não importa. O importante é que o medicamento ajuda muita gente. Na ciência a motivação não é a fama. É impactar positivamente a vida das pessoas.

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