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Vila Nova de Famalicão
Sábado, 4 Fevereiro 2023
Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

O poder libertador da ficção

Será a ficção mais livre que a poesia? Porque há mais ficcionistas que poetas?

6 min de leitura
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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

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“Provavelmente não sou romancista;
provavelmente eu sou um ensaísta
que precisa de escrever romances
porque não sabe escrever ensaios”
– José Saramago, in Diálogos com José Saramago (1998)

A ficção, sobretudo sob forma de romance, é o género literário mais consumido mundialmente quando comparado com os outros dois géneros (poesia e drama). Outra forma de ficção que também é bastante conhecida é o conto, que costuma estar muito presente nas nossas vidas desde a nossa infância, onde ouvimos os nossos pais e avós contarem histórias sobre o mundo que nos abrange.

Neste sentido, podemos dizer que Portugal é um país com uma forte tradição no que toca a contar histórias, sendo que algumas delas derivam muitas vezes de todo um acervo folclórico e ficcional. Histórias como o “Pedro e o Lobo”, a “Maria Gancha”, o “Galo de Barcelos” são exemplos de como a narrativa ficcional consegue nos libertar daquilo que é o mundo real e entrar num mundo imaginário e aceitá-lo como algo tangível e palpável. Nesta singela reflexão, gostava de falar-lhe a si, caro Leitor, da liberdade que pode haver numa ficção.

Desde a adolescência que escrevo poesia. Fez recentemente 10 anos que escrevi o meu primeiro poema, um poema galhofeiro cheio de carolices. Decidi após esse primeiro poema que haveria de embarcar numa jornada em busca de um estilo poético que me definisse enquanto pessoa que escreve versos. O verdadeiro estilo nunca chega, visto que a escrita é moldável por todo um conjunto de insatisfações variáveis ao longo do tempo.

Apesar desta paixão pela poesia, sempre fui mais leitor de ficção, um pouco por culpa de uma longa tradição ficcionista em Portugal. Ficção vende mais que a Poesia e chega-nos através de muitos mais meios. Filmes, novelas, rádios… A Poesia chega-nos através da música. Também nos chega nos filmes, mas está sempre integrada dentro de uma estrutura ficcional.

Para além disso, a ficção parece dar-nos mais liberdade. Nesse sentido, decidi ir atrás dessa liberdade. Muitos romancistas e contistas se queixam de a prosa exigir um fio de ligação forte entre tudo o que é contado, coisa que acreditam não existir na Poesia. Devo rejeitar essa ideia. Escrever poesia também requer um forte fio de ligação e coerência entre tudo. Um poema é um produto igualmente dialético, isto é, é preciso um caminho de ideias para se construir um bom poema, sendo que as ideias se opõem naturalmente entre si. Tudo isto ocorre num texto muito breve onde o Leitor tem toda uma informação sintetizada.

Os textos ficcionais também exigem de facto coesão e coerência, mas só o facto de ser um texto bastante maior que um simples poema dá mais liberdade ao escritor para falar. Temos logo um fator adjuvante. Depois, temos nas nossas mãos toda uma liberdade de estruturação do texto conforme o efeito que queiramos causar no Leitor.

Por exemplo, temos a opção de contar uma história de uma forma reta e dentro de uma perspetiva estritamente cronológica, tal como nossos avós tendem a fazer nas histórias cheias de parábolas que nos contam no almoço de Páscoa. No entanto, podemos seguir o estilo de escritores como James Joyce e, tal como acontece em O Retrato do Artista enquanto Jovem, partir a história em vários pedaços e ordená-los em ordem irregular, levando o Leitor num caminho de curvas e retrocessos que os faz ir descobrindo novos factos que vão complementando a visão que tinham anteriormente da história (quase como num filme).

Para além disso, temos a liberdade plena de criação interação entre personagens de acordo com aquilo que queremos que o leitor sinta. Podemos fazer o mais fácil e contar uma história onde as personagens já se conhecem e fazem o caminho narrativo juntas. Podemos também colocar cada personagem a surgir apenas no momento certo de interação na história, o que não tem nada de difícil.

Não obstante, podemos fazer o mais complicado e criar personagens que agem de forma independente e se cruzam na maior parte do tempo sem interação. Isto pressupõe-nos a criação de dois enredos paralelos e independentes que apenas vão se fundir numa só história numa base mais avançada do livro. Podemos fazer também como acontece no filme As Palavras (de Brian Klugman e Lee Sternthal; estrelado por Bradley Cooper e Olivia Wilde), onde é contada uma história dentro de uma história, algo que também é muito típico no cinema.

No caso deste filme, vemos um autor a narrar uma história de um escritor que, após a fama repentina de um livro que não escreveu realmente (era um manuscrito encontrado numa mala comprada numa casa de antiguidades), se cruza com um idoso que era o verdadeiro autor da história e que lhe conta a história sobre como escreveu a história perdida. Ou seja, temos aqui três universos paralelos que se inserem uns dentro dos outros, quase como se fossem uma matrioska.

A ficção dá-nos definitivamente uma liberdade que não temos na Poesia. Se formos a fazer estatísticas, haverá seguramente muitos mais ficcionistas que poetas. Alguns ficcionistas tendem a colocar a poesia como um produto elitista feito por um conjunto restrito de iluminados. António Lobo Antunes defendia essa ideia numa entrevista mais intimista.

Por outro lado, a Ficção traz uma certa plausibilidade que a Poesia não possui. Tudo o que se conta numa história é imediatamente aceite como algo verdadeiro e inquestionável. Não se questiona algo que foi dito por alguém mais velho. Não se questiona se o Lobo não terá antes evitado comer o Pedro Mentiroso por ser intolerante à gordura animal. Parece má educação.

Ao contrário disto, tudo o que a poesia diz nunca é plausível. Não se espera veracidade da parte do poeta. O poeta é louco por inerência. Quando se diz ao Zé Manel do mercearia da esquina que o amor “é fogo que arde sem se ver”, ele vai achar que estamos malucos, porque a única realidade que ele conhece é a realidade literal onde o fogo é sempre visível. Contudo, se o Chagas Freitas escrever no seu novo romance a frase “o fogo arde”, o Zé Manel já aceita como um pensamento genial, apesar de ser algo óbvio e sem beleza artística e linguística.

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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.