19 C
Vila Nova de Famalicão
Segunda-feira, 21 Junho 2021
Partilhar
  • 418
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    418
    Shares

Sobre o estilo serguilhiano

Ao entrarmos nos textos de Luís Serguilha – poeta famalicense radicado no Brasil – a vida acontece porque sentimos que a leitura é um tempo puro que se libertou da escravatura das significações.

5 min de leitura
- Publicidade -
Sheila Mihailenko Magri
Sheila Mihailenko Magri é jornalista, escritora, comunicadora e filósofa brasileira. É doutoranda e mestre em Comunicação e Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo. É autora do livro "Porta-vozes do Capital", (2020).

Famalicão

Candidato Mário Passos manipula os milhões de Bruxelas e ilude os famalicenses

A Câmara de Famalicão captou apenas 7,9% dos 354 milhões que Bruxelas aprovou para o território do concelho nos últimos 8 anos. Mas o candidato Mário Passos (PSD-CDS) manipula os números e ilude os famalicenses dizendo que todos os milhões são devidos à ação da autarquia. O NOTÍCIAS DE FAMALICÃO apurou a verdade e revela a lista oficial dos projetos municipais aprovados em Bruxelas.

Mais enfermeiros no centro de vacinação de Famalicão

24 enfermeiros reforçam equipa no centro de vacinação até ao final de julho.

Paulo Costa é o candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal

Deputado municipal concorre à presidência da Câmara. Catarina Ferraz encabeça a lista à Assembleia Municipal.

Agostinho Fernandes quer Eduardo Oliveira a “virar a página de Famalicão”

“Servir as pessoas é a verdadeira essência da política. Estou aqui para servir os famalicenses”, enfatizou Eduardo Oliveira na apresentação do mandatário e de todos os candidatos a vereadores.
Partilhar
  • 418
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    418
    Shares

A trajetória do poeta, ensaísta e curador de arte, nascido em Vila Nova de Famalicão, é singular e amplamente notória no Brasil. Sobretudo pela sua destacada participação em conferências e palestras, ministradas para renomadas universidades de vários estados do país.

Luís Serguilha atravessou 18 estados brasileiros e criou impacto ético-estético por meio de curadorias de arte, de literatura e de psicanálise, realizadas em diversos institutos.

No ano passado, pude acompanhar alguns de seus discursos nos canais universitários e nos encontros das Raias Poéticas e do Pensamento, que mesmo diante do cenário pandêmico, conseguiram reunir mais de 120 convidados ibero-afro-americanos, durante a sua nona edição.

É importante ressaltar que notei o apoio conferido ao evento pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

Serguilha é um poeta impulsionador de pensamentos e um espírito aglutinador de seres do sensível e de signos artísticos.

 

O encontro com o genial livro “A Actriz A Actriz (o palco do esquecimento e do vazio)”, publicado pela Kotter Editorial de Curitiba, aconteceu quando assisti à ciranda de crítica literária do seu lançamento e que reuniu ensaístas, críticos, filósofos, artistas, poetas, professores, cineastas, escritores e jornalistas do Brasil, de Portugal, da Espanha e de Angola.

Vale mencionar aqui que o escritor recebeu recentemente o importantíssimo Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura no Brasil pelo seu livro Hamartia.

O estilo laharsista de Luís Serguilha tem sido pesquisado por grandes estudiosos da literatura como Ernesto Melo e Castro, Ana Maria Haddad, Éris Antonio Oliveira, Ana Lúcia de Oliveira, Luís Adriano Carlos, Fernando Castro Branco, Luísa Monteiro e Chiu Yi Chih entre outros acadêmicos de vários países.

Podemos encontrar ensaios críticos sobre as suas obras em revistas de arte e literatura (Palavra Comum, Ruído Manifesto, Acrobata, Zunai, Germina, entre outras publicações).

Saliento que a revista GuaráLinguagem e Literatura, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, produziu dois números exclusivos com críticas dedicadas às suas construções literárias-ensaísticas.

A partir da leitura destes acadêmicos-críticos compreendi que Serguilha arquiteta versos por uma composição que hibridiza palavras e conceitos da literatura, da fisiologia, da bioquímica, da arqueologia, da geologia, das artes e da filosofia.

Como pesquisadora do campo da comunicação, tenho interesse de analisar intertextualidades e ética em discursos.

Venho estabelecendo algumas aproximações entre estética e comunicação a partir de tensionamentos com conceitos do filósofo russo da linguagem, Mikhail Bakhtin.

Deste modo, levando em consideração os dialogismos em Bakhtin e a comunicação, decidi analisar os atravessamentos discursivos e intertextuais do manguezal-poema “A Actriz A Actriz”, de Luís Serguilha.

Neste sentido, por meio de uma “instrumentação cartográfica”, aliada a algumas categorias bakhtinianas, observei a trama dialógica na construção poética serguilhiana.

A ACTRIZ de Serguilha não é um ente, não é uma mulher específica e não se trata de um sujeito psicológico, ou pessoal, ou biográfico. A personagem foge de uma história linear. Ela evita a representação do “eu” e escapa à nomeação.

Trata-se de uma força-ACTRIZ poética-narrativa que não representa um personagem protagonista da vida, mas que dá expressividade aos pontos de vista da existência dentro de vigores afetivos-artísticos-corporais.

Primeiramente, notei que, mesmo a partir da irrepresentatividade da personagem-rítmica ACTRIZ, as vozes que afloram do e no manguezal-poema gestam direções múltiplas.

Percebi que o “autor-criador” de A Actriz A Actriz não escolheu por acaso o título do seu poema-mangue de 1.040 páginas.

É ACTRIZ porque o feminino é uma força estética do múltiplo e está dentro da semiótica das intensidades. Ao entrarmos em contato com os versos de “A Actriz A Actriz” sentimos que cada enunciado do manguezal-poema abre múltiplos diálogos em um microcosmo de tensões conceituais.

A voz do poeta introduz recomeços sígnicos em uma multiplicidade de variáveis. O notável é que, mesmo na histeria e no delírio, as vozes poéticas na ACTRIZ se arremessam em um labirinto para trazer à tona um discurso ético da diferença e destruindo qualquer tentativa solipsista.

Compreender o manguezal-compositivo “A Actriz A Actriz” de Luís Serguilha, segundo Bakhtin, implicaria em um gesto de leitura responsiva no qual problematizar a vida é um ato-criativo.

Nessa leitura bakhtiniana do manguezal-poema, observei uma ética-estética que, em muitos pontos, dialoga com o conceito do ato responsivo responsável do Bakhtin.

A ética “sem álibi” do filósofo russo advém na existência, no mundo da vida e em responsividade ao outro e, portanto, à potência da alteridade.

Deste modo, ao lermos os acontecimentos no poema- manguezal de Serguilha, a ACTRIZ torna-se uma personagem conceitual ética e jamais moral.

Actriz é uma “palavra-laharsista” em estado de transmutações permanentes. A partir de seu estilo, Serguilha detona nos territórios uma linguagem cataclísmica que, tal como o lahar javanês, agrega uma avalanche vulcânica de sentidos.

O seu poder erosivo-afetivo recorta a superfície das páginas. Serguilha constrói imagens poéticas vigorosas extrapolando limites por meio de dobras do transbarroco.

O poeta ativa cenas em movimentos textuais dotados de uma crueldade-delicada do pensamento sobre o corpo-artista.

A singularíssima “máquina de guerra laharsista” de Serguilha vai mobilizando uma multiplicidade de “palavras-signos”, recombina-as, deformando seus sentidos e desarticulando estruturas rígidas de discursos morais a partir da combinação criativa de imagens afetantes.

O ritmo se torna uma força volitiva do “autor-criador” que compõe a trama da arte por meio do acontecimento que intensifica a vida.

O ato estético cria o ritmo na trama. Este movimento só poderá ser feito pelo “autor-criador” a partir de um “gesto amoroso”, segundo aponta Bakhtin.

Em Serguilha, nos confrontamos com novas palavras, novas linguagens e novos dicionários afetivos. Deste modo, Serguilha é um poeta-onomaturgo. É criador de uma marchetaria intertextual afetivo-volitiva. Os diálogos no manguezal-discursivo dos versos de “A Actriz A Actriz” mergulham no encontro turbilhonar do inédito.

O poeta reconstrói palavras e conceitos por meio de novos sentidos, de uma correnteza intrassígnica complexa, rompendo completamente com a normatividade.

É verificável a musicalidade ritornélica, as polifonias, os coros gregos e a voz misturada dos trovadores nos seus textos. A ACTRIZ grita o verbo “ser-porvir-acontecer” como um refrão improvisata e não como uma definição propositiva.

Como dizem os ensaístas, críticos literários e filósofos, ler um poema serguilhiano é mergulhar no mundo paradoxal, é ser forçada a pensar o impensável. Serguilha leva-nos para outras geografias, outras ciências, outros mundos.

Ele