A nossa memória é tão curta: o apagão que acendeu Portugal

Às vezes, o que é precioso não é o que conquistamos lá fora, mas aquilo que recuperamos cá dentro.

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Há dias que passam despercebidos e há outros que, sem alarde, nos obrigam a olhar para dentro. Portugal viveu um desses dias. Não houve notícias, debates inflamados ou alertas públicos. Apenas um silêncio fundo, quase impercetível, que atravessou o país como um aviso discreto: estamos a viver depressa demais para verdadeiramente existir.

A história podia começar em qualquer lugar — e é precisamente por isso que diz tanto. Numa casa igual às que iluminam as ruas ao entardecer, uma família avançava no quotidiano como tantas outras: um pai consumido pelas exigências de um mundo que não abranda, uma mãe que segurava a rotina com mais força do que aquela que possuía, duas crianças a crescer entre estímulos constantes e abraços adiados.

Havia amor, claro. Mas amar não basta quando se vive permanentemente atrasado de si próprio — quando o corpo chega e a alma, desorientada, vem atrás.

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E então, ao cair da noite, deu-se o inesperado: faltou a luz.

O bairro mergulhou num silêncio limpo, profundo, quase ritual. A televisão emudeceu, os telemóveis renderam-se, o ritmo automático suspendeu-se. E, nessa ausência de ruído, algo simples — e absolutamente raro — aconteceu: a família sentou-se junta, sem distrações, sem urgências, sem a fuga fácil dos ecrãs que tantas vezes funcionam como paredes invisíveis.

Primeiro, estranharam o vazio, como quem entra num quarto esquecido da própria casa. Depois, respiraram. Finalmente, encontraram-se — não por acaso, mas porque já precisavam disso há demasiado tempo.

O pai falou de memórias antigas: do avô que cantava fado com a alma inteira, como se cada nota fosse uma oração. A mãe recordou os dias lentos da infância, quando bastava um quintal, um poço e uma laranjeira para caber o mundo. As crianças, fascinadas, descobriram histórias que não vivem em aplicações e que não cabem em vídeos de segundos.

Não houve revelações ruidosas. Houve, apenas, verdade — clara, íntima, inteira. A verdade que só aparece quando o barulho se cala e o coração tem espaço para ser ouvido.

Nesse breve intervalo sem eletricidade, aquilo que os meses — ou anos — tinham soterrado regressou à superfície: a necessidade profunda de estarmos uns com os outros, a urgência de parar, a fome de diálogo, a saudade de pertença que quase deixáramos de saber nomear.

Aquele apagão tornou-se revelação: o essencial só se mostra quando o acessório se cala.

E esta pequena história é um espelho do país.

Portugal não enfrenta apenas dificuldades económicas ou políticas. Enfrenta uma crise silenciosa: a crise da presença, da atenção, da alma. Somos um povo generoso, mas exausto; conversador, mas disperso; afetivo, mas fragmentado. Temos casas cheias e vínculos vazios. Conversas constantes e diálogos raros. Possuímos tudo para sermos felizes — exceto o tempo emocional para o ser.

A urgência não é fazermos mais. A urgência é sentirmos melhor.

O que aconteceu naquela casa — e em tantas outras, mesmo que a história nunca seja contada — é um aviso discreto, quase sussurrado: o país não está a falhar. Somos nós que deixámos de nos ouvir — e, pior ainda, deixámos de nos reconhecer.

Nessa noite, quando a luz regressou, nada ficou exatamente igual. A casa recuperou o brilho habitual, mas algo ali tinha mudado: um entendimento novo, uma promessa silenciosa, uma espécie de pacto íntimo.

E talvez seja exatamente isso que Portugal esteja a precisar: uma pausa verdadeira, um silêncio firme, um momento em que o barulho se rende — e a vida fala com mais nitidez do que todas as notícias juntas.

Porque a luz que voltou nessa casa não vinha da eletricidade. Vinha deles.

E é talvez essa a única luz capaz de iluminar o país: a que nasce, sem ruído, dentro de cada um de nós. A que se acende quando paramos o suficiente para ver quem temos à frente. A que resiste aos apagões, às pressas, aos medos e aos dias iguais. A que nos recorda que, mesmo exaustos, continuamos profundamente capazes de nos reencontrar.

Talvez o túnel ainda seja longo. Mas não está escuro. Há pedaços de luz — pequenos, humildes, decisivos — a surgir onde menos esperamos.

E há, no meio de tudo isto, algo precioso para cada um de nós: a consciência de que não precisamos de mudar o país inteiro para mudar alguma coisa. Basta mudarmos um instante — um gesto, um silêncio, uma escuta verdadeira — e o mundo à nossa volta começa, subtilmente, a transformar-se.

Às vezes, o que é precioso não é o que conquistamos lá fora, mas aquilo que recuperamos cá dentro. Quando acendemos a nossa própria luz, por pequena que seja, iluminamos mais do que pensamos.

E talvez seja esse, afinal, o verdadeiro apagão que Portugal precisava: aquele que nos devolve a possibilidade — e a responsabilidade — de acender a nossa própria claridade.

 

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