Dar cavacas por pedras

Pois Famalicão vai ter um hotel! As almas iluminam-se por tão pouco, não é verdade? Até porque hotéis já temos alguns, não muitos, é certo, e a concorrência nunca é demais, já convirá dizer. Mas porquê tratar isto – a instalação de um novo hotel em Famalicão – como algo merecedor de apoios municipais, com a sempre esperada classificação de investimento de interesse público municipal?

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Entendamo-nos. A mim o que me impressiona não é tanto que a cadeia Meliá decida investir em Famalicão. Boa coisa, sem dúvida. O investimento de 17 Mi€ é bem-vindo, como será bem-vinda a qualificação da (parca) oferta hoteleira que o concelho apresenta. Quiçá até, e isto já sou só eu a dizer, a cidade e o concelho possam vir a colher frutos de um certo impacto promocional que necessariamente advém da integração numa cadeia internacional de hotelaria – trazendo para Famalicão hóspedes que doutra forma nunca viriam para cá.

Está tudo certo.

Convém é não perder o sentido das proporções, e se não fosse pedir muito. É que, falando só de grandes unidades, o hotel é mais um em dezenas (não exagero) que enxameiam a nossa região norte, e mais propriamente o seu eixo litoral mais dinâmico, aquele corredor que se estende de Espinho até Viana do Castelo. Onde nós estamos, claro está.

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E pois então. Se andamos estes anos todos sem que nenhum destes operadores se atraísse por Famalicão, certamente que não foi por falta de oportunidade. Ficavam-se pelo Porto, pela Póvoa, por Braga e Guimarães, por Viana do Castelo. Isto porquê? Como em quase tudo, quero crer que a explicação é a mais simples de todas. Sucedeu que a malha de oferta hoteleira foi sempre preferindo concelhos e cidades mais próximos do mar, e/ou com uma vertente turística mais acentuada, e/ou com outra capacidade (que Famalicão não teve ou não tem) de atrair massas críticas em torno das suas forças competitivas: a universidade, a máquina administrativa do Estado, a igreja.

Este investimento já tinha sido anunciado em 2019… […] e agora a câmara comunica a novidade com a pompa e a circunstância do costume.

É o que é. E continua tudo certo. Chegados aqui, o que se pode dizer é que ainda bem que uma destas cadeias internacionais finalmente virou a sua atenção para Famalicão. Mas isto é só a economia de mercado a funcionar. Dizer mais o quê, chegou a nossa vez.

Ora bem. O que já me custa perceber é essa vertigem em que repetidamente caem os poderes locais diante dos interesses económicos mais discricionários. As câmaras municipais, em particular: porque carga d’água atribuem benefícios fiscais a investimentos de todo em todo corriqueiros?

Ainda há umas poucas de semanas a maioria camarária reprovou a proposta de redução da taxa do IMI para a taxa mínima.

Vejamos. A câmara municipal de Famalicão acaba de aprovar a atribuição de Interesse Público Municipal (mais um) a um hotel. Pergunta-se: acaso um hotel será, por si só, um equipamento infraestruturante de um território? Altera o padrão de desenvolvimento do tecido social em que se insere? Introduz factores de competitividade que fomentam a inovação, o emprego qualificado, a economia criativa? Diria que não.

Até porque não bate a cara com a careta: às 2as, 4as e 6as somos o terceiro concelho mais exportador do país. Às 3as, 5as e sábados uma força motriz do desenvolvimento industrial da região norte. Mas aos domingos pagamos a uma multinacional para que se digne escolher-nos para implantar cá um hotel. Um hotel como tantos outros que já têm cá em Portugal. Mas nós agradecemos, de chapéu na mão, pela caridade que nos fazem.

Qual é a contrapartida para tanta consideração?

[a consideração que falta para a sala de espera da urgência do hospital, que mete água quando chove; ou para as gentes de Ribeirão que sofreram as cheias de novembro, e a quem a câmara recusou o auxílio de um fundo de emergência]

Neste caso concreto, argumenta a câmara que serão criados 37 postos de trabalho. Não é lá muito impressionante, pois não? E que postos! Imagino, cozinheiros, camareiros, barmen e outros que tais. Profissões estimáveis, mas não propriamente a última coca-cola do deserto. Por certo, um propósito que, de per si, não justifica a mobilização de recursos públicos. Então, porque é que se atribuem a redução de taxas de licenciamento e de taxas de IMI por cinco anos a um investidor tão ou tão pouco abonado que se propõe investir 17 Mi€? Não as pode pagar? Mas nós, cidadãos comuns, podemos?

No final das contas, um hotel é um hotel. Não é a fábrica da Tesla. Não é ciência espacial.

Custa a perceber o desvelo camarário, mas não quer isso dizer que seja de todo incompreensível. Desconfio até que sei qual é o motivo. E aqui já começamos a ter um problema. É que o motivo, não sendo bom, nem sequer fica perto de ser bom. Digo eu: é a extrema parolice que sempre preside a estas decisões.

Permitam-me concretizar com um exemplo prático. Já repararam como os jogadores de futebol, os influenciadores, os atores de novela, as figuras públicas e publicadas, nunca investem (quando investem) na “indústria”? São sempre restaurantes, hotéis, spa, clínicas e afins. E dentro destes: têm de ser sempre restaurantes chiques, hotéis de luxo, clínicas de estética. Vieram do “povo” (quase sempre), mas na primeira oportunidade fogem dele como da sarna. A chamada mete-nojice dos novos-ricos. Dispenso.

É a sociedade que alimenta isto: as figuras gradas do sucesso fácil escolhem a via rápida do reconhecimento social. E o protagonismo reproduz estes modelos formatados que lhes garantem a visibilidade. Torna-se vicioso.

Isto para dizer que o hotel, mais a mais um hotel vistoso e “trendy”, é um investimento “sexy”. A hotelaria é “sexy”, muito mais do que as metalomecânicas, as confeções, as oficinas e as fábricas que fizeram e fazem a relativa prosperidade de Famalicão. Mas essas pagam IMI. Como nós, vulgares cidadãos contribuintes, pagamos IMI. Paga o Zé e paga o Manel. Quem não paga IMI é este hotel – já agora, os seus concorrentes cá da terra também pagam IMI, certo? E quem mandou não serem “sexy”?

Ainda há umas poucas de semanas a maioria camarária reprovou a proposta de redução da taxa do IMI para a taxa mínima, tão preocupados eles estão com a ‘pesadíssima’ carga fiscal que assola o país. Mas acabamos de sair de eleições, logo está tudo bem. Os eleitores falaram e foi para dizer que estão contentes do jeito que isto vai: é assim porque querem que seja assim.

Agora, num território já plenamente disseminado de indústrias, pedir-se-ia um módico de exigência, não? Subirmos ao nível seguinte, que tal soa como ideia? Não se trata de acenar com a Califórnia: a Maia fez isso, e já há muitos anos. Quiseram certas indústrias, só as de maior valor acrescentado, não todas. A essas outras que não interessavam deixaram-nas para outros concelhos, vale adivinhar quais?

Pois de nós, tantos anos volvidos, fica a ideia de que continuamos a andar ao papel. Ou seja, topamos tudo e ao mesmo tempo. E o que é pior: damos cavacas por pedras.

O “MadeIn” devia servir para fazer a diferença na capacitação de pequenos empreendedores e, noutro plano, na captação de grandes investimentos infraestruturantes, disruptivos e inovadores.

E aqui entra o “MadeIn”. Na origem é uma ideia boa, pese embora o pecado original da sua total instrumentalização para fins de promoção política (não pensem que não reparamos)…

[veja-se como, aqui há uns meses, por ocasião do aniversário, atiraram para uma comunicação social acrítica e basbaque uns números estratosféricos de empregos criados, empresas apoiadas, fundos atribuídos. Não discuto o papel meritório que estes serviços de apoio técnico podem ter e certamente terão na promoção do empreendedorismo. Mas põem sempre a coisa como se nada disso – os empregos, as empresas – pudesse chegar a existir sem a intervenção dramática do gabinete de apoio. E convenientemente omitem-se os casos falhados, que também os há: as empresas que fecharam passado pouco tempo, os empregos perdidos… é uma chatice!]

Será que, se os tais concorrentes locais do Meliá – que até pagam IMI e tudo – vierem a fechar portas, o MadeIn vai contabilizar as “perdas” da mesma forma tonitruante com que celebra os “ganhos”?

Pois é. O “MadeIn” devia servir para fazer a diferença na capacitação de pequenos empreendedores e, noutro plano, na captação de grandes investimentos infraestruturantes, disruptivos e inovadores. Devia pugnar pelo apoio a projectos selecionados mediante um critério técnico sério e exigente. E já que se usam fundos públicos, pensando sempre no potencial de retorno que trarão à comunidade. Ao invés, usa-se para isto: atribuir incentivos a quem deles não precisa, não aporta valor qualificado e nem sequer decide o investimento em função disso. Ou alguém acha que o Meliá decidiu investir em Famalicão porque lhe isentaram o IMI por cinco anos?

Não deve ser o caso, este investimento já tinha sido anunciado em 2019… andaram seis anos para se decidir, e agora a câmara comunica a novidade com a pompa e a circunstância do costume. Faz parte…

Mas fica bem. Quer dizer: o vórtice de notícias, a cerimónia de corta-fitas (com descerramento de placa evocativa), e tudo, e tudo, e tudo. Melhor do que o som do martelo pneumático a furar os tímpanos será de certeza.

Não é de hoje, o português sempre gostou de armar ao pingarelho. Já era assim no tempo dos Jerónimos. Façamos então de conta que não reparamos no vício de forma. É sorrir e acenar, rapaziada. É sorrir e acenar.

 

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