A continuar assim, isto vai tudo por água abaixo

Tudo passou a tramitar no silêncio dos corredores dos Paços e nas profundezas do site do Município. E isso, pode servir a muita gente, mas não serve o interesse da gente de Famalicão.

Comentários

3 min de leitura

“Vão investir mais a tentar corrigir este sistema que falha?
Podem duplicar o investimento,
mas será sempre um montante gigantesco e irá falhar outra vez.”
Kongjian Yu, arquiteto paisagista – criador do conceito de “cidades-esponja”.

 

Na última Assembleia Municipal, o executivo, confrontado com as críticas do PS sobre os erros de planeamento que terão, senão originado, pelo menos exponenciado o efeito das cheias em Ribeirão, no passado 15 de novembro de 2025, rejeitou de forma categórica tal relação.

- Publicidade -

Nesse dia de novembro, a depressão Cláudia atravessou o concelho de Famalicão e foram registadas mais de 100 ocorrências pela Proteção Civil Municipal. Uma dessas ocorrências aconteceu em Lagarinhos, levando à destruição de uma parte da ciclovia. Esse momento foi registado nas redes sociais pelo PAN:

Lagarinhos é um lugar da freguesia de Brufe. Faz fronteira com o Louro, no lugar de Barradas. Por aqui passa a ciclovia Famalicão – Póvoa de Varzim

Para o tema, convém lembrar que aquele canal acomodou, originalmente, a linha de caminho de ferro. A sua construção data do último quartel do século XIX. Tendo, assim, mais de 150 anos.

Durante estes 150 anos, não tenho conhecimento de ter havido algum acontecimento com aquela gravidade.

No local do incidente, a ciclovia passa por cima de uma pequena linha de água. Em tempos, relativamente recentes, essa linha de água corria livre num vale e formava duas pequenas “poças” de água, uma antes e outra depois do atravessamento da ciclovia. Ao longo dos últimos anos este vale foi sendo aterrado e a linha de água, segundo sei, corria num pequeno tubo 2m abaixo da cota da ciclovia.

Tive a oportunidade de ver aquele pequeno vale a desaparecer. Assim, quando me contaram que, num buraco lá existente, todo a terra depositada desaparecia, isso pareceu-me fazer sentido. Era a água a levar aquilo que estava a mais naquele sítio.

Acresce ao caso que, nesse terreno, há alguns meses aconteceram grandes movimentações de terras para dar lugar a mais uma urbanização. É neste ponto que peço a sua atenção. Esta operação urbanística é suportada por uma Unidade de Execução UOPG (Unidade Operativa de Planeamento e Gestão). E esta UOPG, com o n.º 1.16 e com o nome “Lagarinhos”, foi submetida a discussão pública, durante o período de 05 de novembro até 03 de dezembro.

Fonte: Google Maps

Ora, é aqui que as coisas passam a não fazer sentido. Para quê discutir uma operação urbanística se ela já está em curso? Foi precipitação do empreiteiro? Agilização administrativa? As duas juntas e mais alguma coisa? E quem fiscaliza? Quem faz cumprir as regras?

Para além disso, as discussões públicas das Unidades de Execução de UOPG, depois das duas polémicas das Unidade de Execução do Palácio da Justiça (Tribunal) e da área norte da cidade (entre o Hospital e a E.N. 206 Póvoa de Varzim), deixaram de ser publicitadas e deixou de haver sessões de esclarecimento abertas ao público.

Tudo passou a tramitar no silêncio dos corredores dos Paços e nas profundezas do site do Município. E isso, pode servir a muita gente, mas não serve o interesse da gente de Famalicão.

Veio-me à cabeça esta imagem, uma criança traquina dá-nos um tempo de silêncio, de vazio… Por regra, isto é o prelúdio de uma grande asneira. Espero que nos Paços não fiquem aborrecidos, isto é só uma metáfora.

Eu gostaria de ter participado. Lamento, nem sempre estou atento. Mas tenho vontade e com um pouco de esforço, da parte do Município, talvez pudesse ajudar a combater o défice de participação cidadã.

Partilharia esta ideia simples, que faz caminho nalgumas cidades deste mundo, porque não aplicar o conceito de cidade esponja? E o que é a cidade esponja?

Trata-se de uma metodologia que se inspira na natureza para gerir a relação da água com a cidade. A esponja é o solo. O solo tem uma grande capacidade de reter a água e libertá-la a um ritmo muito mais lento, quando comparada com a sua canalização e condução em canais de betão, que desaguam diretamente e sobrecarregam os rios e ribeiros. Resultando daqui cheias, mais rápidas, mais frequente e de maior dimensão.

https://www.publico.pt/2024/06/10/azul/noticia/kongjian-yu-quer-transformar-cidades-esponjas-solucao-cheias-secas-2093378

Ok… depois disto, por favor, olhem à vossa volta.

Por cá, não continuamos a entubar ribeiras e linhas de água, impermeabilizar, destruir floresta, aterrar vales e criar barreiras à passagem da água?

É isso!

Já agora, este janeiro está a ser durinho! Verdade? Ele é “Ingrid”, “Joseph”, “Kristin”, e o que mais virá deste Atlântico zangado?

Dizem que nas próximas décadas isto vai ficar muito pior. Mas é o que dizem…

 

____________________

Os artigos de opinião publicados no NOTÍCIAS DE FAMALICÃO são de exclusiva responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

Comentários

Notícia anterior

“As Imagens que nos Olham” realçam a fotografia do artista Fernando Lemos

Notícia seguinte

Democracia ou Populismo: o dilema presidencial

- Publicidade -
O conteúdo de Notícias de Famalicão está protegido.