Caminhos de Santiago

Uma paixão que vai muito além do caminhar

Comentários

4 min de leitura

Há paixões que não se explicam facilmente. Vivem-se. A dos Caminhos de Santiago é uma delas. Quem nunca os percorreu pode pensar que se trata apenas de caminhar durante dias, carregar uma mochila às costas e chegar a Santiago de Compostela para visitar a Catedral, abraçar o Santo e obter a Compostela — o certificado que comprova a peregrinação. Quem já os viveu sabe que isso é apenas a superfície.

Ao longo dos anos, percorri vários Caminhos de Santiago — Português (Central e pela Costa), Francês, Inglês, Primitivo, Via de la Plata, Norte, El Salvador, Variante Espiritual, Finisterra — alguns deles mais do que uma vez. E não foi por acaso, mas porque cada caminho, cada repetição, trouxe experiências novas, pessoas diferentes, desafios inesperados e aprendizagens que continuam a ecoar muito depois de tirar as botas.

Os Caminhos são, antes de tudo, um espaço de encontro. Encontro com a história, com a cultura e com a paisagem, mas sobretudo com pessoas. Rostos de todas as idades, nacionalidades e crenças cruzam-se diariamente. Há quem caminhe por fé, por luto, por celebração, por desporto, para fazer companhia, por mudança de vida ou simplesmente por curiosidade. Pela experiência que tenho, quase poderia afirmar que todos repetirão a “aventura”, porque como dizia, há muitos anos atrás, um anúncio publicitário: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” Histórias de vida partilhadas em poucos quilómetros, num albergue, à mesa de um jantar simples ou durante uma etapa em silêncio, sim em silêncio porque muitas vezes os silêncios dizem mais que mil palavras. Muitas dessas conversas, partilhadas sem qualquer interesse ou julgamento, duram apenas alguns minutos, outras horas, outras um ou vários dias; outras transformam-se em amizades que ficam para sempre.

- Publicidade -

Caminhar dias seguidos é também um exercício de humildade. O corpo fala — às vezes através de bolhas, dores ou cansaço extremo — e obriga-nos a escutar. A meteorologia ensina o desapego: chuva persistente, vento forte, neve e frio inesperados ou calor intenso fazem parte do Caminho tanto quanto as setas amarelas. Aprende-se rapidamente que não controlamos tudo. E isso, curiosamente, liberta.

Há ainda uma dimensão cultural e patrimonial única. Igrejas românicas esquecidas, pontes medievais, aldeias que parecem suspensas no tempo, tradições locais preservadas pela passagem constante de peregrinos. O Caminho não é um museu estático — é um organismo vivo, moldado há séculos por quem passa e por quem acolhe.

A componente espiritual, mesmo para quem não se considera religioso, acaba quase sempre por surgir. Não necessariamente ligada à fé tradicional, mas a um espaço interior de reflexão. O ritmo repetitivo dos passos cria silêncio. E no silêncio surgem perguntas, respostas e decisões. O Caminho tem essa estranha capacidade de nos despir do supérfluo e de nos confrontar com o básico, com o essencial.

Foi também nesse espaço de reflexão que, em 2021, vivi uma das experiências mais impactantes de todo o meu percurso como peregrino. Nesse ano, percorri o Caminho Francês durante 33 dias consecutivos de forma solidária, através de um projeto que idealizei e concretizei: “No Caminho pela ATC”. O objetivo era angariar fundos suficientes para a aquisição de camas articuladas e elétricas para a Residência ATC, que fariam toda a diferença no conforto e qualidade de vida dos nossos idosos, mas também na melhoria das condições de trabalho de todos os colaboradores. O Caminho, porém, mostrou mais uma vez que quando se caminha com propósito, o resultado pode ir muito além do esperado. No final, conseguimos angariar mais do que o nosso objetivo, permitindo não só a aquisição das camas como respetivos colchões, mas também a colocação de televisões em todos os quartos e a compra de material geriátrico essencial. Caminhar sabendo que cada passo podia contribuir para melhorar a vida de outros deu um significado ainda mais profundo a cada momento, a cada quilómetro, a cada etapa.

É precisamente por reconhecer este poder transformador — pessoal e coletivo — que, paralelamente ao meu percurso como peregrino, continuo a organizar Caminhos de Santiago para grupos, bem como outros trilhos e caminhadas. Não como produtos turísticos apressados, mas como experiências conscientes, onde o prazer de caminhar anda de mãos dadas com o respeito pela natureza, pelas comunidades locais e pelo ritmo humano.

Caminhar em grupo, quando bem orientado, acrescenta uma camada extra de riqueza. A partilha, a entreajuda, o apoio nos momentos difíceis, o riso no final de um dia exigente. Criam-se laços improváveis entre pessoas que, fora do Caminho, talvez nunca se tivessem cruzado. E isso é profundamente humano e merece a minha homenagem e agradecimento a todos os grupos dos quais fiz e faço parte.

Num tempo em que tudo parece acelerado, os Caminhos de Santiago lembram-nos que ir devagar não é um atraso — é uma escolha. Que chegar não é mais importante do que caminhar. E que, às vezes, basta seguir uma seta amarela para reencontrar algo que julgávamos perdido.

Talvez seja por isso que tantos peregrinos regressam, que tantos grupos continuam a aceitar o convite silencioso de trilhar os Caminhos de Santiago e outros percursos pedestres. Talvez seja por isso que esta vontade de não parar nunca, encontra sempre razões para continuar, e que esta paixão permanece viva, inquieta, luminosa. Não para repetir o mesmo caminho, mas para escutar um caminho sempre novo. Porque o Caminho transforma-se a cada passo — e, com ele, transformamo-nos também nós.

 

____________________

Os artigos de opinião publicados no NOTÍCIAS DE FAMALICÃO são de exclusiva responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

Comentários

Notícia anterior

CIOR promove workshop sobre maquinação de alta performance na indústria metalomecânica

Notícia seguinte

Vila Nova de Oportunidades

- Publicidade -
O conteúdo de Notícias de Famalicão está protegido.