O sonho adiado da Vó

Há sonhos que não pedem riqueza, viagens ou grandes conquistas. Pedem apenas tempo. Tempo para amar, para estar, para cuidar dos nossos. Foi esse o sonho da Vó. Até que uma doença entrou pela porta de casa e mudou o significado de cada minuto.

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A Vó é uma romântica. Daquelas pessoas que acreditam que o amor não vive apenas nas grandes declarações. Vive nas pequenas coisas. Num café preparado de manhã. Numa mão que procura outra debaixo da mesa. Numa preocupação que parece insignificante. Num “já chegaste?” dito ao telefone. Num silêncio partilhado ao fim do dia. Apaixonou-se muito jovem pelo homem que haveria de ser o amor da sua vida e com quem construiu uma família. Chegaram dois filhos, vieram anos de trabalho para garantir estudos e qualidade de vida aos seus, vieram responsabilidades, alegrias e muitos sacrifícios. Chegaram depois os netos e toda a alegria e responsabilidade que esta chegada acarreta.

A Vó trabalhou toda a vida. Cuidou dos outros tantas vezes antes de cuidar de si. Foi resiliente, meiga, cuidadosa, amorosa, paciente, honesta, responsável e tolerante. Foi o que tantas mulheres são sem que ninguém lhes entregue uma medalha por isso: o colo quando era preciso colo, a força quando faltava força, a presença quando alguém precisava de alguém. Mas o desejo era que chegasse a reforma, para finalmente viver de outra forma: ter tempo de qualidade para si e para os seus. Este era o sonho da Vó que preparou com entusiasmo e com tudo devidamente organizado, garantindo que nessa nova etapa realizaria o seu sonho.

Tempos depois chegou a notícia menos desejada. Problema oncológico. Duas palavras com o enorme poder de silenciar o som de uma casa inteira. A partir desse momento, o calendário já não marca aniversários, festas ou almoços familiares. Passou a ser feito de consultas, exames, tratamentos e idas ao hospital. Chegaram as dúvidas, as dores, as esperas, a ansiedade e os tratamentos que deixam marcas ao paciente e à família quer no corpo quer na alma. Chegou o sofrimento invisível e não contabilizado de quem está ao lado, de quem ama e de quem cuida. Não são os sintomas da doença que afetam os familiares, mas sim a espera.

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A espera por uma consulta, por uma notícia, por uma melhoria, por um telefonema que nos diga: “está tudo bem”, sempre com o desejo que quem amam não sofra. A doença oncológica não é apenas uma realidade médica, mas também uma realidade familiar, social, económica e emocional.

Estima-se que em Portugal sejam mais de 60.000 doentes diagnosticados com problemas oncológicos, lembrando-nos que além do doente existe uma família, existem sonhos, existem planos e rotinas que se adiam ou se cancelam. A ansiedade, o medo, a incerteza e a tristeza invadem silenciosamente doentes e familiares, provocando sofrimento tão significativo e que nenhuma estatística consegue medir.

A Vó tem uma questão em mente: “E se amanhã for pior?”. O medo da resposta, quando o sonho de ter tempo de qualidade pode passar para tempo em hospitais, tempo em tratamentos, tempo de dor e uma doença que altera o tempo e transforma sonhos. Talvez uma das maiores crueldades da doença seja que, não rouba apenas a saúde, mas a forma como imaginamos o futuro.

A reforma deveria permitir passeios, almoços em família, momentos de felicidade ao brincar com os netos, aniversários demorados e dias com saúde para gozar a reforma. Com a doença tudo muda e toda esta mudança transforma-se numa batalha diária contra o medo, provocando questões que dificilmente encontram respostas.

Na mente dos familiares e doentes surgem questões como: “Onde está a justiça divina quando a vida parece escolher precisamente o momento errado para nos tirar aquilo que mais desejávamos? Onde está a justiça quando passamos uma vida a cuidar e, quando chegou o momento de descansar, recebemos uma doença como companhia? Onde está a justiça quando duas pessoas que apenas querem envelhecer juntas são obrigadas a aprender uma nova linguagem feita de hospitais, tratamentos e incertezas?

Eu não sei responder e creio que ninguém saiba. E talvez seja desonesto tentar encontrar uma explicação bonita para aquilo que, muitas vezes, é simplesmente doloroso. A Vó não merecia tamanha dor, mas, tal como a história da Vó nos lembra, o amor é uma forma de resistência: está na mão que segura outra mão, está na pessoa que acompanha à consulta, está no café que prepara de manhã, está na espera, na paciência, na lágrima limpa antes de entrar no quarto, na coragem de sorrir quando o coração está invadido pelo medo e pela dor, está na presença em todos os momentos e nos silêncios que não necessitam de palavras.

A doença pode alterar o tempo, alterar planos e transformar sonhos em esperas, mas não conseguirá apagar uma vida construída em conjunto. Não conseguirá apagar os filhos e netos. Não conseguirá apagar os anos de partilha, de construção, de amor. Não conseguirá apagar a história de amor da Vó.

Parece-me importante e pertinente falarmos dos doentes e desta doença que provoca tanta dor em milhares, senão milhões de pessoas, mas também das famílias, dos cuidadores que, silenciosamente, sofrem, mas continuam a ser fortes porque há alguém a precisar deles. Porque quando falamos de cancro, não falamos apenas de células, diagnósticos e tratamentos, mas de vidas, de famílias, de sonhos e de tempo.

E o tempo, esse bem tão precioso que passamos grande parte da vida a desperdiçar, só revela verdadeiramente o seu valor quando percebemos que pode deixar de ser garantido. A Vó só queria tempo para estar com quem mais ama. E talvez seja essa a parte mais bonita e mais triste da sua história, porque ela continua a lá estar, continua a cuidar, continua a amar, mesmo quando a vida lhe deu razões para chorar.

E talvez, no meio de toda esta dor, exista uma pequena certeza: enquanto houver tempo para segurar uma mão, dizer “amo-te”, abraçar, acompanhar e estar presente, ainda há uma forma de vencer o silêncio que a doença tenta impor.

Não podemos escolher todos os dias o que a vida nos dá, mas podemos escolher como os vivemos. E, sobretudo, podemos escolher quem queremos ter ao nosso lado enquanto os vivemos.

Que nunca nos falte tempo para os nossos.

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