Há uma discussão que se tornou inevitável em Portugal: os jovens têm cada vez mais dificuldade em comprar casa. Falamos, e bem, do preço das habitações, das rendas, dos juros, da falta de oferta e dos salários. São problemas reais e que exigem respostas. Mas talvez estejamos a olhar para esta questão demasiado tarde, quando o jovem já chegou ao banco e descobriu que, apesar de trabalhar, dificilmente consegue reunir as condições necessárias para comprar uma casa.
A casa começa muito antes da escritura.
Começa na educação, na idade a que entramos no mercado de trabalho, na experiência que acumulamos e, sobretudo, na capacidade que damos aos jovens para começarem a construir a sua própria autonomia económica. Quando olhamos para alguns países europeus, encontramos uma realidade diferente da portuguesa.
Nos Países Baixos, por exemplo, é bastante comum os jovens conciliarem estudos e trabalho. Em 2025, quase metade dos jovens entre os 18 e os 24 anos conciliava educação e emprego, enquanto em Portugal esta realidade é bastante menos frequente. Também no PISA 2022, apenas 22% dos estudantes portugueses declaravam ter um trabalho fora do horário escolar, contra 77% nos Países Baixos.
Naturalmente, não devemos copiar modelos de outros países sem considerar a nossa realidade. Mas estes números merecem reflexão. Talvez não porque os jovens portugueses devam trabalhar mais, mas porque podemos criar condições para que comecem a experimentar o mundo do trabalho mais cedo, de forma responsável e compatível com os estudos.
Não estou a falar de colocar crianças a trabalhar, nem de substituir a educação pelo emprego. Estou a falar de criar, a partir de determinada idade, oportunidades para uma primeira experiência profissional, algumas horas por semana ou durante as férias, com regras claras, proteção adequada e sem comprometer a formação.
Um jovem de 17 anos que trabalha algumas horas num supermercado não vai comprar uma casa com esse rendimento. Mas pode começar a poupar, aprender o que significa cumprir horários, assumir responsabilidades, lidar com clientes, trabalhar em equipa e receber dinheiro pelo próprio esforço.
Pode também descobrir aquilo de que gosta e, talvez igualmente importante, aquilo de que não gosta. Quando chegar aos 20 ou 21 anos, poderá ter não apenas uma formação, mas também experiência profissional. A própria OCDE reconhece que uma experiência profissional moderada durante a adolescência pode contribuir para desenvolver competências e facilitar a transição para o mercado de trabalho, desde que não prejudique a educação.
Talvez a questão não seja trabalhar mais. Seja começar a experimentar mais cedo.
E aqui surge também uma oportunidade para as empresas. Portugal tem sectores onde é difícil encontrar pessoas, desde o comércio e restauração à hotelaria, logística, distribuição e indústria. Ao mesmo tempo, existem períodos do dia, da semana ou do ano em que estas empresas precisam de reforçar as suas equipas. Uma ligação mais próxima entre jovens e empresas poderia transformar parte desta necessidade numa oportunidade de formação. Um supermercado poderia proporcionar uma primeira experiência; uma empresa logística poderia mostrar como funciona uma operação; uma fábrica poderia aproximar um jovem da produção, da qualidade, da manutenção ou da tecnologia. E aquela primeira experiência, aparentemente simples, pode tornar-se o início de uma carreira. Para as empresas, pode ter como significado começar a conhecer e desenvolver talento antes de precisar dele.
Naturalmente, existe uma condição essencial: esta relação não pode transformar os jovens em mão de obra barata. Se queremos responsabilidade dos jovens, temos também de exigir responsabilidade às empresas. Trabalho protegido, horários compatíveis com os estudos, segurança, formação e remuneração justa devem fazer parte deste modelo.
A questão não é apenas económica. É também social. Em 2025, os jovens portugueses saíram de casa dos pais, em média, aos 28,8 anos, enquanto a média da União Europeia foi de 26,3 anos. Nos Países Baixos foi de 26,2 anos e na Dinamarca de 21,8. Estes números não significam que sair mais cedo de casa seja necessariamente melhor, mas mostram que, em Portugal, a transição para a vida adulta acontece mais tarde.
Talvez devêssemos criar condições para que essa transição pudesse começar mais cedo e de forma mais autónoma. Um jovem que começa a trabalhar mais cedo pode começar também a poupar mais cedo, aprender a gerir o seu dinheiro, perceber o valor do esforço e construir experiência profissional. Não significa que aos 22 anos consiga comprar uma casa. Significa que pode chegar a essa idade numa posição diferente.
Não seria, naturalmente, uma solução para o problema da habitação. Não faria baixar o preço das casas nem substituiria a necessidade de construir mais, melhorar salários ou encontrar melhores soluções de financiamento. Seria, isso sim, uma peça de uma solução maior.
Portugal pode transformar este desafio numa oportunidade. Podemos ensinar um jovem a trabalhar sem lhe retirar a oportunidade de estudar. Podemos dar-lhe rendimento sem lhe retirar responsabilidade. Podemos permitir-lhe ganhar experiência sem o transformar em mão de obra barata. Podemos aproximar escolas e empresas sem transformar a escola numa extensão das empresas.
Em vez de perguntarmos apenas “como vamos conseguir que os nossos jovens comprem casa?”, talvez devêssemos perguntar:
“Como podemos preparar os nossos jovens, desde mais cedo, para terem condições de construir a sua própria vida?”
Porque uma casa pode ser o símbolo da independência.
Mas a independência começa muito antes.
Começa no primeiro salário.


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