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Os mais de 500 mil brasileiros que vivem hoje em Portugal representam pouco mais de um terço dos que fizeram o caminho contrário.

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“Rafeiro” de pai e mãe. Ou, simplesmente, “vira-latas”. Do pai, a ascendência dos portugueses e dos índios; da mãe, a avó emigrante da Suíça, o avô mulato e a ascendência espanhola. No Brasil, essa mistura pode receber a alcunha de “samba-do-crioulo-doido”.

Aliás, “alcunha” soa melhor aqui, em Portugal. Lá, usa-se “apelido”. Aqui, “apelido”; do outro lado do oceano, “sobrenome”. Diferenças linguísticas que temperam e constatam um dado inequívoco e inexorável: a questão da escala.

Fala-se muito mais o português no Brasil do que em Portugal. Claro, são 220 milhões a falar do lado de lá, enquanto são 11 milhões a falar o português do lado de cá. Não duas vezes (o que já faria muita diferença), mas 20 vezes mais. E, de tanto falar, o português (como qualquer outra língua) se transforma pouco a pouco. Nem vou entrar na questão de o brasileiro poder ser considerado ou não outra língua porque, diz o dito, “o que Deus uniu, o homem não separa”.

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Fato é que o português é uma língua viva, desbravadora e forte, tanto que sua raiz permanece, mesmo sofrendo muito mais influências no Brasil do que em Portugal. Nos pouco mais de 500 anos de encontro, foram muitos povos que se somaram culturalmente à mistura portuguesa e indígena do primeiro contato, estabelecendo um jeito rafeiro, vira-latas, multicultural, rico de influências. Sudaneses da Nigéria, Daomé e Costa do Marfim, bantos do Congo, Angola e Moçambique, japoneses, sírio-libaneses, alemães e holandeses… Sem falar nos que mais contribuíram. Entre 1884 e 1959, entraram no Brasil, segundo dados estatísticos do Google, 1.507.695 italianos e 1.391.898 portugueses. Os mais de 500 mil brasileiros que vivem hoje em Portugal representam pouco mais de um terço dos que fizeram o caminho contrário. Sem mencionar que a maioria dos que vieram tem mesmo ascendência portuguesa. É um vatapá feito na caçarola portuguesa.

Como eu, que decido buscar nas raízes diversas que nutrem minha linhagem a seiva amorosa que me fez brotar pai à procura de uma vida melhor para minhas duas filhas. Tal e qual a maioria migrante, os que não foram coagidos e obrigados a deixar seu chão.

Desembarcado em Portugal há quase oito anos, pouco no Porto e um tanto bom em Esposende, no litoral norte, nossa caravela familiar atracou mesmo em Vila Nova de Famalicão, há quase dois anos, quando apertamos a mão do gentil Sr. Marcelino Sá, quem nos vendeu uma moradia em banda em Cavalões.

É bem verdade que vivemos momentos únicos ao conhecer o Sr. Rogério Ferreira, no delicioso Páteo das Figueiras, antes mesmo de decidirmos pela compra da casa. Foi o primeiro sorriso dessa terra fértil.

E, de lá para cá, temos tido o gosto de encontros afetuosos: a Ângela, que nos vende manga e maracujá em sua banca na Praça Mercado de Famalicão; de ser recebido com maestria pelo João, na tradicional pizza de sexta-feira, no restaurante La Via; de contar com os préstimos familiares na excelência do serviço do quiosque Detalhe Diário, em Outiz; de aproveitar as diárias feitas com carinho pela Dona Salete e servidas por sua família no Café Carneiro; de ser acolhido e incentivado pela Sra. Ana Lima, dos Serviços Administrativos do Centro Urbano, de ter sido convidado uma vez para almoçar com a família do Alexandre Lemos, professor da Mais Plural, pai de uma nova amiga da minha mais nova: eram colegas de infantário, agora somente frequentam o mesmo ballet. As castanhas dos ouriços abertos parecem mais fáceis de colher.

Ainda poucas… mas fundamentais manifestações que vão pintando gradualmente a linda paisagem dessa afortunada cidade, de terra fértil e gente acolhedora. Esta Vila Nova de sonhos compartilhados por um povo trabalhador, disposto a somar. Onde planta-se gentileza e colhe-se em fartura sorrisos, amizade, mãos estendidas, afeto e gratidão.

 

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