Salvador Coutinho, o advogado amigo dos trabalhadores, é homenageado em Famalicão

O advogado Salvador Coutinho defendeu os trabalhadores da Mabor, na greve dos 62 dias, em 1974. Por melhores salários e condições de trabalho. Depois destruiram-lhe o escritório em Famalicão.

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Salvador Coutinho é homenageado pela Associação Memória Viva. FOTOGRAFIA Lucília Monteiro

Advogado amigo dos trabalhadores, poeta e homens de causas. Salvador Coutinho, de 90 anos, é homenageado este sábado, 25 de abril, na Fundação Cupertino de Miranda, numa iniciativa da associação cívica Memória Viva. A distinção sublinha o percurso de um advogado que nunca virou costas a quem precisava de voz. “Agrada-me, mas não era necessária”, declarou o próprio, do alto da sua humildade, esta semana, num encontro com a imprensa, que o NOTÍCIAS DE FAMALICÃO presenciou.

A sua história de vida ficou marcada, de forma indelével, pela greve da Mabor, em Lousado, no Verão de 1974, que muitos famalienses ainda recordam. Durante 62 dias, o então jovem advogado Salvador Coutinho, mandatado pelo Sindicato dos Operários Químicos do Norte, representou com coragem os operários na luta por melhores salários e condições de trabalho, enfrentando pressões e riscos que culminariam no assalto e destruição total do seu escritório em Famalicão. Foi na sequência deste episódio, que o abalou profundamente, que se afastou do MDP/CDE.

Antes disso, destacara-se como opositor ao regime de Salazar, participando em inúmeras ações da Oposição Democrática e colaborando com sindicatos e com a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Em 1976, já afastado do MDP/CDE, “por discordâncias estratégicas de fundo”, aceitou ser o mandatário da candidatura presidencial de Ramalho Eanes.

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No ano seguinte, Artur Lopes e Joaquim Loureiro (falecido no ano passado), fundadores do Partido Socialista em Vila Nova de Famalicão, subscreveram a proposta de adesão ao partido, então liderado por Mário Soares, que era primeiro-ministro de um Governo minoritário.

No PS, Salvador Coutinho desempenhou funções concelhias, distritais e nacionais, chegando a liderar a bancada do PS na Assembleia Municipal. Em 2001, depois de um interregno, regressou à política local como candidato à presidência da Assembleia Municipal pelo Movimento Agostinho Fernandes (MAF), num momento de rutura interna da esquerda famalicense.

Salvador Coutinho licenciou-se em Direito enquanto trabalhava na fábrica de pneus Mabor, em Lousado. FOTOGRAFIA Lucília Monteiro

A história de Salvador Coutinho é a de alguém que subiu a vida a pulso. Nascido em Espinho, em 1935, mudou-se para Vila Nova de Famalicão aos 9 anos. Trabalhava na Mabor desde 1954, primeiro como aprendiz e depois como supervisor, quando decidiu cumprir o sonho antigo de ser advogado. Estudou Direito na Universidade de Coimbra como aluno voluntário, conciliando turnos de fábrica com livros de jurisprudência, até se licenciar em 1968. Fez o seu estágio no escritório de José Mário Machado Ruivo e Ruben de Carvalho, tendo feito a sua inscrição na Ordem dos Advogados em 22 de maio de 1970.

Mas Salvador Coutinho nunca foi apenas advogado. Foi também um homem das letras, estreando-se muito cedo na imprensa local e publicando o primeiro livro de poesia em 1957, aos 22 anos. Entre contos, romance, novela e poesia, soma hoje 18 títulos, onze deles de poesia original. Como colaborador da imprensa local, destacou-se ao ter criado um suplemento literário no NOTÍCIAS DE FAMALICÃO, quando este título pertencia à Igreja Católica famalicense e tinha edição impressa. Também colaborou nos jornais “Estrela do Minho” e “Estrela da Manhã”.

Desportista na juventude futebol, hóquei em patins, futebol de salão e columbófilo durante décadas, Salvador Coutinho é, sobretudo, reconhecido como um cidadão de fortes convicções democráticas, defensor dos trabalhadores e criador literário persistente.

O SIGNIFICADO DA HOMENAGEM

A homenagem deste sábado celebra precisamente isso: a vida de um homem que fez da justiça, da liberdade e da palavra escrita os pilares de uma existência inteira. Às 15 horas deste sábado, o auditório da Fundação Cupertino de Miranda acolhe uma sessão evocativa da vida e obra de Salvador Coutinho. O evento que marca também o lançamento do seu novo livro, o décimo oitavo, intitulado “Era uma vez uma história que não sabia contar-se”.

Num encontro com jornalistas, realizado esta semana, no Restaurante Aljubarrota, na Rua da Liberdade, o autor refletiu sobre o seu percurso cívico, a paixão pela escrita e a ligação profunda à cidade que o acolheu aos nove anos de idade, vindo de Espinho, onde nascera, em 25 de setembro de 1935.

“É IMPORTANTE CONTAR A HISTÓRIA…”

Para Salvador Coutinho, a preservação da memória coletiva é um imperativo ético. “É importante contar a história e isso não tem sido devidamente valorizado”, afirmou o autor, sublinhando que se deve relatar os factos “mesmo que não seja agradável – é a nossa história”.

O escritor destacou a importância histórica da Rua Direita e da Rua da Liberdade, recordando que o nome desta última surgiu em 1948 de forma oficiosa, “de boca”. Segundo Coutinho, “na altura aquilo já representava algum atrevimento e isso merece ser recordado”. Sobre o estado atual do património edificado da cidade, o autor admite ter ideias para a sua preservação, mas encara a realidade com pragmatismo: “Não está nas minhas mãos”.

ÉTICA NA POLÍTICA E RESILIÊNCIA PROFISSIONAL

Com um passado marcado pelo combate à ditadura — que incluiu dois interrogatórios pela PIDE e a participação na Oposição Democrática (MDP/CDE) — Salvador Coutinho mantém princípios rígidos sobre o serviço público. Revelou que, durante os seus mandatos na Assembleia Municipal de Vila Nova de Famalicão, nunca arrecadou as senhas de presença. “Iam diretamente para o partido”, assegurou, reforçando que nunca aceitou lucrar com a política.

A sua carreira como advogado foi também indissociável das suas convicções. Em agosto de 1975, o seu escritório foi assaltado e inutilizado devido à sua atividade antifascista e ao seu papel na defesa de trabalhadores em greves mediáticas, como a da Mabor, em 1974. O incidente forçou-o a recomeçar a atividade do zero, em instalações cedidas pela Ordem dos Advogados.

Com Carlos de Sousa, presidente da Memória Viva, esta semana, num encontro com jornalistas. FOTOGRAFIA Notícias de Famalicão

Ao analisar a biografia e as declarações de Salvador Coutinho, destacam-se pontos de transição e escolhas pragmáticas que moldaram a sua vida. Embora a escrita tenha sido a sua primeira paixão, optou por estudar direito por considerar a profissão de escritor inviável na juventude, citando os finais trágicos de Camões e Pessoa. Trabalhou como operário e supervisor na Mabor enquanto estudava como aluno voluntário em Coimbra.

Natural de Espinho e oriundo de uma família de prestígio local (neto de António de Oliveira Salvador), Coutinho construiu a sua vida e legado em Famalicão, onde se destacou não só nas letras e na advocacia, mas também no desporto, como guarda-redes e jogador de hóquei em patins do Famalicense Atlético Clube.

A sessão deste sábado será, assim, o reconhecimento de uma vida que cruzou a advocacia, a política e a literatura, culminando na apresentação de uma nova obra poética que reforça a sua presença ativa na cultura famalicense aos 90 anos de idade.

BIBLIOGRAFIA PUBLICADA

Poesia:
Eu (1957)
VINTE POEMAS PARA A VIDA (1971)
NA BRISA DE UM DIA CINZA (1973)
POEMAS DE MAR E AMAR (1984)
EXERCÍCIO DE AMOR (1987)
DOZE POEMAS SÓ (1999)
PRIMEIRO EPISÓDIO (2001, antologia)
UM PIRILAMPO QUE APAGA A ESCURIDÃO (2006) 
PRENDA MAIS MORRO POR Ti (2013)
E O SOL ABRIU A JANELA (2014)
ESTOU A SABER COMO ESPERAR-TE (2020, antologia)
ESGAR DE FRIO ABERTO PARA O AMANHĂ (2025)

Prosa:
HOMEM AO VENTO (1961, Contos) O FINGIDOR (1980, contos)
LUCIANA, A VELHA (1984 e 2. edição em 2007, novela)
VEM DORMIR COMIGO ATÉ SER SOL (2007, romance)
UM DIA HA TANTO TEMPO NO MUNDO (2011, romance)

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