Como a romã pode ser um ativo estratégico para Famalicão

A romã tem tudo para ser um símbolo vivo e não apenas um desenho no brasão da cidade: pode ser identidade, economia, saúde, paisagem, sustentabilidade e orgulho.

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Discreta e majestosa, entre três cachos de uvas, a romã ocupa um lugar central no brasão de Vila Nova de Famalicão. Não é um mero ornamento. Pelo contrário, a presença da romã no brasão é uma afirmação identitária e uma memória agrícola. As três romãs de ouro, abertas de vermelho, atravessam a faixa negra do escudo como quem recorda que a fertilidade da terra sempre foi a primeira riqueza do território famalicense.

A heráldica, sábia e simbólica, escolhe aquilo que melhor traduz a alma de uma terra. Porém, ironicamente, enquanto o brasão exibe a romã com orgulho, a agricultura famalicense definha num abandono que é um paradoxo que dói: celebramos o fruto no escudo, mas esquecemo-lo na paisagem.

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A verdade é que, desde sempre, a agricultura em Famalicão tem sido tratada como um parente distante da Câmara Municipal. Só é lembrada quando convém ter uns ranchos folclóricos nas Festas Antoninas ou na Feira Grande de São Miguel, ou quando há taxas para cobrar aos feirantes e vendedores do mercado municipal. Vemos o presidente da Câmara a visitar empresas industriais, mas nunca o vemos a visitar uma empresa de produção agrícola. E, no entanto, a agricultura é fundamental para a nossa alimentação e para o tratamento cuidado do nosso ambiente e das nossas paisagens.

O problema é mais estrutural. Por parte da Câmara Municipal de Famalicão nunca houve uma visão estratégica, um plano de valorização, uma política pública que reconhecesse a agricultura como setor vital para a alimentação, para a economia local, para a sustentabilidade ambiental e para a preservação das paisagens que moldam a nossa identidade.

O abandono é antigo, persistente e quase institucionalizado. Basta percorrer o concelho para perceber o resultado: terras férteis ao abandono, campos que outrora davam vinho, batatas, favas, milho, hortas generosas ou árvores de fruto que marcavam as quatro estações do ano. Os terrenos deixaram de produzir e ficaram à espera de um projeto de construção. É confrangedor ver terra improdutiva onde antes havia vida, trabalho e colheitas.

É aqui que a romã, símbolo heráldico e fruto de extraordinária riqueza nutricional, pode ser mais do que um desenho no escudo famalicense. A romã é um pequeno cosmos de saúde: rica em antioxidantes, vitamina C, compostos anti-inflamatórios e benefícios cardiovasculares. É um superalimento que cura, que fortalece, que inspira. E seria belo, profundamente belo, e faria todo o sentido histórico e cultural que o Município de Vila Nova de Famalicão assumisse a romãzeira como árvore de fruto prioritária no concelho, transformando-a em elemento vivo da paisagem urbana e rural.

Imaginar rotundas floridas de romãzeiras, ruas ladeadas por árvores que oferecem sombra e fruto, parques onde as crianças colhem romãs no outono, jardins particulares onde a romãzeira volta a ser rainha, é imaginar um concelho de Famalicão que honra o seu brasão e que transforma o seu símbolo numa prática quotidiana.

A romãzeira, além disso, é uma aliada natural da sustentabilidade: resiste bem ao calor e à seca, exige pouca água, tem baixa necessidade de manutenção, atrai polinizadores e contribui para a biodiversidade. É uma árvore resiliente, amiga do ambiente, adaptável a solos diversos, capaz de produzir um fruto nutritivo com reduzido impacto ecológico.

Num tempo em que a sustentabilidade deixou de ser opção para se tornar urgência, apostar na romãzeira é apostar num futuro mais verde, mais inteligente e mais coerente com os desafios climáticos.

A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão tem aqui uma oportunidade rara de transformar um símbolo heráldico numa estratégia de desenvolvimento sustentável, que seria pioneira no país. Para isso, é preciso visão, coragem e políticas públicas concretas.

Incentivar a produção familiar de romãs seria um primeiro passo decisivo: distribuir romãzeiras a famílias, escolas, associações e juntas de freguesia; criar hortas comunitárias com áreas dedicadas à romãzeira; oferecer apoio técnico a pequenos produtores; promover oficinas de plantação e manutenção. Não faltam ideias para concretizar e desenvolver.

Um segundo passo seria a criação de um Plano Estratégico da Romã, um documento municipal que definisse metas, incentivos, calendário e parceiros – algo semelhante ao que se fez com a galinha mourisca, mas desta vez com ambição popular e territorial, e não um trabalho confinado a dois restaurantes e a um elitismo que não despertou o interesse da comunidade.

O projeto municipal Famalicão Made IN poderia desempenhar um papel decisivo, promovendo o desenvolvimento de produtos alimentares inovadores a partir da romã: sumos, compotas, vinagres, licores, pastelaria, snacks saudáveis, produtos gourmet e até cosmética natural. Poderia nascer uma marca territorial – “Romã de Famalicão” – capaz de unir identidade, economia e criatividade.

A isto juntar-se-iam eventos de celebração da romã, como uma Festa da Romã no início do outono, concursos de receitas, feiras temáticas, roteiros turísticos “Da flor ao fruto”, iniciativas pedagógicas nas escolas, projetos intergeracionais que juntassem avós e netos a plantar romãzeiras, parcerias com universidades para estudar variedades adaptadas ao território local.

Famalicão pode fazer com a romã aquilo que prometeu fazer com a galinha mourisca, mas desta vez com ambição de escala, inclusão e impacto. A romã tem tudo para ser um símbolo vivo e não apenas um desenho no brasão da cidade: pode ser identidade, economia, saúde, paisagem, sustentabilidade e orgulho.

A agricultura famalicense não precisa de ser um capítulo encerrado. Pode e deve renascer. E poderia ser a romã – essa fruta antiga, sábia e resiliente, que custa quase 5 euros por quilo no hipermercado – a lembrar-nos que “onde há sementes, há futuro”. O brasão já nos aponta o caminho. Falta apenas que o município o siga com determinação, visão e respeito pela terra que nos alimenta.

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