Quando a doença não chega para convencer

Quem luta contra o cancro já está numa batalha desigual. Acrescentar a essa luta uma penalização económica é transformar o sofrimento em algo ainda mais injusto.

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Há decisões políticas que se discutem. Outras que se compreendem. E depois há aquelas que simplesmente custam a aceitar, decisões que nos deixam com a sensação amarga de que, afinal, nem tudo o que é humano é prioridade.

A recente rejeição da proposta que visava garantir a baixa a 100% para doentes oncológicos em Portugal não é apenas uma escolha política. É um espelho. Um espelho que reflete até que ponto estamos ou não dispostos a cuidar de quem mais precisa.

Garantir a tranquilidade mínima a quem luta pela vida não é um privilégio é um dever

Porque o cancro não é apenas uma doença. É um abalo total. É físico, é emocional, é psicológico, é financeiro. É o corpo que falha, mas também a vida que se desorganiza. São tratamentos agressivos, dias intermináveis, medo constante e, agora, também a preocupação com o salário ao fim do mês.

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Como se combate uma doença destas com metade da tranquilidade?

Imaginar alguém em tratamento oncológico a fazer contas, a ponderar despesas, a sentir o peso de perder rendimento é, no mínimo, desconcertante. Porque quem luta contra o cancro já está numa batalha desigual. Acrescentar a essa luta uma penalização económica é transformar o sofrimento em algo ainda mais injusto.

Não se trata de números. Trata-se de dignidade.

Um país mede-se pela forma como protege os seus cidadãos mais vulneráveis. E neste momento, a pergunta impõe-se: estamos a falhar neste teste?!

A decisão de não avançar com esta medida pode ter justificações técnicas, orçamentais, políticas. Mas há algo que não pode ser ignorado: o impacto humano. A angústia silenciosa de quem, além de enfrentar a doença, se vê forçado a enfrentar a insegurança financeira.

É difícil explicar a quem nunca passou por isso. Mas é impossível ignorar quando se escolhe representar um povo.

Talvez um dia olhemos para trás e estranhemos como esta foi sequer uma questão debatida.

Talvez nesse dia percebamos que garantir a tranquilidade mínima a quem luta pela vida não é um privilégio é um dever.

Até lá, fica a inquietação.

E uma pergunta que não se cala: quanto vale, afinal, a dignidade de quem está doente?!

 

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