Passado um mês sobre o encerramento das comemorações do bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, e tendo em conta que o mês de abril está ligado à génese do processo que levou à criação da Casa-Museu de Seide, faz todo o sentido trazer à memória dos leitores as diligências daqueles famalicenses que tanto lutaram para que Vila Nova de Famalicão tivesse um museu dedicado a Camilo. Referimo-nos à Comissão Promotora de Homenagem Póstuma a Camilo Castelo Branco.
Foi graças ao empenho desta comissão, e à sua determinação em erguer das cinzas a casa onde Camilo viveu os últimos 27 anos da sua vida, que hoje, mais de um século depois, se perpetua – com estratégias naturalmente diferentes – a memória do escritor e as suas vivências em São Miguel de Seide.
Tudo teve início no mês de abril de 1915, quando um grupo de admiradores de Camilo, alguns deles seus amigos pessoais, entre os quais se contavam o visconde de Pindela e José de Azevedo e Menezes, da casa do Vinhal, convoca, em carta aberta, as elites famalicenses para uma reunião no Salão Olímpia, o animatógrafo da vila.
O objetivo era claro e amplamente consensual: transformar a casa onde o grande escritor de “Amor de Perdição” viveu e produziu grande parte da sua obra, num museu camiliano, ligando para sempre Vila Nova de Famalicão à memória de Camilo Castelo Branco. Homenageava-se, assim, o passado ao mesmo tempo que se projetava o futuro.
À semelhança do que acontecia noutras cidades europeias – como Florença, Stratford-upon-Avon ou Paris – associadas a nomes como Dante Alighieri, William Shakespeare e Victor Hugo, a comissão ambicionava fixar em S. Miguel de Seide um lugar de memória, com projeção nacional e internacional, do escritor que escolheu esta terra minhota para viver o resto dos seus dias.
No entanto, essa consagração da memória implicava a adoção de medidas concretas que a comissão estava pronta a desencadear. A urgência tornara-se cada vez mais evidente: cerca de um mês antes daquela reunião, a 17 de março – precisamente no dia seguinte ao aniversário natalício de Camilo Castelo Branco, que tinha falecido 25 anos antes – um violento incêndio deflagrara na casa do escritor, destruindo-a quase por completo, agravando um estado de degradação que, de resto, já se vinha tornando indisfarçável com o passar dos anos. Impunha-se, por isso, reconstruí-la e fazer dela um memorial ao mestre das letras.

No entanto, para erguer esse museu dedicado a Camilo era indispensável, no entendimento unânime dos presentes na reunião, constituir uma comissão de homenagem que legitimasse todos os procedimentos e ações futuras, assegurando o respetivo enquadramento legal e o rigoroso cumprimento da lei. Só assim os seus mentores compreenderiam que a “empreitada” que decidiram ter em mãos, tinha condições para ser bem-sucedida e concretizar o seu objetivo final: entregar o edifício e a sua gestão à Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.
Estava então criada a Comissão Promotora de Homenagem Póstuma a Camilo Castelo Branco com sede no Campo Mouzinho de Albuquerque, em Vila Nova de Famalicão. Os estatutos eram claros quanto às motivações desta comissão de famalicenses, nomeada oito dias após a assembleia de 11 de abril.
Na primeira reunião, realizada a 18 de abril, na Casa do Vinhal, foram oficialmente nomeados os titulares dos cargos da direção, sendo escolhidos para secretário, Nuno Simões (mais tarde substituído pelo jornalista Manuel Pinto de Sousa), e para tesoureiro, Francisco Correia de Mesquita Guimarães. Para presidente, a escolha recaiu sobre José de Azevedo e Meneses, proprietário da Casa do Vinhal, figura amplamente reconhecida nas sociabilidades famalicenses, não apenas pela sua posição social, mas também pelo seu prestígio intelectual.
Amigo próximo de Camilo, José de Azevedo e Meneses destacou-se pela intensa troca de correspondência com o escritor, especialmente no domínio das questões históricas e genealógicas. As cartas trocadas entre ambos revelam um interesse comum pela investigação rigorosa, abordando temas que iam desde pormenores aparentemente simples – como a identificação da primeira mulher de João Gonçalves Zarco, o célebre descobridor da Madeira – até matérias de maior complexidade, como a origem da família Ferreira d’Eça. Entre estas investigações, sobressai a referência a D. Fernando de Eça, senhor da vila de Eça, na Galiza, a quem a tradição atribui uma vasta descendência, incluindo 28 filhos de diferentes mulheres – um dado que ilustra bem o caráter fascinante e, por vezes, lendário das narrativas genealógicas. Aliás, também não estranhamos que seja este homem, o primeiro diretor da Casa de Camilo, quando o museu entra em funcionamento.
Mas continuemos. O plano delineado pela Comissão de Homenagem revelava-se ambicioso e exigia medidas rápidas e decisivas. Entre as prioridades estava a abertura de negociações com os herdeiros de Camilo Castelo Branco – os seus netos e a mãe destes, D. Ana Rosa Correia, companheira de Nuno Castelo Branco – com vista à aquisição das ruínas da antiga casa do escritor, bem como dos terrenos adjacentes. Mas também todo o recheio e espólio documental, onde se incluía o arquivo e a biblioteca.

Numa outra frente, a comissão empenhava-se em garantir o apoio financeiro indispensável à concretização do projeto. Para além da aquisição do imóvel e dos terrenos, tornava-se essencial assegurar fundos que permitissem avançar com a empreitada de “construção” e adaptação do edifício a novas funcionalidades: museu camiliano e escola primária de S. Miguel de Seide. Aliás, terá sido esta última, a solução encontrada para obter com a celeridade necessária, o desejado apoio do Estado, ao abrigo dos subsídios do Ministério da Instrução Pública destinados à construção de escolas então em vigor. Daí a insistência formal no termo “construção”, em detrimento de “reconstrução”, uma vez que o apoio estatal abrangia apenas novas edificações, excluindo intervenções de recuperação ou restauro.
Desde o primeiro momento, a comunidade camiliana, em Portugal e no Brasil, foi chamada a contribuir, através de subscrições abertas um pouco por todo o lado. Rodrigo Terroso, notário famalicense que presidiu ao contrato de compra da casa e destacado camilianista na angariação de fundos, assumiu também um papel ativo nesse esforço: enquanto jornalista-correspondente de “O Primeiro de Janeiro”, lançou no diário portuense uma subscrição própria, aberta à contribuição de todos os leitores do jornal.
Paralelamente, e com o objetivo de conferir à iniciativa um caráter nacional, foram igualmente mobilizadas as câmaras municipais – sobretudo do Norte do país – que, através de donativos, ajudaram a garantir o sucesso do projeto, fazendo com que o movimento de homenagem a Camilo ultrapassasse claramente a dimensão local.
Nota da autora – Na coluna “Memória e Identidade”, que hoje inauguro no jornal “Notícias de Famalicão”, irei escrever, sobretudo, sobre temas da cultura e da história de Vila Nova de Famalicão. No próximo artigo desta coluna, e sobre esta temática da criação da Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, abordarei o processo da compra da casa e o arranque da reconstrução do imóvel tendo em vista o museu camiliano.


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