Não há pão para malucos

A segunda volta das presidenciais está aí à porta. Na primeira, os candidatos foram de uma sensaboria intolerável. Costuma dizer-se que não há uma segunda oportunidade para uma primeira má impressão. Mas já passou: sobraram Seguro e Ventura, o mortiço e o postiço. Um não entusiasma, o outro causa repulsa. Não devia ser difícil escolher.

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“Um crédulo é um lorpa autoinfligido.” Lembrei-me deste aforismo (de criação própria) por estes dias de campanhas políticas várias em que andam por aí muitos nervos à flor da pele. Também, valha-me Deus… para o que me havia de dar, fui espreitar alguns fóruns de discussão (chamemos-lhes assim…) que enxameiam a internet. Dizer o quê, é o pulsar do povo. E é uma realidade à parte, para quem não saiba: o local onde se disputam as autênticas olimpíadas da patacoada. Tudo ali, ao alcance de um botão. Não admira que seja tão viciante.

Há lá de tudo, mas o que há sobretudo é gente que faz profissão de fé em renegar. E o que renegam eles? Ora, todo e qualquer afloramento de realidade que desmereça da virtude das suas tão cómodas convicções. Percebo: a vida seria tão mais fácil se a dita realidade se conformasse às nossas impossibilidades. Assim se alcança esse estado de espírito eivado de revelações em que já parece certo denunciar as vacinas como uma maquinação de Estado; negar as alterações climáticas como um complô internacional de interesses obscuros; escolher ver os impostos como uma extorsão e os políticos como um estorvo – como se não fossemos nós que escolhemos os políticos que impõem os nossos impostos.

E posto isto, a democracia? A democracia sofre. Tem de sofrer, às mãos de tanto génio incompreendido que anda à procura de uma voz. E é aos gritos que o fazem. Entre muitas pérolas, esta: que a democracia são cinquenta anos de corrupção.

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Pus-me a pensar em como a democracia, com os seus mecanismos de escrutínio e sobretudo com o ecossistema da imprensa livre, muito mais facilmente expõe a nu os podres da sociedade e da má gestão dos interesses do Estado: de uma maneira que a ditadura não faz, por definição.

Ora, acontece o mesmo com a indigência mental.

É que há por aí muito indigente mental à solta e ninguém deita a mão a isso. É um escândalo! Gente sumamente revoltada: contra o mundo, contra o governo, contra o vizinho e o cão do vizinho! Sei disso porque, nas minhas incursões temerárias pela blogosfera, confirmei-me, de ciência certa, na convicção ineludível de que, se vacilarmos, muito prontamente estaremos entregues à bicharada. Acreditem, eles andem aí.

Portugueses! O conselho que vos posso dar é só este: leiam mais e escrevam menos.

Pois estamos na segunda volta das presidenciais. Costuma dizer-se que nunca há uma segunda oportunidade para uma primeira má impressão. Não digo tanto. Desconfio muito de quem se prende demasiado às palavras sempre e nunca. Por más conselheiras. Ensaiemos, pois então, um pouco mais de latitude nas nossas intransigências de teclado, pode ser?

Na ressaca dos resultados da primeira volta, muito se discute sobre o que distingue os candidatos presidenciais que nos tocaram em sorte.

[um aparte para dizer que a piada da noite foram os 0,7% de votantes no Jorge Pinto. Estavam distraídos, só pode…]

Percebo um certo desânimo na esquerda: não é só que Seguro seja um pusilânime – imagina-se o homem à frente das tropas num qualquer campo de batalha e o que apetece logo é dar de frosques –, mas o cenário mais abrangente é confrangedor. Que figuras existem hoje no hemisfério esquerdo da política portuguesa que galvanizem um pobre de Cristo munido do seu cartão de eleitor? Alguém que perore sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre o destino de nós todos, e crie opinião, estruture uma política, se posicione independentemente do que outros pensem? Pois…

Bem sei que vai uma distância de tudo isto para António José Seguro. É por assim dizer um novo mínimo no longo resvalar da credibilidade das instituições. Ao menos é sério, e essa ninguém lho tira. Mas isso chega-nos?

Aqui chegamos. António José Seguro faz lembrar o conde de Steinbroken, excelso embaixador da Finlândia n’Os Maias’, que para tudo arrepiava caminho com a fórmula única que, como o vestido preto, nunca o comprometia.

“- C’est très grave, C’est excessivement grave!”

Assim é António José Seguro, e disso fez a carreira toda: prudente, vago, redondo. Eu, claro que desconfio: um Homem sem arestas não tem ponta por onde se lhe pegue. É um desconsolo e um desperdício de talentos. O Criador não nos fez para tão pouco.

Agora, Ventura… Ventura é outra coisa. Eça de Queirós também pensou nele por antecipação: assenta como uma luva no ‘Conde d’Abranhos’. Agora pensem: soez, manhoso, sonso – os qualificativos são à vontade do freguês, mas sempre em mau… E o que é pior: cruel com os mais fracos. E para isso, senhores, não há perdão à face da Terra.

Não é de hoje. Impressiona-me que a toda a hora chamem empedernido fascista a André Ventura, e é só pelo favor que lhe fazem. Até porque de empedernido não tem nada; o que ele é, é um troca-tintas. E fazerem dele fascista implica que estruturasse um pensamento em torno da organização do Estado, sobre o primado da lei, sobre a dignidade do Homem, sobre a liberdade de opinião, etc e tal.

Quando não passa de um oportunista, capaz de tudo e o seu contrário para se promover, nem que para isso fareje e promova o clima do quanto pior, melhor. Essas canseiras – pensar sobre os assuntos – não são para ele nem para quem o idolatra. Eles é mais bocas.

O problema é que demasiada gente o leva a sério sem perceber que esse é um crédito que ele não merece. Respondem-lhe, contra-argumentam, tentam convencê-lo. Insistem em jogar xadrez com o pombo e o pombo, o que faz, é derrubar as peças, cagar no tabuleiro e esvoaçar dali para fora a cantar vitória. Previsível, ainda por cima.

Nada disso funciona porque os demagogos só caem pelo próprio ridículo. Haveria que expô-lo, nas suas contradições e na absoluta incapacidade que mostra para apresentar soluções. Mas não. Acabam sempre a dar-lhe palco, e é quando melhor se ajeita para falar de “vergonhas”, da “bandalheira” e dos “tachos”.

E posto isso. Eu preferiria colocar a discussão no patamar mais básico da civilidade. No séc. XIX tivemos a muito glosada ‘questão de sensibilidade e bom senso’. Agora a questão põe-se ao nível do bom gosto. É que o homem é uma nódoa. Não aceitaríamos este tipo de sabujice em nossa casa, de um convidado mais atrevido, daqueles que “não sabe estar”. Ventura é esse convidado, enamorado de si próprio, destravado, a colecionar alarvidades, sempre mais, enquanto ninguém o manda calar. Há demasiado tempo já.

Ainda por cima mentiroso: pois digam-me se não faz vida a espalhar desinformação e a mentir descaradamente quando mais lhe convém?

Ainda por cima mal-educado: pois digam-me quem faz do insulto e da desumanização do adversário o seu mantra?

Ainda por cima calão: pois digam-me quantas/quais propostas estruturantes o Chega apresentou para solucionar o que quer que fosse?

Ainda assim, na noite eleitoral ficamos a saber que o Processo de Normalização em Curso do Chega (PNECC) continua a sua marcha a pleno vapor.

Pois para a IL é a mesma coisa um ‘socialista’ e um aldrabão de feira. Ficamos a saber.

Pois o PSD acha-se equidistante entre um partido estruturante da democracia, com quem, aliás, construiu a meias o actual edifício constitucional, e um saco de arrivistas, que faz do insulto e da arruaça o seu modus operandi. Ficamos a saber.

O CDS… bem, do CDS nem vou falar. Pelo CDS falou Paulo Núncio e isso é tudo o que precisamos de saber.

Parece que entre a sabujice e o “socialismo”, os líderes da direita que se quer respeitável ficam indecisos.

Aceitemos por uma vez que os partidos são mais do que os seus líderes e as suas circunstâncias. Que os eleitores pensam pela própria cabeça. Mas ainda assim. A mim, comum cidadão, faz-me comichão ver figuras de destaque na sociedade portuguesa como são Cotrim e Montenegro, e por mais que estivessem macerados pela desilusão eleitoral, a enveredarem pela via rápida do facilitismo.

E logo à partida até lhes dava um desconto. Não se esqueça que Cotrim, que tem estudos para mais, em tempos não muito idos, negou, em directo e para quem quis ouvir, a ‘urgência climática’. Porque é uma verdade inconveniente, daquelas que potencialmente custam votos, puxou do truque gasto de querer colá-la a uma ‘esquerdice’. Era tão bom se fosse assim simples, Cotrim. Mas não é, e o pior é que ele sabe que não é.

Já Montenegro desempenha na perfeição o papel do político pequeninho que não está absolutamente à altura das suas responsabilidades. Quer dizer: estamos a eleger o chede de Estado e o chefe de governo, o líder do partido com maior representação parlamentar, não tem nada para dizer a esse respeito?

Pois não tem. A mim não me surpreendeu em nada. É um cínico profissional, não foram os escrúpulos que o trouxeram até aqui.

Parece que entre a sabujice e o “socialismo”, os líderes da direita que se quer respeitável ficam indecisos. Está certo. Eu só estranho porque não me passaria pela cabeça votar no Ventura fosse contra qualquer um dos candidatos da primeira volta. Qualquer um deles. E todos têm os seus defeitos, certamente; mas a questão é que o Ventura tem mais, e piores. Muitos mais. E muito piores.

Alguém dizia que a figura sacramental das noites de eleições se tornou agora apanhar Ventura à saída da missa de domingo. Vamos levar com o número outra vez no dia 08. Para ele, qual sacripanta de sacristia, aproveitar a audiência que lhe dão para logo ali destilar ódio contra uma parte especiosa dos seus semelhantes – tal é o descaramento. Eu, que não sou crente, imagino Cristo, se outra vez descesse à Terra, a correr a pontapés para fora do templo com Ventura e a estes ‘católicos recém-chegados’. Mas eles não se enxergam.

Volto ao mesmo: é preciso compreender André Ventura. Ele não nutre ódio por coisa nenhuma. O ódio dele é instrumental e preguiçoso. É um poltrão, à mínima contrariedade acagaça-se todo, como se tem visto sempre que alguma alma popular o confronta com a hipocrisia das suas ‘verdades’.

O fundo mau, que tem!, não é por ser racista, nem xenófobo, machista ou demagogo. Tudo isso são a moeda que lhe trará de comer. O que André Ventura tem de substantivamente mau é ser ele falso. E um homem falso é capaz de tudo para atingir os seus fins.

Por isso não devia ser difícil escolher. Ao contrário do que muita gente gosta de dizer, não é complicado. É simples: chama-se vergonha alheia.

 

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