O Mário das Medalhas

Quando a lógica da distinção se submete à conveniência política, o gesto perde valor, o significado esvazia‑se e a comunidade percebe que o mérito deixou de ser um critério essencial.

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No Dia da Cidade, que se celebra a 9 de julho, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Mário Passos, volta a transformar a cerimónia de entrega de medalhas num exercício de distribuição indiscriminada de galardões.

A prática, que se repete ano após ano, banaliza um instrumento que deveria ser reservado ao reconhecimento público de cidadãos e instituições com contributos verdadeiramente relevantes para o concelho.

A atribuição de medalhas a figuras de passagem – como jogadores de futebol profissional que hoje representam o FC Famalicão e amanhã prosseguem carreira em Inglaterra, na Turquia ou noutros países – contrasta com o verdadeiro espírito do Regulamento de Atribuição de Galardões Municipais, concebido para distinguir cidadãos e instituições famalicenses que, pela sua obra, mérito ou dedicação, têm contribuído de forma notável para a projeção cultural, científica ou social do território.

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Quando a lógica da distinção se submete à conveniência política, o gesto perde valor, o significado esvazia‑se e a comunidade percebe que o mérito deixou de ser um critério essencial.

A discrepância torna‑se ainda mais evidente quando se observa que muitos desses cidadãos permanecem ignorados, não por falta de mérito, mas porque não se enquadram na coreografia política do presidente do executivo ou, pura e simplesmente, porque são desconhecidos da própria Câmara Municipal. Esta desatenção fragiliza o sentido público do galardão, esvazia o valor simbólico da distinção e compromete a credibilidade de um instrumento que deveria ser exemplar na promoção do reconhecimento comunitário.

A ideia de atribuir medalhas a todos os ex‑vereadores – independentemente da ação desenvolvida ou do impacto efetivo do seu desempenho –, apenas porque exerceram funções autárquicas após terem sido escolhidos pelas respetivas máquinas partidárias, constitui uma das formas mais eficazes de esvaziar o verdadeiro sentido do mérito autárquico. O mesmo acontece com outras condecorações.

Mais do que celebrar o Dia da Cidade, a autarquia celebra apenas a sua própria narrativa, convertendo um instrumento de reconhecimento público num ritual de autopromoção.

Ao transformar a distinção num gesto automático, desligado da avaliação concreta do contributo prestado, Mário Passos reduz a relevância de um instrumento que deveria distinguir quem, além de cumprir as obrigações inerentes ao cargo, deu efetivamente mais de si à comunidade ou apresentou ideias inovadoras para melhorar a vida coletiva.

Em muitos casos, a realidade é bem diferente. Há vereadores que, ao longo do mandato, pouco mais fizeram do que marcar presença nas reuniões do executivo municipal e, ainda assim, são contemplados com uma medalha de mérito autárquico. Esta prática não só desvirtua o propósito da distinção como cria uma perceção pública de injustiça, diluindo o valor simbólico do reconhecimento e afastando‑o daqueles que verdadeiramente o merecem.

Ao transformar condecorações em adereços de vaidade distribuídos sem critério, Mário Passos faz lembrar a personagem Zé das Medalhas, da telenovela brasileira Roque Santeiro. Quando a lógica da distinção se submete à conveniência política, o gesto perde valor, o significado esvazia‑se e a comunidade percebe que o mérito deixou de ser um critério essencial.

Assim, mais do que celebrar o Dia da Cidade, a autarquia celebra apenas a sua própria narrativa, convertendo um instrumento de reconhecimento público num ritual de autopromoção. E isso, para uma terra com a história e a exigência de Famalicão, é manifestamente insuficiente.

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