À segunda sai uma urbanização, à quarta um supermercado e à sexta uma estrada

O executivo camarário tem manipulado e arruinado a pouca cultura de participação pública. As discussões públicas têm-se revelado uma farsa.

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Área UOPG Vinhal – espaço no qual estão previstas as novas construções da 1.ª fase da operação urbanística

Venham mais cinco
Duma assentada que eu pago já

Venham Mais Cinco – Zeca Afonso

 

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Passada a saga da sardinha assada, já sentimos o cheiro a silly season. A silly season não é mais uma temporada de uma série da HBO, é aquele período do ano em que o mundo entra em modo sol, praia e cerveja fresca. Mas não se iludam, a Terra continua a girar em torno do sol a 108.000 km/h.

O edil, aproveitando os dias quentes e a nossa disponibilidade, ou falta dela, propõe discutir a continuação do programa de urbanização do Vinhal. Para os amigos UOPG 1.4 (Unidade de Execução) do Vinhal. Déjá vu?… talvez a revisão do PDM, lembram-se?

Apesar do anúncio no pasquim do regime – não o Efe, o outro… esse! (se digo o nome, ainda levo com um processo em cima), à data em que escrevo esta crónica, a documentação não estava (ainda) disponível para consulta no site do município.

Mas neste jornal movemos montanhas para acompanhar a atualidade local, assim consultamos a agenda da reunião de câmara de 11 de junho e percebemos (no meio de digitalizações de plantas de qualidade miserável) que a UE do Vinhal só representa uma pequena parte da área “disponível” entre a atual urbanização e a rotunda 1.º de Maio, tabelado pelas traseiras dos edifícios da rua Ernesto de Carvalho e a linha de caminho de ferro.

Mas façamos uma festa, pois “a cidade vai crescer” mais uns tantos metros quadrados.

Área UOPG Vinhal – vista do lado nascente

E tudo isto se passa enquanto o PDM vai levedando nos gabinetes do urbanismo. Eu sei a razão desse atraso, mas, p.f., fica entre nós: um buraco negro deu entrada, inusitadamente, num gabinete e o PDM foi sugado para o seu interior. Quem percebe destas coisas diz que o tempo dentro do buraco negro pára, ou flui de uma forma incomparavelmente mais lenta. Assim se explica a falta de notícias sobre esta matéria (escura).

Voltando à discussão pública (da UOPG Vinhal), confesso o meu ceticismo. Primeiro, porque andamos a discutir o planeamento do concelho aos bocadinhos e, com isso, perdemos a visão do conjunto (o meu reconhecimento ao Prof. Cândido Oliveira, que não se cansa de falar do Plano de Urbanização da cidade).

Por outro, as discussões públicas têm-se revelado uma farsa, pois não colhem as propostas dos participantes ou se as têm em consideração é porque não alteram a natureza do “negócio” – é o caso do novo Continente que nasceu na UOPG 1.4, junto ao Tribunal, que em sede de discussão pública foi destinada à habitação. Sim, habitação! Não, grande superfície comercial.

O executivo camarário tem manipulado e arruinado a pouca cultura de participação pública e a isso não é alheio o processo de centralização do poder e da sua submissão aos interesses imobiliários, industriais ou das grandes cadeias de retalho. Essa visão economicista é evidente na própria linguagem, deixaram cair a palavra concelho e passaram a usar a palavra território.

Com isso, desmantelam o compromisso da nossa comunidade com a sua terra, que tem raízes na longínqua Idade Média com as assembleias de vizinhos. O concelho ou assembleia é o espaço onde as pessoas encontram-se para discutir as matérias de interesse público, as questões da comunidade, as soluções possíveis e a sua administração.

Já agora, o plano de urbanização da UOPG 1.1 na área junto ao hospital também está em discussão, com mais uma superfície comercial e um provável fast food a blindar esta nova entrada para o hospital. Sabendo que está fora do plano a construção de um novo hospital (Hospital de Famalicão: Mário Passos descarta nova infraestrutura e Ministra prioriza obras no atual), não seria sensato encontrar uma solução urbanística que desse prioridade à fluidez de trânsito e às funções ligadas à saúde ou outro tipo de serviços complementares?

Vista parcial do terreno para o futuro supermercado na UOPG 1.1 na área junto ao hospital – na 2.ª linha vemos o hospital de Famalicão

Na sexta-feira, vai a discussão e votação, na Assembleia Municipal o estudo prévio da via distribuidora em Landim, aquela nova estrada que vai destruir campos agrícolas, construir uma ponte sobre o rio Pele e caucionar o erro de deixar construir pavilhões industriais onde calha, pensando nas infraestruturas depois. E quem paga?…

Silly season!

Roma e Pavia não se fizeram num dia e dizem que a paciência é a virtude dos sábios.

 

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