Quando a bola rola a guerra vai para intervalo

Morrem milhões de pessoas devido às guerras, devido à fome, devido a doenças incontroláveis em certas partes do mundo, enquanto outros vibram por mais um golo, por mais uma vitória, por mais noventa minutos de futebol.

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Entre o dia 11 de junho e o dia 19 de julho, as guerras fizeram uma pausa. O Campeonato do Mundo de Futebol tem este poder: “suspender” a guerra. Todos conhecemos o poder que o futebol tem na união de povos, em especial quando se trata de um país inteiro a defender a mesma bandeira.

Camisolas vestidas, rostos pintados, bandeiras nas janelas de casa e nos automóveis, hinos cantados com a mão no peito e conversas de cafés que deixaram de ter o foco na guerra, nos combustíveis, nos refugiados, nos crimes, na falta de habitação ou na fome, para se debater apenas e só “a bola a rolar” no tapete verde, as táticas, os árbitros, os penáltis e os golos. Parece que o mundo decidiu fazer uma pausa na realidade, mas a realidade nunca fez pausa.

São milhões de pessoas a torcer diante de um televisor, enquanto as bombas continuam a cair sobre cidades, sobre crianças, jovens, adultos e idosos. Morrem milhões de pessoas devido às guerras, devido à fome, devido a doenças incontroláveis em certas partes do mundo, enquanto outros vibram por mais um golo, por mais uma vitória, por mais noventa minutos de futebol. Os telejornais deixaram de abrir com imagens de refugiados, de guerras ou de famílias inteiras a fugir dos seus países, passando a abrir com estádios cheios de cor e aficionados. Podemos concluir que todos estes problemas foram “derrotados” por noventa minutos de futebol?

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Compreenda-se que o mais inquietante não é que exista futebol, mas é que baste um jogo de futebol ou um campeonato do mundo para “anestesiar a consciência coletiva”. Durante meses, ou até mesmo anos, indignamo-nos com conflitos armados, condenamos os massacres nas redes sociais e nas conversas de café, partilhamos mensagens de solidariedade para com os povos e exigimos justiça e respostas por parte dos governantes. Depois chega a competição futebolística e a nossa revolta “vai para intervalo”. E não porque a guerra tenha terminado, mas porque o árbitro deu o apito inicial de uma partida de futebol.

Acredito que o verdadeiro campeão do Mundo não tenha sido a Seleção Espanhola que levantou o troféu, mas seja a extraordinária capacidade humana de esquecer o sofrimento alheio quando o entretenimento bate à porta. É duro dizê-lo, mas é impossível ignorá-lo. Vivemos numa época em que um golo gera mais notificações do que um massacre. Onde a lesão de um jogador ocupa mais espaço mediático do que milhares de deslocados, milhares de refugiados, milhares de “lesões” físicas e mentais e milhares de crianças. Vivemos num mundo onde conhecemos mais rapidamente os países de cada grupo, mas desconhecemos o nome dos países onde a população luta apenas para sobreviver até ao dia seguinte.

“Estranhamente ninguém acha isto estranho”. A culpa não é do futebol, a culpa é nossa. Somos nós que aceitamos que a emoção substitua a reflexão. Somos nós que permitimos que a indústria do espetáculo dite aquilo que merece a nossa atenção. Somos nós que, por vontade própria, desligamos da dor dos outros porque é mais confortável discutir se o selecionador fez a substituição certa ou se o árbitro foi justo no penálti assinalado.

Não tenho dúvida de que todos nós necessitamos de momentos de alegria, de nos abstrairmos dos problemas e dos dramas da sociedade e de não nos sentirmos culpados ou cúmplices de tantas decisões mal tomadas. O futebol une povos, desperta paixões e cria memórias inesquecíveis e, esse poder do futebol, não se pode negar.

O problema começa quando a paixão se transforma em cegueira e o espetáculo se converte numa cortina que esconde aquilo que preferimos não ver. Talvez o verdadeiro escândalo não seja existirem guerras durante um Campeonato do Mundo. O verdadeiro escândalo é conseguirmos esquecê-las tão facilmente.

Quando o árbitro apita para o fim da final, as luzes do estádio apagam-se, os campeões regressam a casa e o troféu encontra um novo dono. Mas as bombas continuam a cair. As crianças continuam a chorar. Os hospitais continuam sem medicamentos. A fome não conhece prolongamentos, nem descontos, nem cerimónias de encerramento.

Talvez esteja na hora de fazermos uma pergunta incómoda.

Se conseguimos parar o mundo para ver um jogo de futebol, porque nunca conseguimos parar o mundo para impedir uma guerra?

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