Na engenharia e na gestão existe uma regra simples: nenhuma organização cresce sem uma estratégia clara, objetivos de longo prazo e capacidade para executar decisões consistentes. Quando estes três pilares falham, a organização entra num ciclo de sobrevivência. Resolve os problemas do dia a dia, mas deixa de construir o futuro.
É exatamente essa a impressão que tenho quando olho para a economia portuguesa.
Nas últimas décadas, os sucessivos governos habituaram o país a uma governação centrada no curto prazo. As prioridades mudam ao ritmo dos ciclos eleitorais, as reformas estruturais são sucessivamente adiadas e a estratégia nacional parece resumir-se à gestão do imediato. O resultado é um crescimento económico modesto, uma perda gradual de competitividade e um tecido empresarial que, salvo raras exceções, continua a ter enorme dificuldade em ganhar dimensão.
Na gestão há uma certeza quase absoluta: ninguém investe milhões onde não consegue prever o futuro. Quem arrisca capital precisa de estabilidade, regras claras e confiança nas instituições. Em Portugal acontece demasiadas vezes o contrário. A carga fiscal mantém-se elevada, a burocracia continua pesada, os licenciamentos prolongam-se durante meses ou anos e as regras mudam com uma frequência que retira previsibilidade a qualquer plano de investimento. Em vez de facilitar a criação de riqueza, o Estado continua demasiadas vezes a tornar-se um custo adicional para quem produz.
É precisamente aqui que as empresas portuguesas encontram um dos seus maiores obstáculos. Não lhes falta talento, capacidade técnica ou vontade de crescer. Falta-lhes um enquadramento que premie quem investe e quem assume risco. À medida que uma empresa aumenta de dimensão, aumenta também a complexidade fiscal, regulatória e administrativa. Em vez de incentivar o crescimento, o sistema parece penalizá-lo. Não é por acaso que Portugal continua a ter poucas empresas de média e grande dimensão quando comparado com economias de dimensão semelhante.
Os exemplos repetem-se há demasiado tempo. Projetos industriais aguardam anos por licenciamentos, investimentos são adiados devido à instabilidade regulatória e processos de expansão ficam presos numa máquina administrativa pesada e excessivamente burocrática. Enquanto outros países competem para captar investimento, simplificando procedimentos e reduzindo tempos de decisão, Portugal continua demasiadas vezes a transmitir a ideia de que investir é um favor ao Estado, quando deveria ser exatamente o contrário.
Curiosamente, quando olhamos para alguns dos maiores casos de sucesso nacionais, percebemos que cresceram apesar do contexto e não por causa dele. Empresas como a Sonae, a Corticeira Amorim, a Sodecia, a Visabeira ou tantas outras conquistaram mercados internacionais graças à visão estratégica das suas lideranças, à inovação e à capacidade de competir globalmente. O mérito é, acima de tudo, empresarial. A questão que devemos colocar é simples: quantas outras empresas poderiam hoje ter seguido o mesmo caminho se encontrassem um ambiente económico mais previsível, uma Administração Pública mais eficiente e uma política económica verdadeiramente orientada para o crescimento?
O maior falhanço dos sucessivos governos não foi apenas económico; foi estratégico. Portugal parece ter deixado de pensar a longo prazo. Falta uma visão consistente para o país que sobreviva aos ciclos eleitorais, capaz de definir prioridades, criar estabilidade e dar confiança a quem investe. Em vez de uma estratégia nacional, sucedem-se medidas avulsas, programas que raramente chegam ao fim e reformas interrompidas antes de produzirem resultados. Nenhuma empresa aceitaria ser gerida desta forma. Um país também não o deveria aceitar.
Há uma diferença fundamental entre gerir uma empresa e governar um país. Uma empresa sem estratégia dificilmente sobrevive num mercado competitivo. Um país pode prolongar os seus problemas durante anos, amparado por circunstâncias externas, por ciclos económicos favoráveis ou por fundos europeus. Mas chega inevitavelmente o momento em que a ausência de visão estratégica cobra o seu preço. E esse preço mede-se em menor produtividade, menor competitividade e numa economia que cresce sistematicamente abaixo do seu potencial.
Portugal não precisa apenas de crescer. Precisa de saber para onde quer crescer. Precisa de uma estratégia que sobreviva aos governos, que dê confiança a quem investe e que transforme o potencial das empresas portuguesas em valor, inovação e competitividade.
A verdadeira questão já não é se Portugal tem capacidade para crescer. Tem. A questão é saber quando teremos finalmente uma estratégia nacional que permita às empresas portuguesas deixar de lutar contra o sistema e passar, finalmente, a crescer com ele. Porque o futuro de um país não se constrói a gerir o presente. Constrói-se com visão, consistência e coragem para tomar hoje as decisões que só produzirão resultados daqui a uma ou duas décadas.


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