Há uma altura do ano em que parece que estamos entre duas vidas.
É no fim de agosto.
Ainda há dias de praia, jantares demorados, toalhas nas varandas e aquela vontade de fingir que o verão ainda não acabou. Mas setembro começa a aparecer devagar: nos cadernos, nas mochilas, nos horários, nos e-mails, nas reuniões.
E há qualquer coisa de nostálgico nesta altura.
Talvez porque o verão nunca seja exatamente aquilo que imaginámos. Pensamos que vamos descansar mais, ver mais pessoas, fazer mais coisas, ter mais tempo. Depois, de repente, chegamos ao fim de agosto e percebemos que passou depressa demais.
As noites chegam mais cedo. As praias vão ficando mais vazias. Algumas casas fecham-se novamente até ao próximo verão.
E, ao mesmo tempo que sentimos pena do que termina, começa também a nascer uma vontade de regressar.
À rotina. Ao trabalho. À agenda. Aos horários. À vida de todos os dias.
Setembro tem qualquer coisa de segundo janeiro.
No dia 31 de dezembro, fazemos promessas, desejamos mudanças e acreditamos, por umas horas, que o ano seguinte poderá ser diferente. Em setembro acontece algo parecido. Não há champanhe nem fogo de artifício, mas há recomeço.
E talvez precisemos disso.
O corpo não vive apenas pelo calendário. Vive de ritmos, de luz, de sono, de atividade e de descanso. E há ainda o tempo da vida em sociedade: aquele que nos diz a que horas trabalhar, estudar, comer, dormir, entrar e sair.
Durante as férias, esse relógio afrouxa. Depois chega setembro e queremos que tudo volte depressa ao lugar.
Mas o corpo nem sempre acompanha a pressa do calendário.
Isso percebe-se bem nos adolescentes. Nessa idade, o sono tende naturalmente a deslocar-se para mais tarde e, ainda assim, continuamos muitas vezes a exigir atenção plena demasiado cedo.
Talvez devêssemos lembrar-nos disso antes de chamar preguiçoso a um aluno sonolento às oito da manhã.
Pode ser preguiça.
Mas pode ser só cansaço.
E setembro, em Portugal, é sobretudo isto: o regresso às aulas.
Há qualquer coisa de especial numa escola no início do ano letivo.
Os corredores voltam a encher-se de barulho. Os alunos regressam maiores do que em junho. Uns chegam bronzeados, cheios de histórias, com mochila nova e sapatilhas novas.
Outros não.
E é aqui que a imagem bonita do regresso às aulas começa a ficar incompleta.
Porque a escola abre as mesmas portas para todos, mas nem todos entram por elas nas mesmas condições.
A escolaridade dos pais, o dinheiro que existe em casa, o espaço para estudar, o acesso aos livros e à cultura, as expectativas da família e até o lugar onde se cresce continuam a pesar nos percursos escolares.
Há alunos que chegam com muito.
Outros chegam com muito pouco.
Depois juntamo-los todos numa sala e chamamos-lhes turma.
Mas uma turma nunca começa verdadeiramente do mesmo ponto.
Talvez seja por isso que ensinar não possa ser apenas dar matéria.
Ensinar bem é exigir sem humilhar. É ajudar sem fazer pelo outro. É perceber a dificuldade sem baixar a fasquia.
Portugal mudou muito através da escola.
Em muitas famílias, houve uma geração que foi a primeira a concluir o ensino secundário ou a entrar na universidade. Isso mudou vidas. Mudou famílias. Mudou expectativas.
Mas as desigualdades não desapareceram.
A origem social continua a pesar.
E talvez uma das funções mais importantes da escola seja precisamente esta: fazer com que o lugar onde uma criança nasceu não determine completamente o lugar onde poderá chegar.
A escola não consegue fazer tudo.
E, às vezes, parece que lhe pedimos exatamente isso.
Que ensine, eduque, integre, resolva conflitos, promova a saúde, a cidadania, a inclusão e que, pelo caminho, cumpra programas, avaliações e burocracias.
Também os professores se cansam.
Também precisam de tempo, de condições de trabalho e de reconhecimento.
Uma escola não pode substituir uma sociedade inteira.
Mas continua a ser um dos lugares onde ainda se pode mudar alguma coisa.
Talvez seja isso que me faz gostar de setembro.
Apesar da nostalgia. Apesar dos despertadores. Apesar daquela sensação de que as férias passaram num instante.
Há qualquer coisa de bom num recomeço.
Não porque tudo vá ser diferente.
Provavelmente, não será.
Mas porque voltamos a sentir que ainda podemos fazer algumas coisas de outra maneira.
Talvez seja essa a verdadeira utilidade dos começos.
Não apagar o que ficou para trás.
Apenas dar-nos uma razão para continuar.
No fundo, fazemos em setembro aquilo que fazemos na passagem de ano.
Olhamos para trás. Fazemos contas. Lembramo-nos do que correu bem e daquilo que gostaríamos de ter feito melhor.
E seguimos.
As praias vão esvaziar-se. As mochilas voltam às costas. Os despertadores voltam a tocar.
E milhares de crianças e jovens vão entrar novamente numa sala de aula.
Uns confiantes.
Outros com medo.
Uns cheios de expectativas.
Outros apenas porque têm de ir.
Talvez valha a pena lembrarmo-nos disso quando os recebermos.
Porque setembro não é apenas o mês em que começa outro ano letivo.
Para alguns, pode mesmo ser uma oportunidade.
E talvez seja essa a melhor forma de olhar para o fim de agosto.
Com alguma saudade, sim.
Mas também com vontade de regressar.
Não para começar tudo outra vez.
Apenas para começar um pouco melhor.


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