No final de julho, ia a época dos incêndios a meio, Portugal ocupava a modesta posição de ter a maior percentagem de área ardida da Europa. Este é um lugar modesto para quem fica habitualmente no pódio do maior n.º total de hectares ardidos, num território que representa menos de 20% do espanhol e menos de 15% do francês. É obra!
Para tão “fraco” desempenho faz ao caso de que este ano o estio, por cá, está a ser manso. Não tivemos as 4 vagas de calor (até ao final de julho) dos espanhóis e franceses. Mas, mesmo assim, o grande incêndio de Bordéus com mais de 40 mil hectares, não bate o incêndio de Piódão do ano passado, com mais de 64 mil hectares ardidos.
As causas deste triste fado (português) são várias e não é por falta de informação e debate que tudo parece igual, ano após ano.
Deixando de fora os chalupas que gostam de ver a coisa a arder. Chalupas há em todo lado, mas por cá os incêndios são incomparavelmente mais graves. Por outro lado, a individualização da culpa alivia as responsabilidades políticas e estas também não são exclusivas dos políticos.
Vamos lá identificar algumas causas que nos tornam tão achacados a esta maleita:
- O que arde são os materiais finos, matos, ervas e folhas secas, ramos delgados, etc. Quem tem lareira em casa sabe que chegar fogo a um tronco não começa uma fogueira, precisamos de juntar pinhas e pequenos ramos para que isso aconteça;
- Na natureza os matos competem com as árvores e a estratégia para ocupar o território passa por se aliar ao fogo. Por exemplo, a Esteva é coberta de uma resina rica em óleos altamente inflamáveis.
Para contrariar isso, precisamos de florestas com espécies autóctones (originais da nossa floresta), maduras e com alguma dimensão. Mas, já lá vamos a esse assunto.
- O eucalipto, árvore dominante na nossa “floresta” é originária da Austrália. Ali, o eucalipto passou a dominar o espaço com a entrada dos primeiros humanos.
E qual a relação? O fogo.
Os primeiros habitantes da Austrália usavam o fogo na sua relação com o meio e com isso patrocinaram a propagação do eucalipto que também usa o fogo a seu favor para dominar o seu entorno. O eucalipto, através da sua casca (fitas) e folhas, vai propagando a grande velocidade o fogo, eliminando a concorrência.
Depois do incêndio, o eucaliptal volta a rebentar. Mesmo nos incêndios mais violentos, a árvore pode ficar com o tronco inviável, porém brota novamente pela raiz. Cada toiça pode ter uma dezena de rebentos;

- As acácias (as mais conhecidas: as austrálias e mimosas) também são originárias da Austrália. Também elas convivem bem com o fogo. Produzem milhares de sementes que germinam depois dos fogos ou da abertura de clareiras, por exemplo, quando temos cortes rasos da floresta (aqueles cortes que não deixam nada).
Isto resulta num “matagal” alto, propício a fogos muito violentos e evolução rápida. Uma verdadeira caixa de fósforos;

- Tempo, terra e vontade. A nossa floresta tem espécies adaptadas e resistentes ao fogo. O sobreiro tem uma casca (a cortiça) que quase não arde e um carvalhal maduro cria um ambiente fresco, húmido e com pouca vegetação rasteira.
Voltemos à nossa lareira, as acácias e o eucalipto ardem mais facilmente, dado que o seu crescimento rápido resulta na baixa densidade do material lenhoso. Com as fibras mais oxigenadas, arde muito mais rápido. Já com o carvalho, sobreiro e azinheira, a combustão é muito mais lenta. Tão lenta que a lenha da azinheira é matéria-prima ideal para fazer carvão.
Se tivermos vontade, podemos promover o regresso dos nossos carvalhais. Para isso precisamos de terrenos com alguma dimensão e tempo para as árvores crescer, só assim teremos uma barreira ao fogo;
- Temos um ecossistema desequilibrado. Antes da introdução da agricultura (nos tempos neolíticos) a competição entre a floresta e os matos era arbitrada pelos herbívoros de grande porte (veados, cervos, auroques entre outros), controlando o crescimento dos matos e herbáceas. Com a introdução da agricultura os animais selvagens foram sendo substituído por ovelhas, vacas, entre outros.
Na segunda metade do século XX fomos confinando estes animais a espaços fechados, de produção intensiva, e deixamos de ter no terreno estes arquitetos da paisagem.
Podemos acrescentar que, até há trinta anos, a população das aldeias limpava os matos para os usar para as camas dos animais ou como combustível de alta carga térmica. Mas esses são os tempos a que poucos querem voltar.
- Um litoral desordenado e um interior desertificado. Este é o retrato do país que temos.

O concelho de Famalicão fica do lado da desordem. A fronteira entre o campo e a cidade é indefinido e não faltam exemplos de casas dentro de espaços florestais.
A nossa sorte, sem desconsideração pelo trabalho da proteção civil, é o facto de não termos grandes contínuos florestais. O concelho de Famalicão é um mosaico caótico e densamente povoado e isso não é um terreno para incêndios de grande escala.
No entanto, há situações excecionais.
Em dois dias do mês de outubro de 2017 arderam 220 mil hectares em Portugal, o equivalente à área ardida este ano, até 11.08, em Espanha (segundo a notícia da SIC, mais de 200 mil hectares ardidos em Espanha). Nesses dois dias infernais não havia bombeiros que nos valessem, tudo ardia.
Na “floresta” famalicenses a regra é o contínuo de eucaliptos de crescimento espontâneo, onde os madeireiros fazem cortes rasos (corte de todas as árvores) o que promove o surgimento de acaciais muito densos ou a manutenção do eucaliptal anárquico. Com isto, passados 10 anos temos matas compactas com elevado risco de incêndios, de propagação rápida e violenta.
Os Verões longos, quentes e secos passaram a ser a regra, acreditando ou não nas alterações climáticas. Assim, temos de preparar o nosso concelho para os fenómenos meteorológicos extremos (ondas de calor, secas ou tempestades). Por outro lado, o respeito pelo equilíbrio e funções dos ecossistemas são fundamentais para mantermos uma qualidade de vida aceitável.
Concluindo, não teremos de repensar as prioridades da gestão autárquica? Onde e como aplicamos o nosso tempo e dinheiro?
Penso que é um bom tópico para as próximas eleições.
Seguem abaixo algumas imagens do google earth do nosso concelho, onde facilmente identificamos pontos de risco muito elevado:








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