Quando a silly season acaba, a realidade regressa

Quando estamos cansados, de férias ou simplesmente fartos de ouvir falar de problemas, talvez seja agradável encontrar uma notícia que nos faça sorrir. Nem tudo precisa de ser uma tragédia internacional ou uma discussão política interminável.

Comentários

6 min de leitura

A “silly season” é aquela época do ano em que o calor aumenta, as pessoas começam a pensar mais na praia do que no trabalho e as notícias parecem entrar oficialmente em modo de férias. Tradicionalmente associada aos meses de verão, esta expressão inglesa descreve um período em que os grandes acontecimentos políticos, económicos e sociais diminuem de intensidade e dão lugar a histórias mais leves, curiosas e, por vezes, completamente disparatadas. É a altura em que uma notícia sobre um gato preso numa árvore pode conquistar mais atenção do que o insistente pedido de demissão de Luís Neves. Afinal, há prioridades.

Durante a “silly season”, muitas pessoas estão de férias, os políticos desaparecem temporariamente dos ecrãs e até os jornalistas precisam de alguma criatividade para preencher jornais e noticiários. De repente, aquilo que normalmente seria considerado uma pequena curiosidade transforma-se na grande notícia do dia.

As redes sociais vieram tornar tudo isto ainda mais divertido. O voo picado de uma gaivota para roubar comida a um turista pode tornar-se viral em poucas horas. Enquanto isso, alguém tenta desesperadamente perceber como pagar a renda, resolver um problema no trabalho ou sobreviver ao inconstante estado do tempo de agosto. É uma curiosa demonstração das prioridades da Internet.

- Publicidade -

A “silly season” também tem um lado interessante, porque mostra como consumimos informação. Quando estamos cansados, de férias ou simplesmente fartos de ouvir falar de problemas, talvez seja agradável encontrar uma notícia que nos faça sorrir. Nem tudo precisa de ser uma tragédia internacional ou uma discussão política interminável.

No entanto, existe um pequeno perigo: transformar qualquer acontecimento banal numa grande notícia só porque não há nada melhor para contar. É assim que uma história sobre temperaturas elevadas pode transformar-se numa investigação quase científica sobre quem conseguiu fritar um ovo no passeio.

Apesar do nome, a “silly season” não significa que tudo seja absurdo ou inútil. Pode ser simplesmente uma pausa no ritmo habitual da informação, uma oportunidade para respirar e olhar para o mundo com um pouco mais de humor.

O que é facto é que este desligar e desviar do olhar sobre a realidade não faz com que ela pare.

E estas distrações surgem-nos, quando terminamos o “dolce far niente”, como realidades muitas vezes preocupantes.

Enquanto isso, Trump continua na sua vaga expansionista e conquistadora, inaugurando um novo método: o da mera proclamação. Ormuz passará a ser americano, o Canal do Panamá também será dele e a Gronelândia já lá tem uma petrolífera que se prepara para explorações não autorizadas. Anexar o Canadá e consagrar o Golfo do México como Golfo da América pairam ainda nas suas cogitações. Está aberto um ataque ao direito internacional.

A velhinha Ponte de Salazar fez 60 anos no dia 6 de agosto. Obra fulcral do antigo regime, assumiu importância revolucionária ao ligar as duas margens do Tejo e assim uniu o país. Colocou fim ao isolamento e acabou com a dependência exclusiva dos barcos para transpor o rio ao introduzir a ligação ferroviária e rodoviária.  Obra notável de engenharia, tornando-se, à data, a maior ponte suspensa da Europa e a quinta maior do mundo. Mudou de nome, mas ficou a obra.

Paulino Pereira, perito em Hidráulica e professor do IST, voltou ao tema do sério risco de o Novo Aeroporto de Lisboa ser construído numa zona sujeita a um risco significativo de cheia em caso de tempestades com chuvas extremas. A questão não passa apenas por saber se a engenharia poderá resolver o problema, mas também se, através de uma alteração da implantação, será possível evitá-lo. Lembremos o caos no Francisco Sá Carneiro, com a inundação das pistas e consequentes implicações no normal funcionamento do aeroporto, após obras de 50 milhões de euros destinadas à melhoria da drenagem das pistas. Todos temos presente a imagem de Camões segurando os Lusíadas acima da água, mas o mesmo gesto será inaplicável ao seu aeroporto.

A compra de parte da REN, após a reprivatização iniciada em 2007, retomada em 2012 e finalizada em 2014, parece estar ainda mal explicada. Se o Primeiro-Ministro justifica a compra de uma participação de 37% com o intuito de baixar o preço da eletricidade, quando bem sabe que a empresa não intervém nessa matéria, já o ministro da Presidência não conseguiu explicar de forma convincente a compra por um valor quase 20% acima do preço de mercado. Essa operação traduziu-se num bónus de 55 milhões de euros oferecido pelo Governo ao acionista, mas pago com o dinheiro dos contribuintes.

Ficamos a saber que detemos 91 723 676 ações da Rede Elétrica Nacional, correspondentes a uma participação minoritária, sem direitos estatutários especiais e adquiridas num mercado sem liquidez, circunstância que faria supor, precisamente, a compra por um valor com desconto.

Preocupante o percurso que continua a ser trilhado por Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde do EUA, no que respeita ao plano de vacinação: morrer de sarampo, num dos países mais desenvolvido do mundo, em pleno século XXI, é ignóbil!

Ao invés, no mesmo país e já aprovado pela FDA (Food and Drug Administration), o medicamento Rasonque, também conhecido como daraxonrasib, como a nova esperança para o cancro do pâncreas. Trata-se de um comprimido diário para adultos com cancro pancreático metastático que já tenham recebido tratamento prévio ou que não possam receber quimioterapia combinada.

O eclipse ocorrido a 12 de agosto, sendo um fenómeno natural é extremamente raro quando é total. Parte de Portugal teve oportunidade de assistir ao evento. O próximo eclipse solar total visível em Portugal continental só deverá acontecer a 12 de fevereiro de 2144. Para além da curiosidade e do fenómeno em si, é de registar e enaltecer o trabalho efetuado pelos Centros Ciência Viva, pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, por diversos clubes de divulgação de ciência e pelos media, que informaram, relataram, cobriram e noticiaram com rigor científico e sobretudo com elevado cariz pedagógico este fenómeno.

Eclipse parece também ter sofrido a Comissão Política de Secção do PSD de Famalicão, ao ter sido contrariada ou desautorizada, no seu intento de enfraquecer o executivo camarário. A Comissão Política Nacional veio, como lhe competia, apagar o fogo, serenar os ânimos e repor a normalidade. Falta saber se alguém terá a hombridade de assumir as consequências deste passo em falso. Parece que o caminho a trilhar seria apenas um: demissão!

Abriu ontem a 41ª Feira de artesanato. É mais um dos eventos que constam anualmente do caderno de encargos do plano festivo do concelho famalicense. Não vou repetir os números mais ou menos estratosféricos que aí são gastos. Sabendo que em Braga, a Semana Santa (29 março a 5 abril) gerou um impacto de 18 milhões de euros e a Noite Branca, em apenas 3 dias, gerou cerca de 16 milhões, deixo a sugestão para que o Município divulgue o impacto económico dos eventos que realiza: Antoninas, Feira Artesanato, Festa da Flor….

E assim, enquanto a “silly season” nos entretém com distrações estivais, a realidade continua a trabalhar e a fazer horas extraordinárias. Talvez seja esse o verdadeiro problema: quando regressamos do “dolce far niente”, descobrimos que o mundo não esteve de férias.

Comentários

Notícia anterior

Feira de Artesanato e Gastronomia arranca hoje com maior orçamento de sempre

- Publicidade -
O conteúdo de Notícias de Famalicão está protegido.