“A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.”
Oscar Wilde
Há frases que atravessam o tempo porque dizem, com uma simplicidade desconcertante, aquilo que muitas vezes aprendemos apenas depois de muitos anos de vida.
Esta frase de Oscar Wilde é uma delas.
Não porque devamos aceitar que toda a nossa vida se faça de inimigos ou que a mediocridade seja o preço inevitável da popularidade. Mas porque existe nela uma verdade incómoda: quando escolhemos ter princípios, assumir responsabilidades e agir de acordo com aquilo em que acreditamos, nem sempre seremos compreendidos, nem sempre seremos reconhecidos e, algumas vezes, seremos até afastados por aqueles a quem dedicámos a nossa lealdade.
A vida ensina-nos isso.
Há pessoas a quem damos tempo, confiança, amizade e disponibilidade. Há instituições às quais entregamos anos de trabalho, dedicação e compromisso. Há causas que defendemos quando seria muito mais cómodo permanecer em silêncio. Fazemo-lo muitas vezes sem esperar recompensa, convencidos de que a lealdade, a amizade e a gratidão são valores que, mais tarde ou mais cedo, serão reconhecidos.
Mas nem sempre são.
E talvez seja essa uma das maiores desilusões que a idade nos traz, perceber que a dedicação não garante gratidão, a lealdade não garante lealdade e uma história de serviço não constitui, por si só, uma proteção contra o esquecimento ou a ingratidão.
Há momentos em que nos sentimos traídos.
Não necessariamente porque alguém nos tenha feito uma grande injustiça pública. Às vezes, a traição manifesta-se de formas muito mais silenciosas, uma porta que se fecha, uma palavra que deixa de ser dita, uma decisão tomada à nossa revelia, uma amizade que desaparece quando já não somos necessários, uma instituição que esquece rapidamente quem esteve presente quando dela precisou.
São momentos dolorosos, sobretudo quando vêm de pessoas ou instituições que servimos durante muitos anos.
Mas também são momentos de aprendizagem.
Com o passar do tempo, compreendemos que não devemos medir o valor daquilo que fizemos pela forma como os outros nos retribuíram. Se fomos leais, fomos nós que escolhemos ser leais. Se trabalhámos com dedicação, fomos nós que decidimos trabalhar assim. Se ajudámos, foi porque entendíamos que ajudar era o correto.
A ingratidão dos outros não transforma em erro aquilo que fizemos de bem.
Talvez esta seja a melhor forma de enfrentar certas desilusões, não negar a dor, mas não permitir que ela nos transforme naquilo que criticamos.
Quem foi traído pode tornar-se desconfiado. Quem foi esquecido pode tornar-se indiferente. Quem foi injustiçado pode começar a procurar vingança. Mas existe uma liberdade maior, continuar a ser quem somos, sem permitir que o comportamento dos outros determine a nossa maneira de estar na vida.
Também aprendi que não devemos confundir popularidade com valor.
Ser aceite por todos pode ser confortável, mas raramente exige coragem. Ter uma opinião, defender uma convicção, dizer aquilo que pensamos ou recusar determinadas conveniências pode custar amizades, lugares e reconhecimento.
E talvez seja esse o preço de não querermos ser medíocres.
Ao olhar para trás, não quero fazer um inventário das pessoas que me desiludiram nem das instituições que, em determinado momento, me fizeram sentir injustiçado. A vida é demasiado curta para viver prisioneiro desse balanço.
Prefiro olhar para aquilo que dei.
Para o trabalho realizado.
Para as amizades verdadeiras que permaneceram.
Para as pessoas que, apesar de tudo, não esqueceram.
Para as causas em que acreditei.
Para os momentos em que procurei fazer o que considerava certo.
E sobretudo para a consciência tranquila de ter procurado cumprir o meu dever.
Porque há uma coisa que os anos nos ensinam, nem todas as pessoas que caminham connosco fazem parte verdadeiramente da nossa história. Algumas apenas passam por ela. Outras ficam. E são essas que devemos guardar.
Quanto às restantes, talvez seja melhor deixá-las no lugar onde ficaram.
Há momentos na vida em que precisamos simplesmente de seguir em frente.
A marca deixámos, que seja a de uma vida vivida com trabalho, lealdade, liberdade de pensamento e dignidade.
E se essa maneira de viver algum dia nos trouxe incompreensão ou até alguns inimigos, talvez seja um preço que valeu a pena pagar.
Porque pior do que perder a aprovação dos outros seria perder o respeito por nós próprios.


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