Como o mosteiro de Requião desapareceu e se transformou em igreja paroquial

A atual igreja paroquial nasceu de um mosteiro medieval e, muito antes da criação do concelho de Vila Nova de Famalicão, Requião já desempenhava um papel relevante na organização religiosa do território.

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A igreja paroquial de Requião numa imagem da imprensa de 1941.

Na crónica anterior percorremos as origens do mosteiro de São Silvestre de Requião, desde a sua fundação, em pleno século XI, até à sua integração na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Vimos como esta pequena comunidade religiosa se afirmou na antiga “Terra de Vermoim”, acompanhando as transformações da Igreja medieval e sobrevivendo durante mais de três séculos. Mas nenhuma instituição é eterna. Nesta segunda parte acompanharemos os acontecimentos que conduziram ao desaparecimento do mosteiro, a sua transformação em igreja paroquial e a forma como esse legado continua ainda hoje visível na paisagem e no património de Requião.

Durante mais de três séculos, o pequeno mosteiro de São Silvestre de Requião resistiu às profundas transformações políticas e religiosas que marcaram a Idade Média peninsular. Sobreviveu às reformas da Igreja, adaptou-se à Regra de Santo Agostinho e continuou a desempenhar um papel relevante na antiga “Terra de Vermoim”. Porém, na primeira metade do século XV, o destino desta comunidade monástica alterou-se de forma irreversível.

Ao contrário do que sucedeu com muitos outros mosteiros da região, tudo indica que o mosteiro de Requião não entrou em declínio por dificuldades económicas. Pelo contrário, manteve até aos seus últimos anos uma posição respeitável no seio da arquidiocese de Braga. Os seus priores continuavam a ser chamados a exercer funções de confiança ao serviço do arcebispo, sinal evidente de que o mosteiro permanecia plenamente integrado na organização diocesana.

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Um desses exemplos é o do prior D. Rodrigo Esteves, incumbido em 1421, de executar uma importante sentença pontifícia relativa à reorganização do cabido da Sé de Braga. Pouco tempo depois, outro prior de Requião, D. Gonçalo Vasques, surge igualmente associado por determinação papal a assuntos da administração eclesiástica. Estes episódios demonstram que a pequena comunidade de Requião estava longe de viver isolada ou esquecida pelas autoridades diocesanas.

Então surge naturalmente a pergunta: se o mosteiro gozava de prestígio e mantinha um papel ativo na diocese, porquê o seu desaparecimento? A documentação conhecida aponta para uma hipótese que, embora não possa ser provada de forma definitiva sem recorrermos a uma investigação mais detalhada, se revela bastante plausível: o impacto das sucessivas epidemias de peste.

É por todos conhecido que entre os séculos XIV e XV, estas crises sanitárias provocaram uma forte quebra demográfica em toda a Europa e atingiram igualmente numerosas comunidades religiosas. A peste Negra foi apenas uma das muitas pestes que assolaram a Europa. Num mosteiro de reduzidas dimensões, bastaria a morte de alguns cónegos para comprometer a continuidade da vida conventual, tornando impossível reunir o número mínimo de religiosos necessário para eleger um novo prior e assegurar o funcionamento da comunidade.

É neste contexto que ganham particular significado as deslocações do arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, a Requião, nos anos de 1430, 1432 e 1433. Embora as fontes não indiquem expressamente o motivo dessas visitas, é expectável admitir que estivessem relacionadas com a situação delicada que o mosteiro vivia e com as diligências destinadas a decidir o seu futuro.

A decisão chegou em 1433. Com autorização do pontífice, D. Fernando da Guerra declarou oficialmente extinto o mosteiro de São Silvestre de Requião, transformando-o numa igreja secular curada. Terminava, assim, uma presença monástica com vários séculos de existência, profundamente ligada à vida religiosa das populações em redor. Contudo, o desaparecimento do mosteiro não significou o fim do culto. A antiga igreja conventual passou a assumir a função de igreja paroquial curada, sendo o primeiro pároco, o presbítero João Lourenço, capelão do conde de Barcelos, D. Pedro. Entre as suas responsabilidades figuravam a celebração das missas dominicais e dias de guarda, bem como uma missa semanal pelos fiéis defuntos e uma outra em honra do Espírito Santo, garantindo deste modo, a continuidade do culto apesar do desaparecimento da comunidade monástica.

Somente nos inícios do século XVI é que voltamos a ter notícias do antigo mosteiro de S. Silvestre de Requião quando foi incluído no lote das comendas novas de D. Manuel. Enquanto rei e mestre da Ordem de Cristo, D. Manuel procurou aumentar o número de comendas destinadas a recompensar cavaleiros pelos serviços prestados à Coroa, sobretudo no contexto da expansão portuguesa no Norte de África.

Mas o que eram estas comendas? Tratavam-se de benefícios concedidos pela Ordem de Cristo, através dos quais antigas instituições religiosas, às quais estava obviamente associado um património fundiário gerador de rendimentos, eram integradas num sistema afeto ao rei, que as distribuía naquilo que alguns autores designam por “economia da mercê”.

A integração de Requião neste processo encontra-se bem documentada. No dia 26 de maio de 1515, representantes régios deslocaram-se à freguesia para proceder à tomada de posse da nova comenda em nome da Ordem de Cristo. Esperavam-nos o capelão Rui Lopes, o prior Simão Pires e vários moradores que reconheceram formalmente a autoridade de D. Manuel I enquanto Senhor e mestre da Ordem. A partir desse momento, os rendimentos da antiga igreja e do património associado ao extinto mosteiro passaram a integrar os bens da Ordem de Cristo, ficando estabelecido o pagamento anual de 78 ducados de ouro ao futuro comendador que o rei nomearia.

Apesar desta mudança institucional, o edifício conservou durante muito tempo a fisionomia herdada do período conventual, a que se foram acrescentando algumas estruturas, necessárias às novas funcionalidades exigidas pela comenda.

A igreja de Requião numa imagem de 2017. foto NOTÍCIAS DE FAMALICÃO

A igreja manteve a sua planta simples, de nave única, característica dos pequenos mosteiros medievais. Só no século XVIII, quando a população da freguesia aumentou significativamente, se tornou evidente que aquele espaço já não respondia às necessidades dos paroquianos.

As visitas pastorais dessa época são particularmente elucidativas. E os livros das visitações que se encontram no arquivo paroquial constituem um verdadeiro deleite para aqueles que se interessam pelo pulsar do passado. Neles, os visitadores referem repetidamente que a igreja era demasiado pequena para acolher todos os fiéis, chegando a afirmar que bastava cerca de um terço da população da freguesia para a encher completamente.

Esta realidade levou ao alargamento da igreja em 1756, através do acrescento de uma segunda nave no lado Norte, conferindo-lhe parte da configuração que ainda hoje conserva. A responsabilidade destas obras coube ao então reitor Gabriel Francisco de Araújo Vale, que paroquiou a freguesia durante 54 anos (entre 1730-1784) e cuja ação em prol de Requião merece, por si só, uma crónica própria. Mas isso ficará, quem sabe, para outras núpcias, ocasião em que daremos a conhecer melhor este sacerdote, natural da freguesia de Telhado, onde nasceu em 1703, e detentor de uma caligrafia de rara beleza.

Apesar das transformações arquitetónicas, alguns vestígios do antigo mosteiro sobreviveram ao passar dos séculos. Um dos mais significativos encontra-se junto à torre sineira: um arco medieval apontado que fazia a ligação entre a igreja e as antigas dependências conventuais, permitindo a circulação dos cónegos sem necessidade de atravessar o adro. Durante muito tempo este acesso permaneceu oculto, tendo sido redescoberto nas obras de requalificação realizadas no final do século XX.

São sinais discretos, mas suficientemente expressivos para recordar que a atual igreja paroquial nasceu de um mosteiro medieval e que, muito antes da criação do concelho de Vila Nova de Famalicão, Requião já desempenhava um papel relevante na organização religiosa do território.

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