O Marito é maroto

E à terceira semana, o cisma político local conheceu o seu fumo branco. Acabou como começou, com o proscrito a ser novamente entronizado. Podia ser o anticlímax, mas o que parece mesmo é a velha máxima do futebol (o que hoje é verdade…). Nada mau para a época tonta, nada mau mesmo. Mas deixo o alerta: a notícia de que ficaram amigos como dantes é capaz de ser manifestamente exagerada.

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Sejamos francos: Mário Passos vem actuando com a argúcia política de um hipopótamo a marcar território (se não sabem como é, uma pesquisa rápida no google dá a resposta). Não é de agora, é desde sempre. O que surpreende é como ainda se surpreende ele por ter poucos amigos.

O mais interessante em todo este enredo, para além da maleabilidade de algumas espinhas (mas isso já era sabido, e vale para ambos os lados), foi a cobertura que a imprensa local lhe deu. Absolutamente transparente no que toca à lisura de processos. Achei fofo, elegante até: é da maneira que nos dispensa a nós de termos de fazer a destrinça.

Repare-se: o PSD-F põe cá fora um comunicado no dia 31 de julho. Do comunicado tiram-se três coisas: uma, que a direcção nacional do partido reuniu a 20 de julho (em Braga) com as partes desavindas e impôs a revogação da retirada de confiança política da concelhia ao executivo camarário; duas, que a proposta do executivo camarário para homenagear os 50 anos de poder autárquico deve prevalecer sobre a proposta da oposição que vinha sendo apoiada pela concelhia do PSD; três, que doravante o executivo camarário se compromete a auscultar as orientações da concelhia do PSD, sempre e quando entenda esta que deve ‘sugerir’ coisas.

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[Passemos de largo sobre os dez dias que mediaram a reunião e o comunicado sobre a reunião. Mais parece que uma das partes andou a rabiar o mais que pode para se desamarrar do compromisso. Qual delas? Deixo uma pista: será que foi aquela à qual a generalidade dos ‘analistas’ deu uma vitória retumbante? Estranho, não é? Seria o caso de ter ele ficado menos contente do que os ‘analistas’…]

Não sei o que o distinto leitor acha disto, mas a mim parece-me aquele caso clássico em que se dá uma no cravo e outra na ferradura. E também mal seria: estava a imagem do partido em causa, depois do mal feito tinham de compor o aparato para que todos pudessem sair do atoleiro com um mínimo de dignidade política.

E nem será tanto assim, ou acaso repararam, como eu reparei, que um caso destes, com uma das maiores concelhias do maior partido português a retirar a confiança política ao presidente de câmara em exercício já no seu segundo mandato, passou praticamente despercebida na comunicação social nacional?

Eu sei: para as televisões e jornais generalistas, o país termina ali mais ou menos em Torres Vedras. Mas mesmo assim, mesmo assim: se provas fossem necessárias de que os actores políticos de Famalicão são de segundíssima categoria, aí a têm, e é só mais um exemplo. Certas omissões gritam mais do que campanhas, cartazes e distinções mais ou menos encomendadas.

[o terceiro concelho mais exportador do país, diz-vos alguma coisa? Já agora, o segundo é Palmela… e o que é que nós sabemos de Palmela, alguém aqui ao menos sabe qual é o partido que governa a câmara de Palmela?]

Mas sim, claro que Mário Passos respira melhor desde o dia 31 de julho. Para já, quebrou o serviço ao adversário e tem a iniciativa do seu lado do court. Para já. O que não percebo é a necessidade que alguns logo tiveram de vir fazer a autópsia do caso desta forma assaz peremptória e definitiva.

Parece-me aquele caso clássico em que se dá uma no cravo e outra na ferradura

Quer dizer, perceber, não percebo. Vou é tendo uns palpites. Uma barrigada de publicidade paga ajuda sempre a abrir a pestana. Ainda bem que é assim. E de pestanas abertas, o que é que a nossa excelsa comunicação social local teve a dizer sobre o volte-face do caso político do ano?

Em traços gerais, o tom dominante é o de uma retumbante vitória de Mário Passos. Ou seja, leram o comunicado do PSD apenas pela metade. A metade que mais convém a quem manda. A quem paga publicidade institucional.

Nós, não. Mais aumenta a convicção de que, não fosse o ‘Notícias de Famalicão’, esta cidade e este concelho seriam a terra do leite e do mel. Todos viveriam na paz do Senhor dos Passos. Claro que podem sempre dizer que é por não estamos na lista de pagamentos. Nós gostamos de pensar que é porque nascemos virados para o mal. É bem verdade que preferimos ver o copo meio vazio. Parecendo que não, ser incrédulo por opção poupa uma pessoa a muitas desilusões desnecessárias, vida fora…

Mas voltando aos nossos companheiros de cobertura noticiosa. Eu acho isto especialmente engraçudo (engraçado é pouco) porque uma e outra vez se prova que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

O ‘Cidade Hoje’ é a voz do dono e nem vale a pena perder tempo com ele. Mas tomemos como exemplo o ‘Opinião Pública’: desde que se arvora em paladino da liberdade de imprensa, pela-se por estes temas que se adivinham ingratos para a vereação de Mário Passos. É um frenesim, quase um transe, pois sente-se ali um sentido de missão que o ‘Opinião Pública’ cumpre com denodo e aquele grau de desumanidade a que só os convertidos da vigésima quinta hora ascendem.

Tem um problema: como andou anos a viver placidamente à sombra do orçamento municipal, criou gorduras e estrias que agora lhe travam os movimentos. Perdeu faro. É assim, a disciplina não se alcança com um bocejo, é preciso nervo, é preciso rasgo!

A lista de temas fraturantes que o ‘Opinião Pública’ ostensivamente descuidou é tão extensa que não caberia num único parágrafo. Poupar-me-ei à maçada de os elencar aqui. Depois aconteceu o ‘Efe’ e o ‘Opinião Pública’ lá ganhou o gosto a um arremedo de análise crítica à actividade da vereação em exercício. Melhor assim.

Mas não deixa de ser irónico que o mesmo jornal que, às vésperas das últimas eleições autárquicas, adiava sine die a publicação de crónicas por ‘falta de espaço’, ande agora a tentar ‘contratar’ cronistas doutras casas, com base na promessa mirífica do seu empenhamento cívico.

Outro exemplo deveras interessante é um novo ‘projecto’ noticioso digital que acabou de dar à costa, o ‘Canal 360’. Chamo-lhe projecto porque, tanto quanto sabemos e até há bem poucos dias, não se encontra registado como órgão de comunicação social na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Falta de tempo, talvez…

O ‘Canal 360’ decidiu dar uma nova dimensão ao conceito de seguidismo. Fez isto: entrevistou o presidente da concelhia do PSD acerca do caso da retoma de confiança política e depois pediu ao presidente da câmara para comentar as respostas que o presidente da concelhia do PSD tinha dado. E publicou as duas ‘entrevistas’ com exactamente 46 minutos de diferença. Que tal isto, para engajamento político? Muito bom. Muito bom mesmo. Do melhor que há.

Até porque o senhor presidente da câmara, avesso como é a dar cavaco a perguntas de jornalistas (vão por mim, nós sabemos…), foi logo responder em entrevista num domingo de estio. Que furo! Ficamos oficialmente impressionados.

Bom, isto é assim. Estas estratégias de comunicação são um tanto ou quanto pacóbvias, e que sirvam ao menos para isso: oferecer novas palavras à língua portuguesa. Mas quem sabe se não é em Famalicão que finalmente resultam? A luta está na rua e vai valer tudo, inclusive tirar olhos. Isto não está para amadorismos. O presidente da concelhia do PSD que não trate de vida, não!

Vai Mário Passos ser o candidato do PSD à câmara de Famalicão em 2029?

Quanto à substância do caso, e se é que isso importa para alguma coisa… O que os nossos concorrentes se obstinaram em não descortinar foi isto: será preciso repetir que o hipopótamo, na sua sanha de demarcação territorial, não deixa nada intocado à sua volta? Todos se sujaram nesta história, e daqui por diante será só questão de esperar pelas cenas dos próximos capítulos. Eles, felizmente, odeiam-se.

Estamos apenas numa estação intermédia de um longo caminho de provações e acrimónia. A última estação, a única que importa, é a que responde a esta pergunta: vai Mário Passos ser o candidato do PSD à câmara de Famalicão em 2029?

Esquematizemos: Mário Passos é uma criação de Paulo Cunha, que perdeu a distrital de Braga do PSD para Carlos Reis, que está alinhado com a concelhia de Famalicão, que foi instrumental na derrota de Paulo Cunha. Percebem? O ciclo fecha-se.

Agora uma variante: Paulo Cunha era apoiado por Hugo Soares que agora ‘interveio’ para sanar a disputa da concelhia com Mário Passos.

E, portanto: no que depender dos seus correligionários de Famalicão e Braga (distrito), Mário Passos está bem (mal) encomendado para 2029.

Tem três válvulas de escape. Uma são as eleições para a concelhia de Famalicão do PSD, que acontecem em 2027. Se a lista patrocinada por Mário Passos (óbvio que vai fazer uma lista…) perder a eleição para a concelhia, logo nessa altura ficará a saber que lhe toca o caminho das pedras para ser indigitado à candidatura de 2029.

Não nos deixemos é toldar pela modorra do estio. Ainda estamos em agosto de 2026 e já é bem consabido como empresários, assessores da vereação e presidentes de junta trabalham afincadamente para angariar novos militantes junto de funcionários, avençados e quem mais vier à rede… É como eu dizia, isto não está para amadores e o presidente da concelhia do PSD, se se deixa dormir, ainda acaba a comer o sono.

Outra são as eleições para a distrital de Braga do PSD, que ocorrem em 2028. Nas últimas, quem fez a diferença foram Barcelos (a terra natal de Carlos Eduardo Reis deu-lhe uma vitória esmagadora) e Famalicão (a terra natal de Paulo Cunha deu-lhe uma vitória pouco expressiva). O bem que tem é que os mesmos novos militantes que haverão de conduzir o partido ao redil na concelhia também votam para a distrital. É o chamado dois em um.

A terceira, a que verdadeiramente importa, é o respaldo da direcção nacional. Enquanto reinar a dupla maravilha Hugo Soares-Luís Montenegro, Mário Passos viverá de costas folgadas. E a fazer caretas para os coleguinhas da concelhia… que lá maroto é ele! Mas no fim de contas, a pergunta para um milhão de euros é só uma: será que Montenegro sobrevive até 2029?

Já vi isso mais perto de acontecer. Eu não dormiria assim tão descansado.

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