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Domingo, 28 Novembro 2021
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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

Serve a literatura para alguma coisa?

A literatura tem o poder de dar um toque especial no retrato, de embelezar, de dar uma nova visão às várias visões que já existem.

7 min de leitura
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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.

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“Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras.
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs a sua alma confiada”
– Sophia de Mello Breyner Andresen, in Com fúria e Raiva (da obra O Nome das Coisas)

O que é a literatura? Para que serve a literatura? Porquê Literatura Circular? Eis algumas velhas (ou atuais) questões que são passíveis de serem postas por qualquer pessoa, seja essa pessoa entendida ou leiga na área da Literatura e das áreas que dela descendem e ramificam. Sendo esta crónica a primeira da rubrica “Literatura Circular”, não pretendo me alongar nesta crónica, tentando não maçar o leitor sobre questões profundas que estão vitaliciamente condenadas a ser questões sem resposta certa.

Tratando também de uma rubrica de crónicas, as mesmas irão tentar fugir ao máximo ao tom erudito (embora eu tenha de citar para dar alguma seriedade àquilo que escrevo) e se cingirão a ser apenas expressão de pensamentos literários da minha parte, pelo que não vejo necessidade de se estar a olhar para a literatura de uma forma meramente académica (algo que até se revelaria nocivo para a própria compreensão da literatura).

Desde cedo que sou uma pessoa apaixonada por livros. Apesar de ser das poucas pessoas na família que lêem (não fosse a minha área de formação académica a literatura), a minha paixão por livros foi instigada pela minha família, nomeadamente a minha mãe que me levava à biblioteca municipal quando eu era criança para eu passar tardes a (tentar) ler obras de Camilo Castelo Branco. Desde então, ainda que com alguns hiatos, a literatura e a ciência estiveram presentes no meu crescimento e formação.

Vivendo eu em Portugal, um país pouco dado à cultura, muitas vezes me deparo com pessoas a me pedirem para lhes definir “literatura” e lhes explicar o sentido e a utilidade da mesma, pedidos esses que, mesmo após anos de estudo de literatura, não sou capaz de satisfazer. Acredito que muitos investigadores e professores dariam respostas diferentes e vagas no meu lugar. Lembro de, uma vez, uma senhora me dizer que não sabia mesmo o que era literatura, que nunca tinha ouvido falar de tal coisa, algo que achei absolutamente encantador e que ainda hoje me assalta a consciência.

Contudo, tenho algumas ideias para partilhar sobre estas questões. Primeiramente, creio que a literatura deveria ser vista como uma representação. De quê? De uma realidade, de uma visão, de uma miragem. Acima de tudo, a literatura, conta-nos uma realidade (apesar de, por vezes, também a poder distorcer). “Como é que Ela nos conta essa realidade?” – poderá o caro leitor estar a questionar-se. Minha resposta é simples: Ela retrata da mesma forma como o desenho retrata uma realidade, da mesma forma como a pintura retrata uma realidade.

No entanto, em vez de usar traços e cores, a literatura usa palavras para o seu retrato, algo que a torna mais “penetrante”, mais “periclitante”. As palavras são definitivamente poderosas, quer queiramos quer não. Consoante o seu modo de emprego, elas mudam estados de espírito, elas mudam ações, elas mudam o curso de uma civilização. A história comprova-nos isso facilmente.

A poetisa norte-americana Ella Wheeler Wilcox (1850-1919) dizia no seu poema “A Palavra” que  a palavra “era uma jóia, ou uma pedra, ou uma canção, / ou uma chama, ou uma espada de dois gumes”. Não obstante, o poeta brasileiro Drummond de Andrade (1902-1987) dizia também que “certas palavras não podem ser ditas / em qualquer lugar e hora qualquer / (..) devem ser sacralmente pronunciadas / em um tom muito especial…”. Perante estes dois testemunhos, podemos ter a certeza do poder que as palavras têm e da força que a literatura ganha ao usá-las como seu veículo de expressão.

Para além de tudo, apercebo-me de que a literatura tem uma vantagem sobre outros campos mais concretos como a história ou a estatística ou outras: o poder da ficção. No seu retrato de uma realidade, a literatura tem o poder de, através da ficção, embelezar, de deslumbrar, de ornamentar. Poesia é um belo exemplo disso. A constante quebra das normas convencionais da escrita, as várias dimensões empregues nas palavras, os significados, as sensações… são tudo formas de embelezar e deslumbrar quem lê. Caso contrário, o texto literário seria algo seco, sem interesse.

A literatura tem, então, o poder de dar um toque especial no retrato, de embelezar, de dar uma nova visão às várias visões que já existem, algo que, por exemplo, a história não tem. Na história, o campo de visão é limitado. Na literatura, não é. O retrato histórico é um retrato cru e direto. O retrato literário é um retrato indireto, charmoso e épico. Ann Rigney, investigadora e professora universitária holandesa, fala-nos em “A Dinâmica da Lembrança” que a ficção tem absoluta liberdade para inventar e abrilhantar a sua narração dos factos, criando-se uma história mais épica e memorável e menos insossa do que a história real das coisas. Como dizia o filósofo franco-argelino Albert Camus: “A Ficção é a mentira através da qual contamos a verdade”.

No fundo, é essa a vantagem que eu vejo na Literatura: o poder de contar uma boa história que, mesmo que tenha contornos trágicos, consegue ter um final feliz e uma mensagem moral positiva. O poder de contar histórias como o Pedro e o Lobo e o Capuchinho Vermelho que, com todos os contornos menos bons, conseguem deslumbrar uma criança e ensinar-lhe algo de bom no meio de coisas más. Como diz um poema de Manuel Alegre, “há sempre uma candeia / dentro da própria desgraça”.

No entanto, por que nem tudo são rosas, a literatura também pode contar através da ficção boas histórias com finais menos bons (ou trágicos até). São exemplos deste poder obras como “A Pérola” (de John Steinbeck), “Cidade de Vidro” (de Paul Auster), “Carta de uma Desconhecida” (de Stefan Zweig), etc.

No fundo, se a literatura serve realmente para algo, eu diria então que a mesma serve para nos ensinar a Humanidade, para nos lembrar da nossa finitude, da nossa inconstância, da nossa tão perfeita imperfeição. “A ficção revela a verdade que a realidade obscurece” – já dizia o transcendentalista Ralph Waldo Emerson.

Em jeito de conclusão (para a crónica não ser demasiado longa e o leitor adormecer), o título da rubrica “Literatura Circular” pode ser vista como um trocadilho feito com o termo “Economia Circular” (que os economistas e neoliberais me perdoem se eu estiver a usar mal o termo). Assim como a economia circular pretende reciclar e implementar uma produção mais sustentável, também a literatura pode ser circular.

Aliás, a literatura é mais naturalmente circular do que a própria economia. Quantos livros premiados com grandes prémios literários atualmente não se inspiraram noutros livros mais antigos (sobretudo clássicos) que continham ideias consideradas como “lixo” e em fim de vida? Não é por acaso que, no meio literário, se costuma dizer que não “não há criação sem imitação”. É isso que pretendo com esta rubrica: “circularizar” a literatura, aproveitar o que está “em fim de vida” e trazer para os leitores, sempre com o objetivo de formar cultivar os leitores com este revivalismo.

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Raphael de Souza
Nasceu em 1997 em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas e Literaturas Europeias pela Universidade do Minho, onde está atualmente a redigir uma dissertação de mestrado sobre Literatura Afroamericana. Apaixonado pela literatura desde cedo, começou a escrever poesia aos 15 anos. É co-fundador do projeto Sarcasmos Irónicos, que visa dar palco a novos escritores.
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