Moradores da Rua da Liberdade dizem-se abandonados pela Câmara de Famalicão

Na tertúlia de homenagem a Salvador Coutinho, o planeamento urbano da Câmara de Famalicão foi alvo de críticas contundentes. Moradores da Rua da Liberdade afirmaram sentir-se abandonados pelo município, num momento que mereceu aplausos de um auditório praticamente cheio.

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O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Mário Passos, não foi à homenagem ao advogado e poeta Salvador Coutinho e conseguiu evitar uma situação incómoda. Fez-se representar pelo seu vice-presidente, Pedro Oliveira, que se sujeitou a ouvir o que estaria longe de imaginar: muitas críticas à falta de investimento municipal na Rua da Liberdade e vias adjacentes, na zona poente da cidade, nas imediações da estação ferroviária de Famalicão.

Tudo aconteceu na tarde de sábado, 25 de abril, na Fundação Arthur Cupertino de Miranda, durante uma tertúlia sobre a Rua da Liberdade, onde Salvador Coutinho viveu 12 anos, entre 1945 e 1957, ou seja, durante a adolescência e juventude  [ver notícia Salvador Coutinho, o advogado amigo dos trabalhadores, é homenageado em Famalicão].

A tertúlia integrou o programa da associação cívica Memória Viva de homenagem a Salvador Coutinho, da qual constou a apresentação pública do seu novo livro de poemas “Era Uma Vez uma História que Não Sabia Contar-se”, da Elefante Editores [ver notícia Casa da Memória Viva homenageia Salvador Coutinho].

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“ALGUMA COISA DE ERRADO SE PASSOU”

José Costa, um dos amigos de Salvador Coutinho que viveu na Rua da Liberdade durante 40 anos, ainda hoje se lembra “muito bem dos barbeiros, dos sapateiros, dos alfaiates” que ilustravam o movimento comercial daquela artéria que em meados do século passado dava acesso à estação ferroviária e era servida pelos autocarros da Viação Auto-Motora, no circuito Famalicão-Barcelos, da empresa bracarense António Magalhães & C.ª, Lda., que foi nacionalizada em 1974 e integrada na Rodoviária Nacional.

Neto do dono de uma padaria que integrava mercearia e talho, António Neves de Carvalho, antigo funcionário municipal do setor do ambiente, embora nunca tenha vivido na Rua da Liberdade, frequenta a rua há mais de 50 anos por razões familiares.

“Entre o Largo da Liberdade e o posto da PSP de Famalicão, a Rua da Liberdade tem apenas 250 metros de comprimento. Sempre teve casas relativamente pequenas e modestas e conseguiu ter duas mercearias, duas padarias, duas tascas, dois sapateiros, uma barbearia, uma loja ligada às confeções, um restaurante, uma funilaria, uma farmácia e outros pequenos negócios. Também tinha uma fábrica têxtil, chamada Sebastião Ferreira Mendes, que ocupava uma frente de 50 metros, que chegou a empregar mais de 300 pessoas, mas que fechou as portas e que está ao abandono. Hoje, 60 anos depois, a Rua da Liberdade está reduzida a umas casas velhas, duas ou três casas recuperadas, perdeu a parte comercial e habitacional. E estamos a falar de uma rua que está a outros 250 metros do centro da cidade”, declarou Neves de Carvalho. E, ao procurar uma explicação, acrescentou: “Alguma coisa de errado ali se passou”.

“PODE TRANSMITIR AO PRESIDENTE…”

Neves de Carvalho notou ainda a existência do armazém de distribuição alimentar, da empresa Lopes & Companhia, ligada ao comércio por grosso, nomeadamente de cereais, farinhas e mercearias. No auge do transporte de carga por comboio, estes armazéns eram os pulmões do comércio regional. Atualmente, desse antigo armazém de distribuição sobra as paredes em ruínas.

“É pena que aquele local, que foi muito próspero, que esteja abandonado desta maneira. Está ali o senhor vice-presidente da Câmara, que, se quiser, pode transmitir isto ao senhor presidente. Estamos a falar de urbanismo e de planeamento. As poucas pessoas que vivem naquela zona da cidade merecem outro tipo de olhar, merecem uma rua de cidade”, defendeu Neves de Carvalho, muito aplaudido por uma plateia que enchia o auditório da Fundação Cupertino de Miranda.

O momento foi testemunhado por dois antigos presidentes da autarquia: Agostinho Fernandes, que se cruzou com Salvador Coutinho na política, e Armindo Costa, que na década de 1960 fora colega de trabalho de Coutinho na fábrica de pneus Mabor. O vice-presidente, Pedro Oliveira, que já tinha feito a sua intervenção centrada na figura de Salvador Coutinho, ouviu o repto de Neves de Carvalho, mas não fez qualquer comentário.

“PESSOAS MERECEM TRATAMENTO DIFERENTE”

O tema da degradação urbanística e comercial da Rua da Liberdade inspirou também a moradora Júlia Martins, filha dos fundadores da Padaria Madrugada. “A Rua da Liberdade tinha muito movimento, muito comércio. Hoje isso passou à história e é pena porque se trata de uma rua que está praticamente no centro de Famalicão. Em menos de 60 anos as coisas alteraram-se profundamente. Estamos na zona urbana da cidade, mas estamos deixados ao abandono. As pessoas que lá resistem mereciam um tratamento diferente. Muitas pessoas deixaram a rua e falta o brilho de outrora. Não sei os motivos, mas é pena que uma rua que está tão perto do centro da cidade esteja votada ao abandono. Era bom que a Câmara olhasse para nós um bocadinho diferente”, afirmou Júlia Martins.

Vítor Paneira, antigo jogador do FC Famalicão, do Benfica e da seleção portuguesa de futebol, cuja família chegou a ser proprietária do Restaurante Vai ou Racha, também participou na tertúlia e confessou que os relatos que tinha acabado de ouvir lhe davam “pena”: “Tenho grandes recordações da Rua da Liberdade, onde jogava à bola com os amigos. Fui muito feliz naquela rua”, recordou Vítor Paneira.

“FAMALICÃO TEM DE OLHAR PELA HISTÓRIA”

“Famalicão tem de olhar pela sua história. Famalicão tem um desenvolvimento industrial simplesmente fantástico, mas o seu desenvolvimento cultural não acompanha. A Rua da Liberdade e a Rua Direita deveriam ser dois emblemas de Vila Nova de Famalicão e da sua história”, afirmou, por seu turno, Salvador Coutinho, tendo revelado que há dias foi ver como estava a rua onde vivia há 70 anos e “foi um choque”.

Salvador Coutinho – que também foi desportista, tendo feito parte da equipa principal de hóquei em patins do Famalicense Atlético Clube (FAC) – foi a figura central de uma tertúlia de moradores ou antigos moradores da Rua da Liberdade, artéria que, simbolicamente, ilustra a capa do livro com uma fotografia antiga. O advogado, natural de Espinho, passou a residir em Famalicão por motivos de saúde: o iodo da praia de Espinho causava-lhe problemas respiratórios e a freguesia de Calendário transformou-se no seu porto de abrigo.

Os pais, que tinham uma farmácia em Espinho, criaram, a Farmácia Calendário e Salvador Coutinho instalou-se com a família na Rua da Liberdade, onde viveu 12 anos, que ele qualificou como “verdadeiramente empolgantes, quer pelas coisas boas que me aconteceram na vida, quer pelas coisas más”. O pai, que era da área das engenharias, foi um dos primeiros altos quadros da Mabor – Manufactura Nacional de Borracha, atual Continental Mabor, que foi inaugurada na freguesia de Lousado, precisamente em 6 de abril de 1946. E a mãe, que era farmacêutica, abriu a Farmácia Calendário.

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