O 25 de Abril

A liberdade cria espaço. E, quando esse espaço existe, cabe a cada um decidir o que fazer com ele. No meu caso, foi transformar um sonho de juventude numa realidade.

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Esta data permanece como uma das datas mais marcantes da nossa história recente. Não apenas pelo fim de um regime que durou quatro décadas, mas sobretudo pelo regresso a um espaço onde a liberdade deixou de ser um conceito distante para passar a fazer parte do quotidiano. Para muitos, foi o início de uma nova vida. Para outros, como eu, foi também o momento em que sonhos antigos ganharam finalmente terreno para se tornarem possíveis.

Vivi os anos anteriores ao 25 de Abril sem intervenção ativa na oposição. Não por concordar com o regime, mas porque o meu caminho era outro. Desde muito cedo, com 15 ou 16 anos, tinha um objetivo claro, criar uma fábrica de bolachas. Pode parecer um sonho simples, mas na altura estava longe de o ser. A atividade encontrava-se condicionada, limitada por regras e licenças difíceis de obter. O futuro parecia distante e incerto.

Foi então que surgiu uma coincidência improvável, daquelas que a vida raramente oferece. Uma senhora, de origem judaica, refugiada da guerra na Alemanha, a quem recordo como Madame Blawvoule (a grafia poderá não ser exata, mas a memória permanece), chamou a atenção do meu pai para a falência da Sociedade Portuguesa de Confeitarias. Mais importante ainda: essa empresa detinha o alvará necessário para o tipo de produção que eu ambicionava.

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Aquilo que era a desgraça de uns abriu uma porta inesperada para outros. O meu sonho, que até então parecia bloqueado por circunstâncias externas, ganhou uma nova possibilidade de concretização. Foi um momento decisivo.

Pouco tempo depois, dá-se o 25 de Abril. Com ele, não veio apenas a liberdade política, mas também uma transformação profunda na sociedade e na economia. O consumo de bens correntes aumentou de forma significativa. As pessoas passaram a viver de forma diferente, com novas expectativas e novas necessidades. Esse crescimento coincidiu, de forma quase simbólica, com o arranque do meu projeto.

Pergunto muitas vezes, que melhor contexto poderia ter tido? Um país a abrir-se, uma economia a mexer, e um sonho que encontrava finalmente condições para sair do papel.

Não faço julgamentos políticos nem pretendo analisar o regime que terminou ou o sistema que se seguiu. A história tem muitas versões, e quem a viveu sabe que ela nunca é completa nem linear. Cada um guarda a sua verdade, feita de experiências, decisões e silêncios.

O que posso afirmar é que o 25 de Abril representou, para mim, a possibilidade concreta de avançar. Não apenas em termos de liberdade de expressão ou de participação cívica, mas no plano muito prático de construir algo próprio. Trabalhar, arriscar, produzir, sem os constrangimentos que antes tornavam tudo mais difícil.

Hoje, olhando para trás, vejo esse período como um cruzamento raro entre mudança histórica e realização pessoal. Sei que não estarei cá para avaliar plenamente o impacto de tudo o que foi iniciado naquele dia. Essa tarefa caberá às gerações seguintes, aos meus netos e aos seus contemporâneos, que irão interpretar, questionar e dar continuidade ao que herdaram.

Se há algo que retiro dessa experiência é simples, a liberdade cria espaço. E, quando esse espaço existe, cabe a cada um decidir o que fazer com ele. No meu caso, foi transformar um sonho de juventude numa realidade.

E isso, por si só, já diz muito sobre o significado do 25 de Abril.

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