Há uma inquietação na ideia de ser substituível. Não se diz. Sente-se.
No trabalho, nas relações, nos gestos mais pequenos, como quando alguém passa a usar a tua cadeira sem reparar. A qualquer momento, alguém ocupa o lugar. Sem esforço visível. E o mundo segue.
Troca-se tudo com facilidade. Pessoas incluídas. Se não fores tu, será outro. Se não hoje, amanhã.
Ainda assim, há uma diferença. Reconhece-se.
Há quem passe e não deixe rasto. E há quem saia e desloque ligeiramente o sítio das coisas. Nada pára. Tudo funciona. Mas há um atraso mínimo, um gesto que falha, uma pausa que antes não existia.
Quase ninguém é indispensável.
Não é isso.
Há quem escute antes de responder. Quem acaba o que começa. Quem não cede só porque é mais fácil. Não se mede. Não vem em currículo. Mas está lá.
Depois há a adaptação. Uns diluem-se até desaparecer na função. Outros ficam presos ao que eram e deixam de caber. Pelo meio, poucos.
São esses que fazem diferença. Não porque não possam ser substituídos, podem. Mas porque, quando saem, qualquer coisa sai com eles.
Nada de grave.
Mas há sempre um segundo a mais no silêncio.


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