A época recente do Futebol Clube de Famalicão ficará marcada como a mais brilhante da sua história, com o alcançar do 5.º lugar no campeonato nacional, uma série longa de jogos sem perder e o consumar de anos de evolução desportiva.
Antes de prosseguir é importante fazer o “disclaimer” informativo de que não sou adepto do FC Famalicão e tenho visto cada vez menos futebol ao longo dos anos, por diversas razões, mas sobretudo porque não gosto de campos viciados à partida. O meu interesse por este tema é resultado da dinâmica que o FC Famalicão tem apresentado, dos seus reflexos no concelho e das implicações políticas desta dinâmica.
SUCESSO DESPORTIVO
O sucesso nunca surge por acaso e o crescimento do clube nos últimos anos tem sido evidente, quer seja pelo desempenho na 1ª liga ou pelos resultados da aposta na formação temos assistido ao crescimento de uma estrutura que atingiu o topo daquilo que se pode pensar num clube médio, visto que competir com os 3 grandes e um Braga que lhes morde os calcanhares é algo impensável.
A aposta na formação tem sido uma das marcas mais evidentes desta fase do clube. Jogadores jovens, como é o exemplo do Gustavo Sá e outros menos conhecidos do grande público, foram integrados e mesclados com jogadores mais experientes. A capacidade de identificar talento, desenvolvê‑lo e valorizá‑lo tornou‑se uma das principais armas do Famalicão.
A isto junta‑se uma gestão desportiva eficaz, capaz de construir plantéis equilibrados e competitivos. A escolha de treinadores alinhados com a filosofia do clube e a capacidade de manter um balneário coeso foram igualmente determinantes para alcançar resultados que, há poucos anos, pareceriam improváveis.
INCERTEZA FINANCEIRA
Mas nem tudo são boas notícias. Por detrás do brilho desportivo, o clube enfrenta uma realidade financeira débil, que é também algo normal no futebol português. O Relatório mais recente aponta para 17 milhões de euros em capitais próprios negativos, um valor que não pode ser ignorado e que coloca o projeto numa posição vulnerável.
Apesar das muitas notícias de vendas astronómicas, é importante reter a frase de que Vendas não são Lucros e como qualquer clube em Portugal é preciso vender muito para manter as contas equilibradas. E para além disso é preciso receber aquilo que se vende para equilibrar a tesouraria e nesse aspeto o futebol é um negócio terrível. Olhando para os números friamente a Famalicão SAD tem de ter mais valias em vendas de jogadores de 20 milhões de euros anuais só para não ter prejuízo.

Este desequilíbrio financeiro levanta questões legítimas:
– Até que ponto o modelo atual é sustentável?
– Que garantias existem de que o investimento continuará a acompanhar a ambição desportiva?
A verdade é que o futebol português está cheio de exemplos de projetos que brilharam intensamente durante alguns anos, apenas para colapsarem quando a realidade financeira bateu à porta. O Famalicão não merece esse destino, sendo os próximos anos determinantes para perceber se será possível juntar equilíbrio financeiro ao sucesso desportivo.
Conseguir vender jogadores formados no clube, que representam mais valias maiores e que não têm de ser divididas com outros clubes e empresários será determinante, bem como saber aproveitar as competições europeias para atrair novas receitas.
UM ESTÁDIO QUE NÃO ACOMPANHA A AMBIÇÃO
A tudo isto soma‑se um problema estrutural que ninguém ignora: as fracas condições do Estádio Municipal de Famalicão, que é manifestamente insuficiente, faltando claramente conforto para quem assiste aos jogos e sendo difícil acreditar que nas condições atuais possa receber provas europeias.
Aqui, é importante deixar claro que não sou favorável a que o estado invista dinheiro no futebol profissional, logo teremos de encontrar uma forma de melhorar o estádio sem investimento público. Sei que muitos me dirão que é injusto termos assistido a outras autarquias a investir em estádios e a nossa não o fazer. Mas basta ver o resultado do investimento desastroso em Braga, Algarve ou Aveiro para perceber que esse não deve ser o caminho.
No entanto, é importante ser claro e não ser tão irresponsável como foi o presidente Mário Passos, que nos decidiu enrolar a todos com um projeto agradável ao ouvido mas sem sustentação. Ainda não acredito que decidiu abrir um concurso internacional sem auscultar previamente possíveis interessados, algo que hoje claramente percebo só ter ocorrido para que tivesse conseguido ultrapassar as últimas eleições autárquicas sem problemas.
Assim, só vejo uma forma de resolver o imbróglio, ceder aquelas instalações ao clube num prazo equivalente ao do concurso internacional (cerca de 50 anos) e lançar o desafio à Famalicão SAD de construir um novo estádio naquele local, que poderá ser faseado para não ser tão exigente financeiramente. Será que a SAD está disponível para este desafio?


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