Depois de um primeiro artigo onde contei como um grupo de famalicenses ilustres se mobilizou para criar a Casa-Museu de Camilo, com uma reunião inicial em 18 de abril de 1915, em que foi criada a Comissão Promotora de Homenagem Póstuma a Camilo Castelo Branco, abordarei agora o processo da compra da casa e o arranque da reconstrução do imóvel tendo em vista o museu camiliano, que na altura se pretendia que tivesse “projeção nacional e internacional”.
A formalização da aquisição da casa de Seide ocorreu a 17 de abril de 1916, através de escritura pública lavrada pelo notário Rodrigo Terroso. O imóvel, juntamente com o seu recheio, foi comprado aos descendentes de Camilo, assinalando um passo decisivo para a criação de um espaço de memória dedicado ao autor – o futuro museu camiliano. O momento ficou marcado para a posteridade com o registo fotográfico de todos os intervenientes, captado nos jardins da propriedade, então ainda em ruínas. As fotografias encontram-se atualmente preservadas no arquivo da Comissão Promotora de Homenagem a Camilo, integrado no fundo documental da Casa de Camilo Museu – Centro de Estudos.
Concretizada a aquisição da casa e do terreno envolvente, avançou-se para a fase de reconstrução. O projeto foi entregue ao arquiteto portuense Carlos Fernandes Leituga, convidado para elaborar a planta e delinear a transformação do edifício. Com experiência consolidada, nomeadamente em projetos ligados aos caminhos-de-ferro do Minho e Douro, Carlos Leituga surgia como a escolha ideal para liderar a conceção do novo museu camiliano e da então Escola Primária de Seide, instalada na casa onde Camilo vivera os últimos 27 anos da sua vida, e onde escrevera a maior parte das suas obras.
Respeitando os elementos estruturais da casa original, destruída totalmente pelo incêndio, o arquiteto introduziu, contudo, alterações profundas para adaptar o edifício às novas funções de escola primária e residência do professor. A intervenção implicou o alteamento da construção, permitindo dotar as salas de aula do pé direito e da volumetria exigidos pela legislação em vigor para a nova funcionalidade.
Na fachada principal, voltada para o caminho público do Souto, as seis frestas existentes no rés-do-chão foram substituídas por quatro janelas e duas portas, assegurando as condições de iluminação necessárias à instalação de duas salas de aula.
O aumento da altura do edifício implicou igualmente a reformulação da escada de acesso ao primeiro piso, situada na fachada posterior. Inicialmente composta por um único lanço de onze degraus, a escadaria passou a organizar-se em dois lanços, ambos com o mesmo número de degraus, separados por um patamar. O lanço inferior foi disposto de forma oblíqua em relação ao caminho de saída da propriedade. Junto a este lanço manteve-se a emblemática acácia – uma robínia plantada por Camilo Castelo Branco em homenagem ao seu filho Jorge.
No outono de 1916, tiveram início as obras de pedreiro, enquanto a comissão promotora mantinha ativa a campanha de angariação de fundos, a que acrescentava o apoio do Estado, através de um subsídio de dois mil escudos, proveniente de uma verba do Ministério da Instrução, destinada à construção de edifícios escolares.
Em paralelo com a obra que ia tomando forma, como sistematicamente iam dando conta os jornais locais da época, intensificou-se a preparação do futuro projeto museológico. À semelhança do que sucedia noutros museus consagrados a figuras de relevo, a comissão de cidadãos famalicenses promoveu contactos com alguns dos mais prestigiados artistas da época, com o objetivo de reunir na Casa-Museu representações de Camilo Castelo Branco.
Ao destacado pintor José de Brito, professor da Escola de Belas Artes do Porto e que conhecera pessoalmente o escritor, foi encomendada uma enorme tela a óleo com o retrato de Camilo. Idêntico convite foi igualmente dirigido ao artista Jorge Colaço, amplamente reconhecido pelos seus notáveis painéis de azulejos em diversas estações ferroviárias do país, com especial destaque para os da Estação de São Bento, no Porto. Foi-lhe pedida a criação de um painel azulejar representando o escritor, obra que hoje se encontra colocada na Casa dos Caseiros. Outros nomes de importância das artes portuguesas de então, como António Teixeira Lopes e José Malhoa, associaram-se igualmente à iniciativa, oferecendo obras inspiradas na figura do escritor para integrar o espólio do futuro museu camiliano.
À medida que o projeto de um museu camiliano ganhava projeção na opinião pública, a comissão passou a receber doações de diversas origens. Figuras mais ou menos conhecidas, bem como numerosos anónimos, quiseram associar-se à iniciativa, contribuindo para a formação do acervo museológico através da oferta de objetos de valor simbólico e documental. Foi o caso de alguns membros da própria comissão de homenagem, como Nuno Simões, que integrou a primeira assembleia e ofereceu um busto de Camilo Castelo Branco em madeira, da autoria de Diogo de Macedo. Também Cruz de Magalhães, reconhecido como um dos maiores entusiastas camilianos a nível nacional, contribuiu com uma escultura do escritor, executada por Ruy Teixeira Bastos.
Para além das artes plásticas, o movimento de apoio ao futuro museu alargou-se ao universo bibliográfico e documental. Camilianistas de norte a sul do país – incluindo também do Brasil – fizeram chegar à comissão livros e documentos destinados a enriquecer o espólio da nova casa-museu.
Em novembro de 1920, cinco anos após o início do projeto de reerguer das cinzas a casa do mestre de Seide, a comissão dava por concluída a parte essencial da sua missão. A casa fora reconstruída, o museu instalado e a Escola Primária de S. Miguel de Seide colocada em funcionamento, permitindo à comissão cumprir o objetivo inicialmente traçado: entregar o edifício à guarda e manutenção da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. Ficando para mais tarde a inauguração solene do museu camiliano, quando se concluísse a estrada que faria a ligação de Vila Nova de Famalicão a S. Miguel de Seide. Infelizmente, a inauguração solene acabou por nunca se realizar, conforme era desejo das partes envolvidas. Circunstâncias diversas, de ordem material e até conjuntural, irão contribuir para esse desfecho, impedindo a concretização de um momento que se pretendia de especial significado simbólico e institucional.
Houve apenas uma modesta cerimónia, a 28 de novembro de 1920, relativa à inauguração da escola de Seide, na renovada casa de Camilo. O próprio número de convidados foi restrito, limitando-se quase à família do escritor, nora e netos, que foram parte ativa em todo o processo, aos elementos da Câmara Municipal e aos membros da comissão de homenagem passando pelo professor e alunos da escola de Seide que deram um certo colorido ao evento. A cerimónia terminou com um almoço volante aos presentes oferecido por José de Azevedo e Meneses, cuja dedicação os jornais locais de então foram unânimes em considerar “na cruzada nobre e patriótica de honrar a memória do Mestre”.
Esta consideração e respeito enquanto timoneiro da comissão promotora de homenagem póstuma a Camilo foi igualmente entendida pela Câmara Municipal que, um ano depois, e ainda sem o museu camiliano ser inaugurado e abrir portas, convidou José de Azevedo e Meneses para o lugar de diretor. Por sessão camarária de 22 de agosto de 1921, sendo presidente, Júlio Gonçalves de Araújo, o efetivo camarário nomeia José de Azevedo e Meneses como diretor do museu camiliano, e Joaquim José de Sousa Fernandes, como subdiretor.
Era ao diretor, que não sendo ressarcido financeiramente pela função (à semelhança do subdiretor), que “cabia superintender superiormente na vida e interesses do Museu”. Isto é, cabia-lhe a boa administração do museu, garantindo não apenas o cumprimento das normas estabelecidas no regulamento interno (que seria aprovado em sessão camarária de 18 de junho de 1927, durante a presidência do meu tio-bisavô, Francisco Alves Correia de Araújo), mas também a articulação harmoniosa com o executivo camarário, a quem tinha obrigação de prestar contas e elaborar um relatório anual.
Um ano depois, e ainda sem estar concluída a obra da estrada para Seide, à qual tantos entraves se tinham colocado, a comissão de homenagem, em articulação com a Câmara Municipal, decidiu proceder à abertura provisória do museu. Determinando a abertura formal no dia 15 de outubro de 1922, do meio-dia até às quatro da tarde, regime que se manteria nos domingos subsequentes, até à realização da inauguração oficial que desejavam que ocorresse em tempo oportuno e com a presença do Presidente da República. Essa presença institucional que tanto desejavam e que conferiria ao evento a dignidade e projeção desejada, e até merecida, nunca chegou a acontecer.
Entretanto, a abertura, designada como provisória, mas efetivamente concretizada, permitia já cumprir os objetivos traçados, assegurando o acesso público ao espaço e dando início à sua função museológica e memorial a Camilo Castelo Branco, conforme era desejo comum de todos os que haviam contribuído para a concretização do projeto.
Cem anos volvidos, o museu permanece aberto ao público, já não apenas ao domingo, das 12h00 às 16h00, mas diariamente de terça a domingo, das 10h00 às 17h30, acompanhando as exigências contemporâneas de fruição cultural e acessibilidade. Mais do que uma simples evolução de horários, esta continuidade traduz a vitalidade de uma instituição que soube adaptar-se ao tempo sem perder a essência da sua missão: homenagear Camilo Castelo Branco.
Hoje, a Casa de Camilo afirma-se como a mais antiga casa-museu de um escritor em Portugal, constituindo um verdadeiro símbolo de permanência cultural e uma marca, que orgulha Vila Nova de Famalicão e os famalicenses, perpetuando, com dignidade e sentido de serviço público, a memória de um dos maiores nomes da literatura portuguesa – Camilo Castelo Branco, ou simplesmente, Camilo.


Comentários