Na minha experiência, ir ao supermercado em Portugal tornou-se um hábito de comparar preços ao cêntimo antes de comprar.
O consumidor olha para o leite, para o arroz, para a carne e percebe que o preço já pouco difere do preço praticado em países mais ricos da Europa e em alguns casos, o preço até é maior.
O problema é que o salário em Portugal ainda está preso a uma realidade económica que não altera há duas décadas.
Hoje, um litro de leite em Portugal aproxima-se facilmente dos preços praticados em Espanha ou França. O arroz, produto básico da alimentação portuguesa, segue o mesmo caminho. O pão, que durante anos foi símbolo de alimentação acessível, tornou-se mais um exemplo da escalada silenciosa do custo de vida.
Dados europeus sobre preços alimentares e inflação mostram que os alimentos em toda a União Europeia sofreram fortes aumentos nos últimos anos, com destaque para leite, cereais e arroz.
Para mim, o mais preocupante não é só o aumento dos preços.
A ausência de crescimento salarial acompanha essa subida.

Em Portugal, o salário médio líquido ainda está muito longe do que se paga em França, Alemanha ou até Espanha. O trabalhador alemão ou francês consegue pagar os aumentos no supermercado porque o rendimento mensal do trabalhador alemão ou francês geralmente passa dos 2.500€ ou 3.000€ líquidos, mas os trabalhadores portugueses muitas vezes têm que viver com um salário que mal chega a 1.000€ líquidos.
Para mim, isso mostra a verdadeira frustração social. O português paga preços europeus com salários portugueses.
A comparação é inevitável. Em muitos supermercados alemães ou franceses, vários produtos alimentares custam praticamente o mesmo que em Portugal.
Há até casos relatados por consumidores portugueses emigrados onde determinados produtos são mais baratos na Alemanha do que cá. Comunidades online têm multiplicado exemplos de compras comparativas entre Portugal e países europeus, mostrando diferenças mínimas nos preços finais, apesar do enorme fosso salarial.

Durante muitos anos disseram aos portugueses que Portugal tinha custos de vida mais baixos.
Hoje não constato isso, a história dos números não engana. A habitação/imobiliário está aos preços de Miami, a energia pesa muito no orçamento das famílias, e a alimentação não é definitivamente mais barata. Portugal já não é barato para viver, Portugal é um país onde os salários são baixos e os preços dos bens essenciais estão sempre no top 5 da Europa.
O mais grave é que esta realidade foi sendo normalizada.
Sempre que alguém denuncia os preços elevados, surge imediatamente a explicação do costume: impostos, transporte, dimensão do mercado ou guerra. Mas essas justificações começam a perder força quando o consumidor encontra produtos portugueses mais baratos lá fora do que dentro do próprio país.
A economia portuguesa vive hoje um problema perigoso. A economia portuguesa quer ser vista na Europa como rica, a economia portuguesa quer elevar os preços como a Europa rica, mas a economia portuguesa ainda paga salários muito baixos.
Tenho dito que a razão de preços tão elevados é por causa do turismo. Dados da Secretaria Geral da Economia: “O turismo em Portugal atingiu um peso histórico na economia, representando cerca de 12% a 16,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024/2025, dependendo se a métrica considera apenas o contributo direto ou o impacto total (direto e indireto). Em 2024, a atividade turística gerou cerca de 34 mil milhões de euros.”
Recebendo nós pessoas do mundo todo com a carteira recheada, a tentação de subir os preços é grande e as grande cadeias assim o fazem.
Enquanto a economia portuguesa não conseguir fazer os ganhos crescer de forma constante, cada ida ao supermercado será um lembrete de que Portugal entrou nos preços da Europa desenvolvida sem nunca ter salários compatíveis.
Com isso não me venham dizer que, a alteração ao código do trabalho como os patrões e PSD desejavam iria ser o remédio santo.
Com contratos mais precários, a obrigatoriedade dos pais de crianças até aos 12 anos trabalharem ao fim de semana, com as mães a serem perseguidas e com a criação de um banco de horas onde o patrão tem toda a vantagem de negociar, acredito que isso seria o fim da nossa economia e do pleno emprego.
E talvez seja precisamente aí que começa a maior revolta silenciosa dos portugueses, perceber que o problema já não está apenas nas compras do mês, mas no país que aceita salários de pobreza para sustentar preços de luxo.


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