Cabotagem é a navegação entre portos marítimos sem perder a costa de vista.
A cabotagem contrapõe-se à navegação de longo curso…
É certo que nos critérios de recrutamento ao cargo de Presidente de Câmara não consta o pré-requisito de um Pós-Graduação em Finanças Públicas, mas há mínimos higiénicos. Todo o “bom” governante sabe que se poupa na primeira parte do mandato, para distribuir na 2.ª parte. Este expediente é especialmente refinado no último ano e em particular nos últimos 6 meses.
Por sorte, as festas da terra assentam que nem uma luva neste calendário.
O que não se entende é esta sanha, logo no primeiro quarto do mandato. Para mais num período em que a economia da terra já está acelerada. Tentando não maçar o leitor com detalhes e derivadas, é consensual que os orçamentos públicos mais generosos não devem acontecer quando a economia já se encontra no seu potencial (baixa taxa de desemprego e empresas no limite da sua capacidade de produção). Isso, porque vai desviar recursos e obrigar a pagar mais na contratação da obra ou do serviço.
Mas este axioma nem sempre dá jeito.
Se eu tiver uma grande campanha de obras públicas, as empresas contratadas deixam de estar a fazer outras coisas. Por exemplo, casas. Estranhamente os camaradas do IL nunca utilizam este argumento (pelo menos ao nível local).
Reconheço que a realidade não é assim tão simples. Temos de ter em consideração as oportunidades de financiamento, como é o caso do PRR, e as necessidades que o município tem de responder a problemas inusitados, por exemplo, construir um estacionamento junto do centro de saúde de Famalicão, porque, entretanto, retirou o estacionamento da via pública.
Há casos em que é recomendável abrir os cordões à bolsa logo no início do ciclo de governação. Nem mais, um novo organigrama. O novo organigrama abre um mundo de oportunidade (de carreiras) e uma despesa adicional anual de 2 milhões de euros. E, neste caso, faz todo o sentido assumir já a desdita, pois daqui a 4 anos já ninguém se lembra disto e, no pior cenário, pelo menos já cá ficam os 4 anitos no carrinho.
Queiram, por favor, considerar esta informação dos 2 milhões de euros, por ano, como uma estimativa. Mário Passos desmentiu o número, mas não apresentou nenhum valor alternativo, nem a sua devida demonstração matemática. E assim, como a natureza tem horror ao vazio, é o que temos, 2 milhões de euros, por ano. Até prova em contrário.
Ora segundo a Deputada Sandra Santos do PS, os lugares estarão destinados a “amigos e financiadores”. Facto não desmentido por Mário Passos, que não respondendo às questões, tratou de classificar a deputada de mal-educada, mas não de mentirosa. Por exclusão de partes, concluímos que a deputada não faltou à verdade, ou seja, não mentiu.
Não posso deixar de notar o facto de Mário Passos ser bastante eloquente quando é confrontado por mulheres inconformadas. Já num debate da campanha eleitoral usou de um expediente semelhante para condicionar a candidata do PAN Sandra Pimenta. Mas talvez seja problema (meu) de perceção, maleita que está muito na moda.
Ora governar nos nossos dias não é uma tarefa para um amador (para não ser mal interpretado, esclareço ‘amador’ no sentido daquele que ama o que faz), solitário e mais ou menos bem-intencionado. Precisamos de sonhadores, para criar uma realidade nova, discussão pública para validar e apropriar-se dessa nova realidade e técnicos com estudos e dados para avaliar a sua viabilidade.

A propósito disso, saiu agora a notícia da construção de um silo-auto com 300 lugares de estacionamento junto à estação da CP. Não sei se o anúncio foi para anular a proposta (original) do PS ou se tal ideia já fermentava nos corredores da câmara.
Certo é que a boa intenção pode sobrecarregar o já muito problemático cruzamento entre a av. 25 de Abril e as ruas António Sérgio e Santa Maria Madalena. Este cruzamento é um verdadeiro nó górdio do trânsito local e para resolvê-lo o município assumiu a clássica tática de empurrar o problema com a barriga. Só por milagre não há mais acidentes neste sítio.

E se pensarmos Out of the box, «a língua inglesa fica sempre bem/e nunca atraiçoa ninguém», não fará sentido pensarmos num formato tipo Coimbra? Com a estação A e B. Porque não termos a plataforma principal em Barrimau e montar uma solução integrada com a rede de autocarros e uma oferta pendular de transporte com a ligação ao centro da cidade e à zona industrial, com prolongamento a Ribeirão/Lousado e à Trofa. Nada de novo, na prática é consolidar a ‘cidade linear’ que já existe.
Mas a gestão por impulso, ao sabor da corrente, sem nunca perder a linha de costa, impede este executivo de levantar os olhos e transpor a linha do horizonte. Assim, logo à noite é outra vez arroz.


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