António Joaquim Pinto da Silva, que durante mais de quarenta anos serviu a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão como responsável pelo Arquivo Histórico Municipal, faleceu no último sábado, 16 de maio, aos 67 anos, pouco tempo depois de se ter aposentado. Com a saúde fragilizada nos últimos anos, desaparece uma das figuras mais marcantes da preservação da memória coletiva do concelho.
Natural de Vila Nova de Famalicão, onde nasceu em 18 de setembro de 1958, António Joaquim Pinto da Silva dedicou toda a sua vida profissional à salvaguarda, organização e valorização do património documental famalicense, tornando-se uma referência incontornável para investigadores, estudantes, jornalistas e cidadãos que, ao longo de décadas, encontraram nele um mediador atento entre o presente e o passado.
Reconhecido como o verdadeiro guardião da memória famalicense, António Joaquim Pinto da Silva, que era licenciado em história pela Universidade do Porto, foi responsável por assegurar que milhares de documentos, registos e testemunhos históricos permanecessem acessíveis às gerações futuras, contribuindo decisivamente para a construção da identidade local. Um trabalho que iniciou na presidência do socialista Agostinho Fernandes, que em 1983 o designou como primeiro responsável do Arquivo Histórico Municipal.
Para além do trabalho diário no Arquivo Municipal, destacou-se também pela sua produção bibliográfica, da qual sobressai a obra “Imagens de Famalicão Antigo”, uma edição de luxo publicada pela Câmara Municipal em 1990, com o patrocínio do então Banco Português do Atlântico (BPA). Este livro, amplamente valorizado pela comunidade e pelos estudiosos da história local, constitui um dos mais importantes repositórios visuais do passado famalicense.
OBRAS PUBLICADAS
O nome de António Joaquim Pinto da Silva ficou também gravado em obras que são referências incontornáveis da historiografia local como “Vereações de Vila Nova de Famalicão – 1835-2005”, de que foi autor, e em estudos fundamentais, entre os quais “Vila Nova nas Memórias Paroquiais de 1758”, “História de Vila Nova de Famalicão” e “As Portas da História de Vila Nova de Famalicão 1835-2015”, em que participou como coautor.

Ao longo da sua carreira, António Pinto da Silva foi um dos pilares da política arquivística municipal. O sociólogo Daniel Faria, que é quadro superior da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e um estudioso da história local, lembra o seu papel na estruturação do Arquivo Histórico Municipal desde a sua criação, e que exerceu funções de elevada responsabilidade técnica e dirigente, incluindo as chefias das divisões de Arquivos, Arquivos e Logística, e Bibliotecas e Arquivos. Para Daniel Faria, que com ele privou de perto, Pinto da Silva foi um profissional que compreendeu como poucos “a importância dos arquivos enquanto guardiães da memória coletiva e instrumentos fundamentais de cidadania, investigação e identidade cultural”.
A sua intervenção estendeu‑se também à Comissão Municipal de Toponímia e ao Conselho Consultivo do Boletim Cultural do Município, onde deixou marca pelo rigor intelectual e profundo conhecimento da história local. Os seus estudos são amplamente citados em trabalhos académicos e científicos, sendo considerados referências essenciais para a reconstituição da identidade histórica famalicense. Como sublinha Daniel Faria, num texto que escreveu nas redes sociais, “o reconhecimento do seu trabalho ultrapassou largamente o âmbito municipal”.
Mas o legado de António Joaquim Pinto da Silva não se esgota no investigador e no dirigente. Quem com ele trabalhou recorda o colega generoso, o amigo afável e o homem de cultura discreta, que exerceu funções ao longo de quatro presidências municipais com “lealdade institucional, profissionalismo e entrega exemplar”. A convivência diária deixou memórias de “camaradagem, cumplicidade profissional e inteligência serena”, que agora permanecem como testemunho humano da sua passagem.
UM LEGADO QUE PERDURA
Com a sua morte, considera Daniel Faria, desaparece “uma das mais nobres referências da cultura histórica famalicense contemporânea”. Contudo, o seu exemplo perdura: “Há seres humanos cujo percurso transcende o tempo da sua existência física e se transforma, silenciosamente, em património da comunidade. António Joaquim Pinto da Silva foi um desses seres humanos”, aponta o sociólogo Daniel Faria.
A associação famalicense Memória Viva, liderada pelo consultor de comunicação Carlos de Sousa, também veio a público destacar a figura de António Joaquim Pinto da Silva. “Que Famalicão não o esqueça e saiba honrar o legado de António Joaquim Pinto da Silva”, afirmou a direção da Memória Viva nas redes sociais:
A obra de António Joaquim Pinto da Silva, construída com paciência, método e sentido de missão, perdurará muito para além da sua vida, garantindo-lhe um lugar de destaque entre aqueles que mais contribuíram para preservar e interpretar a memória famalicense.
SILÊNCIO MUNICIPAL
Homem rigoroso, de caráter reservado e profundamente dedicado ao serviço público, António Joaquim Pinto da Silva nunca foi homenageado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, mas deixa uma marca indelével na vida cultural do concelho. Até ao momento, nem a Câmara Municipal de Famalicão, nem o seu presidente, Mário Passos, se pronunciaram nas suas redes sociais sobre a morte de António Joaquim Pinto da Silva.
O funeral realiza-se esta segunda-feira, a partir das 15h00, na antiga Igreja Matriz, com a realização de uma missa de corpo presente, seguindo-se o cortejo fúnebre até ao cemitério municipal, em Gavião. A missa de sétimo dia está marcada para sábado, 23 de maio, às 18h00, na nova Igreja Matriz, junto à Câmara Municipal. À família de António Joaquim Pinto da Silva, o NOTÍCIAS DE FAMALICÃO apresenta sentidas condolências.


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